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Por que o arroz está mais caro?

Aumento da demanda tanto por parte do mercado nacional, com o auxílio emergencial, como do internacional, devido à desvalorização do real, têm papel na variação do preço

9 set 2020
20h40
atualizado em 10/9/2020 às 08h21
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A disparada do preço do arroz pode ser explicada pelo aumento da demanda, tanto por parte do mercado nacional como do internacional, ambos influenciados pela pandemia do coronavírus. Nas últimas semanas, um pacote de cinco quilos de arroz, que normalmente custa R$ 15, pôde ser encontrado em alguns lugares a R$ 40. Com isso, alguns supermercados já restringem a quantidade que cada cliente pode comprar.

Por parte do mercado nacional, especialistas explicam que houve um aumento na demanda, enquanto a oferta já estava "dada", ou seja, a quantidade de arroz oferecida no mercado era praticamente fixa, pois o plantio já havia sido feito, mas o interesse da população pelo item cresceu nos últimos meses.

"Ao longo dos últimos anos, tínhamos uma queda no consumo de arroz. Quanto maior a renda da população, menor o consumo de arroz, porque você vai migrando o consumo, consumindo mais proteína, por exemplo. Logo, se você consome menos um produto, excedente aumenta e o preço cai. Então, os produtores de arroz foram buscar outras fontes de renda", explicou Lucilio Alves, pesquisador responsável pela área de arroz do Cepea/ USP.

"Só que em 2020, começa a haver a restrição de locomoção, e as pessoas vão buscar alimentos de fácil preparo em casa e a preços competitivos. Tivemos um choque de demanda, e os estoques caíram. O estoque de passagem estava previsto para ser baixo até fevereiro de 2021. Além disso, tivemos neste ano o auxílio emergencial dado às pessoas."

Já por parte do mercado internacional, o interesse pelos produtos brasileiros se dá pela competitividade dos preços em função da desvalorização de quase 40% do real nos últimos 12 meses, em comparação com o dólar. "Com a aversão ao risco causada pela pandemia, o dólar subiu, enquanto o real caiu. Logo, qualquer produto produzido em real ficou mais barato para se comprar no exterior", disse Felipe Serigatti, coordenador do mestrado profissional em Agronegócios da FGV, explicando como a elevação da taxa de câmbio favorece a exportação.

Tire suas principais dúvidas sobre a alta dos alimentos:

De quanto foi o aumento dos alimentos?

O gasto com o grupo alimentação e bebidas voltou a pesar no orçamento doméstico em agosto, com uma elevação de 0,78%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os alimentos para consumo no domicílio, aqueles comprados nos supermercados, tiveram um avanço de 1,15% no mês.

No mês de agosto, houve pressão dos preços do tomate (12,98%), leite longa vida (4,84%), frutas (3,37%), carnes (3,33%), óleo de soja (9,48%) e arroz (3,08%). O arroz acumula uma alta de 19,25% no ano de 2020. Por outro lado, ficaram mais baratos a cebola (-17,18%), alho (-14,16%), batata-inglesa (-12,40%) e feijão-carioca (-5,85%).

Até quando o preço do arroz vai continuar alto?

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura, a produção de arroz estimada para a próxima safra (2020/21) é de 12 milhões toneladas, o que representa um aumento de 7,2% em relação à safra anterior. Com o aumento da oferta de arroz, que começa a ser comercializada em março de 2021, a expectativa é de queda de preços no próximo ano.

Mas o governo não zerou o imposto para o arroz?

De fato, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) zerou a tarifa de importação do arroz. O governo estabeleceu uma cota de 400 mil toneladas de arroz até o fim do ano que podem entrar no País sem a taxa. O montante vale para o arroz com casca e o beneficiado. De acordo com fontes do Ministério da Agricultura, o total é considerado suficiente para ajudar a conter a subida no preço do arroz e garantir que não faltará produto nas prateleiras.

Alves, da USP, no entanto, diz que para o consumidor, os efeitos no bolso não vão se alterar no curtíssimo prazo. "Se o mercado encontrasse alguma alternativa mais atrativa, ele já teria ido atrás. É difícil haver algum arroz que chegue a um preço menor que temos aqui hoje."

Com o dólar alto, o arroz importado não vai ser mais caro ainda?

É possível que os preços cheguem altos às prateleiras. "Os preços dos alimentos subiram em todo o mundo. No caso do arroz, países produtores tiveram problemas de safra e, por conta da pandemia, muitos países resolveram não exportar por segurança", avaliou o coordenador do núcleo econômico da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Renato Conchon.

Devo estocar arroz?

Não. "Esse alarde pode fazer com que as pessoas corram ainda mais para o mercado, e por isso os preços podem aumentar ainda mais", disse Alves.

De quem é a culpa?

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, notificou empresas e associações cooperativas ligadas à produção, distribuição e venda de alimentos da cesta básica para questionar a alta nos preços dos produtos. Ele indicou ter sido pego de surpresa pela informação. Todos terão cinco dias para responder aos questionamentos.

Há pelo menos 20 dias, fornecedores e supermercados travam uma queda de braço para ver quem fica com a menor margem de lucro.

A inflação vai aumentar por causa dos alimentos?

O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, diz que não. "A inflação é uma alta generalizada e recorrente. O aumento que estamos vendo agora não é generalizado, mas localizado em alguns produtos da cesta básica. Vai durar alguns meses e depois retorna à normalidade."

Alguns economistas, entretanto, já revisaram para cima as projeções de inflação do ano. A XP Investimentos aumentou sua projeção para a inflação de 2020 de 1,4% para 1,7%; o economista Fabio Silveira, sócio da MacroSector, que antes projetava inflação do ano em 2,7%, está revendo para 3,3% e o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Getúlio Vargas, prevê uma inflação de 2,3%, e não mais abaixo de 2%.

Quem está comprando os alimentos brasileiros?

A China decidiu fazer estoques estratégicos de alimentos, depois de sentir o risco de faltar comida por causa da paralisação provocada pela pandemia. De janeiro a julho, as compras da China injetaram US$ 24 bilhões no agronegócio, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). É uma cifra recorde para o período e quase 30% maior do que a registrada nos mesmos meses de 2019.

As compras de carnes bovina, suína, aves e especialmente da soja, que respondeu por 72% das aquisições no período, pressionou as cotações em reais desses produtos e já apareceu nos índices de inflação ao consumidor.

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Estadão
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