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3 em cada 10 alunos de SP afirmam sofrer bullying; aparência é o principal motivo de agressões

Estudo mapeou competências socioemocionais de estudantes da rede estadual e identificou necessidade de ações para fortalecer empatia, autoconfiança e tolerância

20 mai 2021 11h10
| atualizado às 13h36
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Três em cada dez alunos da rede estadual de São Paulo afirmam ter sido vítimas de bullying e as agressões mais comuns são ligadas à aparência do corpo e rosto, além de cor ou raça. Os dados inéditos fazem parte de uma pesquisa divulgada pela Secretaria Estadual da Educação nesta quinta-feira, 20, que mapeou as competências socioemocionais dos alunos paulistas no ano de 2019.

O estudo, realizado pelo Instituto Ayrton Senna, ouviu 110 mil estudantes, do 5º e do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio, em novembro de 2019, antes da pandemia, portanto. Participaram da pesquisa 3.586 escolas da rede estadual. Os dados sobre as competências socioemocionais foram obtidos por meio do relato dos próprios estudantes, que responderam a questões sobre como se sentem em situações do cotidiano escolar.

Desenvolvimento de competências socioemocionais pode ajudar a reduzir violência nas escolas
Desenvolvimento de competências socioemocionais pode ajudar a reduzir violência nas escolas
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado / Estadão

Segundo a pesquisa, 29,72% dos alunos reportaram ter sofrido zombarias, intimidações ou humilhações nos 30 dias que antecederam o estudo, por pelo menos um motivo. Entre os que disseram sofrer bullying, 16,1% apontaram a aparência do corpo como o foco da agressão. A aparência do rosto aparece em seguida, com 14,5%.

Os estudantes também relataram sofrer humilhações por causa de cor ou raça (8,1%), religião (7,3%), orientação sexual (6,5%) e região de origem (6,2%). A pesquisa mapeou ainda que 10,2% dos estudantes admitem caçoar, intimidar ou zoar algum colega. Para o tópico relacionado ao bullying, foram ouvidos 31.340 estudantes.

Segundo a Secretaria Estadual da Educação, o estudo oferece dados para planejar as ações nas escolas com foco no fortalecimento das competências socioemocionais. Essas competências se traduzem na capacidade de se relacionar consigo e com os outros, estabelecer objetivos, tomar decisões e enfrentar situações novas ou adversas.

São exemplos de competências socioemocionais persistência, empatia e tolerância ao estresse. Nos últimos anos, o desenvolvimento dessas competências ganhou força nas escolas - há um entendimento de que elas tornam melhores não só a aprendizagem como as relações pessoais e de trabalho. As competências socioemocionais foram incluídas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento de 2017 que indica o que os estudantes devem aprender em cada etapa.

Entre as vítimas de bullying, o estudo mostrou que 20,7% dos alunos do 5.º ano percebem como pouco desenvolvida a competência da autoconfiança. No 9.º ano, a taxa aumenta para 31,7% e no 3º ano do ensino médio é de 27,5%. Já a prevenção de comportamentos intimidadores passa por fortalecer competências como empatia, persistência e tolerância à frustração - pouco desenvolvida entre os alunos que praticam o bullying.

As competências socioemocionais são consideradas formas de proteção contra ansiedade, depressão e condutas violentas na escola. Elas ajudam os estudantes na regulação dos sentimentos de raiva, frustração e a lidar com a insegurança em relação às próprias capacidades - o que poderia ajudar a mitigar problemas de violência escolar.

"As vítimas de bullying têm maiores chances de desenvolver problemas relacionados à depressão e ansiedade. Os benefícios do desenvolvimento socioemocional vão para além do que acontece na vida escolar - reverberam depois na vida adulta", afirma Gisele Alves, gerente executiva do EduLab21, do Instituto Ayrton Senna.

Em março de 2019, um massacre em uma escola estadual de Suzano (SP) deixou dez mortos, incluindo os dois atiradores, ex-alunos do colégio, e acirrou debates sobre a necessidade de ações para combater a violência nas escolas. Este mês, um ataque em uma escola de Saudades (SC) deixou cinco mortos.

Foco no ensino fundamental

De modo geral, a pesquisa identificou que as competências de repertório artístico e cultural e autoconhecimento e autocuidado são as menos desenvolvidas em todas as séries. Alunos do 9º ano, na transição entre o ensino fundamental e o médio, perceberam como menos desenvolvida a maior parte das competências socioemocionais, quando comparados aos demais anos avaliados.

Segundo o secretário estadual da Educação, Rossieli Soares, os dados evidenciam a importância de investir em ações voltadas para os anos finais do ensino fundamental. "Essa resposta é um sinal de alerta emitido pelo próprio estudante. É como um pedido de ajuda", diz Gisele. O ensino fundamental 2 coincide com o início da adolescência.

Emoções e aprendizado

O estudo também identificou que 12,6% dos alunos do 5º ano percebem que desenvolveram pouco a curiosidade para aprender - o que pode ter impacto no desempenho escolar. Já os mais velhos notam como menos desenvolvida a competência de determinação, que também auxilia o estudante na execução de novas ideias e na elaboração de estratégias.

"Em torno de 350 mil pessoas (alunos) têm a autopercepção de que são muito pouco desenvolvidas as competências que impactam diretamente na aprendizagem", diz Rossieli. O secretário apontou a importância de formação de professores e construção de planos de ação nas escolas voltados para o desenvolvimento dessas competências. E destacou ações em curso na Secretaria como as escolas de tempo integral.

Embora os dados sejam referentes a 2019, antes da pandemia, os especialistas apontam que o retorno à sala de aula demandará ainda mais projetos com esse foco. "Nossas projeções com relação à pandemia são de impactos socioemocionais relevantes", diz Gisele. Por outro lado, segundo ela, as competências podem ajudar a diminuir eventuais dificuldades trazidas pelos estudantes durante o período de isolamento.

A pesquisa sobre o desenvolvimento de competências socioemocionais entre os estudantes será aplicada novamente neste ano - o que permitirá à pasta monitorar a evolução dos alunos nessas habilidades. Também será realizada entre os profissionais da Educação, para ajudar a elaborar estratégias de formação dos docentes. A partir desta quinta-feira, 20, professores podem preencher um questionário online sobre competências socioemocionais.

Inglês para os mais novos

Durante evento para apresentar os resultados do estudo, o secretário Rossieli Soares também anunciou que o ensino de inglês será expandido para os estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano) a partir de 2022. Hoje, o currículo paulista prevê ensino de inglês para alunos a partir do 6.º ano do fundamental.

"Vim de escola pública, meu inglês não é bom e tenho certeza que se tivesse mais condições teria mais oportunidades na vida", disse o secretário, ao anunciar o ensino da língua inglesa. "Imagina o quanto esses adolescentes vão ter de oportunidades se investirmos em uma segunda língua para eles", continuou Rossieli. Segundo ele, a introdução da disciplina nos anos iniciais será debatida com professores e diretores nos próximos meses.

Rossieli ainda anunciou uma expansão do programa Inova para mais 620 mil alunos em fevereiro de 2022. O programa é voltado para alunos dos anos finais do ensino fundamental e médio e tem o objetivo de conectar os estudantes à escola, com atividades ligadas à vocação dos alunos, à tecnologia e à inovação. No ano que vem, passará a incluir os estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental.

Estadão
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