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Nova SP é repleta de placas de aluga-se e máscaras no queixo

Na cidade pós-quarentena, restaurantes definitivamente fechados, avenidas sem congestionamento, entregadores de delivery e obras

29 jun 2020
05h11
atualizado às 08h07
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Depois de mais de 100 dias de isolamento por causa do novo coronavírus, medidas de reabertura do comércio estão estimulando as pessoas a deixarem suas casas. Para quem tem cumprido a quarentena com rigor, e vai colocar os pés na rua após muito tempo, a primeira impressão é de que São Paulo transformou-se em uma cidade cheia de placas de "aluga-se" e de gente usando máscaras no queixo*.

Pessoas com máscaras de proteção contra o coronavírus em região comercial de São Paulo (SP) 
11/06/2020
REUTERS/Amanda Perobelli
Pessoas com máscaras de proteção contra o coronavírus em região comercial de São Paulo (SP) 11/06/2020 REUTERS/Amanda Perobelli
Foto: Reuters

Decerto que três meses foram suficientes para mudanças drásticas na São Paulo que um dia a gente jurou que conhecia tão bem. Mas que cidade é essa que nos aguarda do lado de fora? Vamos fazer essa viagem juntos... Antes, se for mesmo sair de casa, não se esqueça da máscara. Quase ninguém esquece.

O problema é o modo de usar. Você não vai andar 200 metros sem encontrar alguém com ela no queixo. "Abaixo um pouquinho para poder respirar", defende-se o técnico em informática Luciano Pereira, 26 anos. Você também vai reparar que no térreo de prédios comerciais, as cenas de funcionários fumando com as respectivas máscaras no queixo já são um clássico do chamado novo normal.

Não existe nenhuma desculpa razoável para andar sem proteção. Você vai perceber que lojas populares (do tipo que vende capinhas para celular) e bancas de jornal estão comercializando máscaras e álcool em gel. Aliás, esses são os produtos que você vai encontrar com mais destaque em pequenos estabelecimentos e na mão de ambulantes. "Eu trabalhava registrado. Perdi o emprego por causa da covid. Agora, vivo de vender máscara na rua. Faço duas por dez reais", contou Ezequiel David Frei da Silva, 20 anos.

Ao seguir com a nossa "reentrada" na atmosfera da cidade, é possível notar que as placas de "aluga-se" se impõem à paisagem. Grandes centros comerciais e áreas residenciais padecem do mesmo mal: lojas, restaurantes e bares que não resistiram à pandemia. Ao subir uma rua como a Teodoro Sampaio, em Pinheiros, na zona oeste, você poderá admirar portas de ferro cerradas (e quase sempre pichadas) que se repetem em sequência ou de forma intercalada. Trata-se de cenário de que só pode ser descrito como: "loja aberta, fechada, fechada, aberta, aberta, fechada, fechada...""

"Essa semana descobri que o restaurante perto de casa fechou e que o café ao lado do trabalho também não reabre. É estranho porque até 'ontem' pareciam funcionar direitinho", diz a secretária Renata Malezzi, 38 anos. O 'até ontem' muda de estabelecimento para estabelecimento. No restaurante Itamarati, o 'até ontem' significava desde 1940, ano da inauguração. O local, perto da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, não resistiu à pandemia e baixou as portas, com pouca chance de reabrir. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) diz que 40% dos negócios podem ter destino igual.

Portanto, ao sair de casa, ansioso por voltar ao restaurante em que você era conhecido pelo nome e tratado como amigo, por favor, certifique-se que ele continua existindo. Acreditem, avistar uma faixa de "fazemos delivery" e "take away" já é bastante reconfortante. Outro fator são promoções que gritam nas vitrines de lojas sobreviventes: "70% de desconto", "bota-fora", entre outras mensagens.

Em obras

Mas você também pode ser otimista e, no reencontro, reparar que a cidade está em obras. Calçadas sendo refeitas, lojas reformadas e até novos bares e restaurantes prontos para abrir, como o The Punch Bar, no Paraíso; Bar Elisa, no Arouche; e o Belle Époque, em Pinheiros. Não é raro ver estabelecimentos ainda fechados, mas com funcionários fazendo pequenos reparos, limpeza ou mudanças para distanciamento entre futuros clientes.

O que parece nunca ter fechado de verdade são night clubs e inferninhos. No Largo da Batata, os "porteiros laçadores" (homens que ficam nas portas das boates convidando pedestres para "conhecer o local") estão a todo vapor. À reportagem, garantiram usar álcool em gel e máscara no interior das casas.

Em geral, os habitantes mais reconhecíveis da nova cidade são entregadores de delivery. Adolescentes de bike, com baús nas costas, pedalando entre carros. Nas horas mortas, estão em praças, tentando relaxar ou esperando o próximo chamado pular no celular. E se tiverem um tempinho, almoçam uma coxinha de R$ 3 em botecos com mesinhas do lado de fora.

Mas segue o reconhecimento: o trânsito está melhor, mas longe de apresentar vias livres. Radial Leste e Marginais já têm movimento intenso ao longo do dia. Por outro lado, como as aulas não voltaram, o engarrafamento do horário de entrada e saída não existe mais. Apesar da boa notícia, é chocante ver escolas silenciosas ao meio-dia - o idílico barulho de pátio no recreio cessou totalmente. O mesmo em locais com cinemas de rua, como a Augusta. Salas fechadas esvaziaram o vai e vem da calçada. Desde o início da pandemia, procura-se um pipoqueiro nunca mais visto por lá.

Quer fila? A partir das 16h, quando os shoppings abrem, você as encontra com facilidade. Veja o Shopping Light, no centro. Cerca de 30 minutos antes de reabrir, a fila para entrar começa na Rua Xavier de Toledo, segue pelo Viaduto do Chá e quase chega à Prefeitura. Por lá, o primeiro cidadão na fila: Jorge da Silva, 61 anos. "Um parente ficou aqui desde 14h para guardar lugar. 'Tô' precisando pegar uns documentos aí." O shopping tem posto de atendimento da Polícia Federal. Já no Iguatemi, zona oeste, a fila de taxistas ansiosos. "A pandemia fez piorar o que já estava ruim. O único jeito de pegar cliente é aguardar na entrada dos shoppings e contar com a sorte", disse Osmar Cardoso, de 51 anos.

O centro merece atenção especial. É onde a crise desenha de forma mais evidente e escandalosa o drama que nos espreita. Basta uma visita para notar o quanto a pandemia contribuiu para a precarização. Na Sé, pessoas em situação de rua se abrigam em pequenas barracas, dormem no chão e na escadaria da Catedral (fechada). Impossível cruzar a praça sem ser abordado por pessoas pedindo dinheiro, comida ou qualquer ajuda.

A grande maioria não usa máscara ou respeita distanciamento social. É gente com fome e desassistida. O mesmo no Largo São Francisco. Há ações humanitárias, mas a situação parece fora do controle. "Tem gente aqui sem comer mesmo, não tem pra quem pedir. Os lugares que davam comida pra gente estão fechados. A gente 'tá' muito ferrado", disse um rapaz de 20 anos, que pediu para ser identificado só como Carlos.

É a cidade que, por enquanto, nos espera do lado de fora de nossas casas. Como uma velha conhecida que passou por meses difíceis e está um pouco mudada. Ainda é preciso ouvir a ciência sobre o momento certo para reocupá-la definitivamente e, talvez, transformá-la. Mas, calma, essa hora vai chegar. Seja lá como for, faça uma promessa para você mesmo: não use sua máscara no queixo.

*BASEADA NO FAMOSO VERSO DE OSWALD DE ANDRADE "O BRASIL É UMA REPÚBLICA FEDERATIVA CHEIA DE ÁRVORES E GENTE DIZENDO ADEUS".

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Estadão
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