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Do Panamá à Venezuela: como os EUA transformam intervenções em política doméstica

Ao dissolver a fronteira entre o doméstico e o internacional, criminalizar lideranças estrangeiras e subordinar a soberania latino-americana a interesses estratégicos, Washington reitera uma lógica imperial que atravessa séculos.

6 jan 2026 - 00h27
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Intervenções, apoio a golpes, operações encobertas e a deslegitimação seletiva da soberania sempre foram elementos constitutivos da política externa dos Estados Unidos na América Latina. O sequestro de Nicolás Maduro insere-se nesse padrão histórico, mas introduz uma inflexão relevante, tanto no tempo quanto no espaço.

No tempo, porque ocorre em um contexto de circulação acelerada de informações, no qual a ação se torna imediatamente visível e politicamente performativa. No espaço, porque, pela primeira vez desde meados do século XIX, os Estados Unidos recorrem ao uso aberto da força contra um governo da América do Sul, região onde tradicionalmente prevaleceram estratégias indiretas — como a asfixia econômica, a guerra híbrida e o apoio a movimentos golpistas.

Esse deslocamento está em consonância com a Estratégia de Segurança Nacional recém-lançada, que explicita a centralidade da preeminência estadunidense no Hemisfério Ocidental e admite o uso da força como instrumento legítimo dessa projeção, no marco de um "corolário Trump" à Doutrina Monroe. Trata-se, portanto, da consolidação de uma política externa de alcance declaradamente hemisférico, na qual a projeção de poder se estende da Groenlândia à América do Sul.

O inimigo como criminoso comum, que ameaça a sociedade americana

A familiaridade do roteiro chama atenção. O inimigo é produzido discursivamente por meio de uma vilanização simplificada, na qual o líder estrangeiro é reduzido à figura do criminoso comum e apresentado como ameaça existencial à sociedade norte-americana.

A chamada "guerra às drogas" cumpre, nesse processo, um papel central: transforma conflitos políticos e geopolíticos em problemas morais e de segurança interna, esvazia a soberania do outro e desloca a intervenção do campo da política internacional para o da defesa das cidades, das famílias e da ordem doméstica dos Estados Unidos.

Esse enquadramento funciona como cobertura moral e securitária para objetivos estratégicos mais profundos. No caso venezuelano, ele se articula diretamente com a centralidade do petróleo, a valorização da segurança energética, a defesa da expansão da produção de combustíveis fósseis e a promessa de reindustrialização interna — condensadas no slogan de campanha de Trump "drill, baby, drill" ("perfure, baby, perfure").

O discurso oficial insiste em afirmar que a ação beneficiará o povo venezuelano, tornando-o mais rico e livre. A história da região, no entanto, revela o caráter de farsa desse tipo de promessa. A América Latina já viu esse filme antes.

Conflito é pelo controle de recursos estratégicos nacionalizados

O paralelo com o Panamá, na América Central, em 1989, é particularmente elucidativo. A invasão norte-americana que resultou na captura do general Manuel Noriega guarda semelhanças impressionantes com o caso atual, a ponto de a prisão ocorrer, novamente, em 3 de janeiro, como se o calendário também participasse da repetição desse script imperial.

Naquele episódio, os Estados Unidos deixaram de reconhecer plenamente a soberania panamenha, enquadraram o chefe de Estado como narcotraficante, ofereceram recompensa por sua captura e o submeteram ao sistema judicial norte-americano. A operação foi acompanhada por um espetáculo público de humilhação, incluindo o uso de música em volume máximo para forçar Noriega a sair da Nunciatura Apostólica.

Há, no entanto, uma camada adicional de continuidade que vai além das semelhanças discursivas e jurídicas. Tanto no caso do Panamá quanto no da Venezuela, o conflito se inscreve em disputas mais amplas em torno do controle de recursos estratégicos nacionalizados nos anos 1970.

No Panamá, a crise com Noriega ocorre poucos dias antes de uma etapa decisiva do processo de transferência do controle do Canal para uma comissão panamenha, conforme os acordos firmados em 1977 durante o governo Carter — acordos que Trump voltou a criticar décadas depois como "tola", um erro estratégico.

Na Venezuela, a criação da PDVSA, a estatal responsável pela exploração e gestão do petróleo venezuelano, no contexto da nacionalização do setor energético nos anos 1970, constituem o pano de fundo estrutural de uma relação historicamente marcada pela disputa em torno da soberania energética.

Em ambos os casos, narrativas securitárias — a "guerra às drogas", a instabilidade política, a criminalização da liderança — funcionam como camadas de legitimação para conflitos cujo núcleo envolve o acesso, o controle e a projeção de poder sobre infraestruturas e recursos estratégicos.

Há, contudo, uma diferença relevante entre o caso panamenho e o venezuelano na lógica mobilizada para justificar a intervenção. Em 1989, a criminalização de Noriega foi acompanhada por uma narrativa explícita de restauração democrática. A condução de Guillermo Endara ao poder permitiu aos Estados Unidos apresentar a invasão como um processo de normalização política, ancorado na ideia de democracia.

No caso venezuelano, essa lógica democrática — historicamente mobilizada como linguagem de legitimação de dinâmicas imperialistas dos Estados Unidos — perde centralidade. A própria recusa de Trump em reconhecer Maria Corina Machado como liderança política viável, seguida da disposição em negociar diretamente com representantes do governo que afirma combater, evidencia que a intervenção não se estrutura em torno da promessa de reconstrução democrática.

Narrativa desloca o conflito do campo da soberania para o da polícia

Ainda assim, o mecanismo central que estrutura a intervenção permanece o mesmo. Tanto no Panamá quanto na Venezuela, a estratégia passa pela redução do chefe de Estado à figura de um criminoso comum. Ao operar esse enquadramento, os Estados Unidos deslocam o conflito do campo da soberania para o da polícia e da justiça doméstica. Na construção política e jurídica elaborada em Washington, não há invasão nem agressão externa — porque a soberania do outro é, antes, negada. O caso panamenho, nesse sentido, não é apenas antecedente histórico, mas um precedente que ajuda a iluminar o que se repete, agora, no caso venezuelano.

O não reconhecimento de Maduro como representante legítimo da Venezuela esvazia, desde o início, qualquer acusação de violação da soberania. Ao ser apresentado como chefe de uma organização narcoterrorista, Maduro é simbolicamente deslocado da condição de presidente para a de foragido. A recompensa por sua captura, o enquadramento penal e a exibição pública de sua imagem algemado a bordo de um navio militar norte-americano reforçam esse enquadramento.

Enquadramento especial: Ao ser mostrado algemado e vestindo roupa prisional, com agentes da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA), Nicolás Maduro é simbolicamente deslocado da condição de presidente para a de foragido. X
Enquadramento especial: Ao ser mostrado algemado e vestindo roupa prisional, com agentes da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA), Nicolás Maduro é simbolicamente deslocado da condição de presidente para a de foragido. X
Foto: The Conversation

Esse movimento torna-se ainda mais evidente nas declarações do presidente norte-americano após a operação. Em vez de enfatizar objetivos internacionais, Trump fala reiteradamente das cidades e das famílias dos Estados Unidos afetadas pelas drogas e pela criminalidade e da necessidade de restaurar a ordem interna. A ação é apresentada não como violação da soberania de outro país, mas como recuperação da soberania norte-americana. Maduro passa a ser tratado como responsável último por problemas internos dos Estados Unidos.

O Hemisfério Ocidental como zona de gestão externa de problemas concebidos como domésticos

Esse movimento discursivo se inscreve diretamente na lógica do "America First", que redefine a política externa a partir da primazia absoluta do espaço doméstico dos Estados Unidos. A fronteira entre o dentro e o fora deixa de ser um limite jurídico e passa a ser tratada como uma extensão funcional dos interesses internos norte-americanos. O Hemisfério Ocidental reaparece, assim, não como espaço de convivência soberana, mas como zona de gestão externa de problemas concebidos como domésticos.

É justamente esse deslocamento que permite a Trump contornar o direito internacional. Se não há soberania reconhecida, não há Carta da ONU a ser respeitada, não há princípio de não intervenção a ser violado, não há ordem liberal baseada em regras a ser considerada. A ação ocorre, assim, ao arrepio do direito internacional, mas acompanhada de uma estratégia deliberada de produção de legitimidade no plano doméstico. Trata-se de uma forma clássica de extraterritorialidade imperial, na qual o alcance do poder se estende para além das fronteiras formais do Estado.

Não por acaso, instaurou-se uma disputa aberta em torno da linguagem utilizada para caracterizar o episódio. Enquanto o governo dos Estados Unidos evita sistematicamente o termo "guerra", autoridades venezuelanas e vozes críticas à operação insistem em nomeá-la como tal.

Essa controvérsia está longe de ser semântica. Reconhecer a ação como ato de guerra implica reconhecer a existência de um governo legítimo e de uma soberania a ser violada — exatamente o que Washington procura negar. Ainda antes da operação, o secretário de Estado Marco Rubio já se referia reiteradamente à Venezuela como um "regime ilegítimo", preparando o terreno político e jurídico para a recusa do reconhecimento soberano.

Ao insistir na ideia de restauração da ordem, no controle de ameaças e nos supostos efeitos de Maduro sobre as cidades e as famílias norte-americanas, Trump reinscreve a intervenção no registro da ordem doméstica, atribuindo a Maduro a origem de problemas internos da sociedade norte-americana por meio de uma ginástica retórica deliberada.

Do outro lado, a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez reage afirmando o óbvio político que essa narrativa tenta apagar: tem governo na Venezuela. De forma significativa, a caracterização da operação como ato de guerra também emerge de setores progressistas dentro dos próprios Estados Unidos. O prefeito de Nova York — cidade onde Nicolás Maduro responde a processo judicial nos Estados Unidos — Zohran Mamdani classificou publicamente a ação como um ato de guerra. Negar essa caracterização, portanto, não é um detalhe retórico, mas parte central da estratégia política que sustenta a intervenção: ao recusar o nome "guerra", os Estados Unidos recusam reconhecer a soberania que tornaria sua ação juridicamente ilegítima.

O episódio envia mensagens claras a múltiplos interlocutores por meio de um show de força. Ao qualificar a operação como "espetacular" e apresentá-la como demonstração inequívoca de força, Trump sugere que os Estados Unidos voltaram a impor respeito no Hemisfério Ocidental.

Espetáculo cumpre função disciplinadora

No plano interno, a violência externa é convertida em capital político doméstico, mobilizando medo, ordem e a promessa de proteção das famílias americanas. No plano regional, o espetáculo da força cumpre uma função disciplinadora: reivindica uma América Latina alinhada e submissa, deixando claro que a dissidência tem custos elevados. Mais do que responder ao caso venezuelano, a operação comunica uma ameaça preventiva — mostra o que pode acontecer com governos que se afastem da órbita de Washington.

No plano global, a mensagem é dirigida sobretudo à China. Ao reafirmar sua disposição de usar a força no Hemisfério Ocidental, os Estados Unidos atualizam a lógica da Doutrina Monroe: se no século XIX o objetivo era afastar as potências europeias, hoje trata-se de conter a expansão chinesa em uma área historicamente tratada como zona de influência exclusiva.

A recusa em aceitar a presença de potências extra-hemisféricas reaparece, assim, sob novas condições geopolíticas. Nesse contexto, a recente decisão do Panamá de se retirar da Iniciativa Cinturão e Rota, após pressões explícitas de Washington, revela que a disputa não se limita ao campo militar, mas envolve também coerção diplomática e econômica em torno de infraestruturas estratégicas como o Canal.

Paradoxalmente, esse tipo de ação tende a ampliar o "poder soft" chinês na região, justamente porque Pequim constrói sua presença a partir de uma retórica de cooperação horizontal, não intervenção e benefício mútuo — ainda que essa retórica também mereça análise crítica, já que tal relação não está isenta de assimetrias.

O sequestro de Maduro, portanto, não deve ser lido como um evento excepcional. Ele se insere numa longa tradição de intervenções que constituem a própria identidade internacional dos Estados Unidos. Ao dissolver a fronteira entre o doméstico e o internacional, criminalizar lideranças estrangeiras e subordinar a soberania latino-americana a interesses estratégicos, Washington reitera uma lógica imperial que atravessa séculos.

Para a América Latina, a lição é dura, mas conhecida. Não se trata de novidade histórica, mas da atualização de um padrão antigo, que retorna sob novas roupagens, com diferentes graus de violência e novas justificativas, sem jamais abandonar sua lógica imperialista estruturante.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Marta Regina Fernandez y Garcia não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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