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Em tempos como esse, melhor seria se a felicidade fosse um xarope. Uma felicidade com sabor de fruta vermelha - que pudesse disfarçar um eventual amargor na boca

17 mai 2021 03h10
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Em tempos como esse, melhor seria se a felicidade fosse um xarope. Uma felicidade com sabor de fruta vermelha - que pudesse disfarçar um eventual amargor na boca.

Em tempos como esse, melhor seria se a felicidade viesse em pacotes, que fosse entregue na porta de casa e tivesse muitos meses de validade.

Melhor seria se a felicidade fosse um tônico que abrisse o apetite e nos fizesse ressuscitar
Melhor seria se a felicidade fosse um tônico que abrisse o apetite e nos fizesse ressuscitar
Foto: Reprodução / Estadão

Em tempos como esse, melhor seria se a felicidade fosse um móvel fácil de montar, com um manual prático (escrito em três ou quatro idiomas). Uma felicidade dobrável, sem quinas ou sem nenhum parafuso espanado.Em tempos como esse, melhor seria uma felicidade reciclável. Uma felicidade transformada em outra felicidade - que seria reciclada novamente em mais felicidades.

Em tempos como esse, melhor seria se a felicidade fosse matemática. Uma felicidade que tivesse uma fórmula, uma equação simples - e que o resultado fosse um número par. Melhor seria se a felicidade fosse como a tabuada do dois.

Em tempos como esse, melhor seria se a felicidade fosse alcançada pela fórmula de Bhaskara. Ou de Máscara.

Em tempos como esse, melhor seria se a felicidade fosse um tônico, que fizesse crescer cabelo, que abrisse o apetite e nos fizesse ressuscitar.

Em tempos como esse, melhor seria se a felicidade fosse oxigênio.

Em tempos como esse, melhor seria se a gente cuidasse dos nossos, lançasse palavras doces pela janela e batesse panelas.

Em tempos como esse, melhor seria se a gente gritasse, se a gente cantasse, se a gente aprendesse a dançar.

Em tempos como esse, melhor seria se a gente tivesse coragem.

Em tempos como esse, melhor seria se a gente morasse em outro país, um que tivesse vacina e outro presidente.

No mais, a tristeza já está posta - com sua fartura de silêncios, despedidas e tragédias. Comemos deste barro até a exaustão, mas ainda não podemos nos levantar da mesa. Os dias estão difíceis, eu sei.

Não existe pensamento mágico. Só existe um dia depois do outro. Em tempos como esse, melhor seria se a gente lutasse.

Estadão
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