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Culpas, desencontros e silenciamentos: como pais envangélicos fundamentalistas encaram a homossexualidade de filhos

Uma característica central da fé evangélica fundamentalista é o modo como se lê o texto bíblico, de forma anti-histórica e literal, o que gera culpa e sofrimento nas famílias

4 mai 2026 - 09h27
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Acabo de defender meu doutorado sobre homossexualidade no contexto do fundamentalismo religioso. O estudo foi desenvolvido no âmbito do programa de pós-graduação em Psicologia Clínica, do Departamento de Psicologia da PUC-Rio. Julgo que seria incorreto dizer que a tese é fruto do trabalho dos últimos quatro anos. Na verdade, ela é resultado de um longo e árduo percurso. Desde minha infância, estive intensamente envolvido em alguma igreja batista. Minhas principais referências de amizade, minhas mais intensas lembranças de entretenimento e aprendizado se deram na ambiência eclesiástica. Dos ensinos sobre sexualidade, o conteúdo envolvia rigor, pecaminosidade e silêncios. A reflexão não era algo viável.

Aos dezoito anos, decidi fazer Teologia, pois desejava ser pastor. Simplesmente, amava tudo que envolvia a igreja. No seminário teológico corriam ventos mais libertários.

Comecei a ler e interagir com novas ideias que fomentaram reflexões que me distanciaram do fundamentalismo, mas sem força suficiente para fazer-me romper integralmente. Distanciaram-me da truculência fundamentalista, da arrogância de pensar deter toda a verdade, de acreditar na inerrância bíblica, da incapacidade em acolher a diferença. Mas as marcas permaneciam.

Vivia a insuperável angústia de perceber-me sob ameaça em todo ambiente não cristão que apresentasse ou pudesse apresentar questionamentos mais elaborados sobre Teologia e, ainda mais, sobre a sexualidade. E isso se justificava por uma outra marca fundamentalista em mim: a crença de que a bíblia seria expressão da verdade cristã sobre os assuntos supranaturais e éticos, um texto que expressaria a verdade divina. Portanto, o conteúdo escrito seria indiscutível, seria a norma.

Durante o curso de Psicologia vivi as alegrias da reflexão mais arejada conjugada à angústia de perceber que não havia condições de fundamentar minhas convicções religiosas sobre a sexualidade.

Em minha atuação clínica e na escuta pastoral presenciei sofrimentos intensos relacionados à homossexualidade. A única resposta religiosa possível, distante da condenação, era o acolhimento e o doloroso silêncio.

A pesquisa

Diante dessa minha trajetória, questionamentos e busca por respostas, resolvi estudar o sofrimento na vivência da homossexualidade em ambientes evangélicos fundamentalistas. Uma característica central da fé evangélica fundamentalista é o modo como se lê o texto bíblico, de forma anti-histórica e literal.

Para alcançar meus objetivos, optei por um estudo qualitativo para avaliar a relação entre pais evangélicos e filhos ou filhas homossexuais. Como método utilizado, a análise de conteúdo que é uma metodologia proposta por Laurence Bardin para análise dos dados. Da análise das entrevistas, emergiram várias categorias.

Entrevistei dois pais e 10 mães evangélicas que tinham uma percepção fundamentalista da bíblia quando a homossexualidade do(a) filho(a) foi revelada.

A culpa (quase) inescapável

Um sentimento comum entre pais é que seria possível modelar compreensões e práticas dos filhos, pois eles são percebidos como extensão dos pais, como esclarecem os autores Andrea Ferrari, Cesar Augusto Picinini e Rita Sobreira Lopes em um artigo calcado nesse sentimento. Fracassos e erros dos filhos tenderão a ser percebidos como decorrentes de erros dos pais na educação de um(a) filho(a). Assim será percebida a homossexualidade de um(a) filho(a) para um pai/mãe evangélico(a). Meu estudo revelou que a presença da culpa entre esses pais é intensa e frequente.

Somente dois participantes conseguiram superar a culpa. Exatamente aqueles que mudaram a percepção sobre a homossexualidade. Passaram a percebê-la como uma possibilidade legítima para um cristão, desfazendo sua condição pecaminosa.

O desmentido foi o mecanismo de defesa utilizado para se proteger do sentimento de culpa. O desmentido é uma cisão inconsciente que permite conjugar ideias contraditórias, como explicam Lucas Neckel e Maria Luíza Magro.

Impactos no vínculo com o(a) filho(a)

Sobre um filho são transmitidos projetos a serem realizados, como nos ensina Luciana Azevedo, Terezinha Ferez-Carneiro e Samuel Lins. A homossexualidade constitui uma fissura na idealização projetada sobre esse(a) filho(a). Tal fato suscita a vivência de um luto simbólico parental. Luise Monteiro e Luciana Pessôa explicam esse conceito que produz sofrimento e tem o potencial de fragilizar a relação entre pais e filhos.

Todos os participantes vivenciaram a fragilização do vínculo parental. Quem vivenciou a homossexualidade do(a) filho(a) como um ataque contra si, percebendo-se envolto em injustiça e ingratidão, não conseguiu refazer o vínculo parental.

Os que passaram a compreender a homossexualidade como algo legítimo a um cristão, refizeram com mais facilidade o vínculo. Quem manteve a convicção pecaminosa recorreu, mais uma vez, ao desmentido para viabilizar a reconstrução do vínculo com o(a) filho(a).

Desencontros familiares

O estereótipo social, que fundamenta o preconceito sobre a homossexualidade, é transmitido geracionalmente nas famílias. Assim, a homossexualidade de um(a) filho(a) poderá envolver um pai e uma mãe em eventuais conflitos com seus familiares. Se a família vivenciar uma fé evangélica fundamentalista, a situação tende a se tornar mais complexa, devido à produção reiterada de discursos condenatórios no ambiente eclesiástico.

Os conflitos vivenciados pelos pais entrevistados decorreram de posturas divergentes entre o modo como eles tratavam seus filhos e o modo como seus familiares lidavam. Quando havia divergência no modo de lidar, o silêncio viabilizou a convivência. Quando o silêncio apaziguador fosse rompido, o resultado foi o distanciamento ou, até mesmo, a ruptura.

Desencontros na igreja

A hegemônica condenação da homossexualidade entre os evangélicos se fundamenta supostamente na bíblia. Apesar dessa convicção, dos aproximadamente 31.100 versículos da bíblia protestante, apenas seis deles condenam a homossexualidade. Esse quase absoluto silêncio é preenchido por discursos reiterados de condenação à prática homossexual.

Diante do pouco interesse bíblico sobre a homossexualidade, a defesa de sua condenação poderá ser fragilizada se houver abertura a reflexões ou posturas acolhedoras a um homossexual no ambiente da igreja. Talvez isso explique a necessidade dos reiterados discursos condenatórios.

Entre os participantes, houve apenas uma mãe que manteve seu vínculo com a igreja fortalecido. Para tanto, foi necessário o distanciamento da filha. Para a manutenção de vínculos fortalecidos com o(a) filho(a) e com a igreja, somente mudando a compreensão sobre a homossexualidade e passando a congregar numa igreja afirmativa.

Quem manteve fortalecido o vínculo com o filho ou filha e permaneceu em sua concepção pecaminosa sobre a homossexualidade precisou recorrer ao silenciamento. Assim como ocorreu com o convívio familiar. A manutenção do vínculo com a igreja mostrou-se viável somente quando a homossexualidade foi superficializada e silenciada.

Diante dos resultados deste estudo, percebi que a junção da onipotência parental com a condição pecaminosa da homossexualidade enreda os pais numa trama de culpa de difícil escapatória. Infelizmente, um ponto em comum entre todos os participantes foi a expressão de sofrimento. Em todos os relatos, a dor psíquica esteve presente, sob formas distintas.

Espero que este estudo traga mais reflexões e possibilidades de diálogos entre familiares evangélicos e de outras religiões.

A pesquisa que originou este artigo contou com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Andrea Seixas Magalhães recebe financiamento do CNPq e da FAPERJ. Ela é afiliada à AIPCF (ASSOCIATION INTERNATIONAL DE PSYCHANALYSE DE COUPLE ET DE FAMILLE).

Mariana Gouvêa de Matos recebe financiamento da FAPERJ como bolsista de pós-doutorado.

Remy Damasceno Lopes não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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