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Festas secretas desafiam lei e pandemia em Berlim

Apesar de clubes da capital alemã estarem fechados há 5 meses devido à covid-19, aglomerações secretas são organizadas via Telegram

30 jul 2020
06h14
atualizado às 07h45
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Max (nome alterado para proteger o anonimato) verifica a localização geográfica no Google Maps. "A festa deve ser em algum lugar por aqui", diz, penetrando mais num parque do noroeste de Berlim. São duas horas da manhã, e os postes de luz estão apagados. Ele ilumina o caminho com uma lanterna de bolso, olhando regularmente para a tela do telefone com um alfinete no destino desejado.

Animada, secreta, excitante, barulhenta... e ilegal
Animada, secreta, excitante, barulhenta... e ilegal
Foto: DW / Deutsche Welle

Numa noite quente de julho como esta, Max provavelmente estaria na fila para entrar num dos clubes de Berlim. Frequentador assíduo de festas techno, ele diz que isso o ajuda a lidar com o estresse do trabalho. De segunda a sexta-feira, o jovem de 28 anos é gerente de uma empresa de tecnologia.

Faz quase cinco meses que ele não vai a nenhum clube, pois todos estão de portas fechadas. E com o receio de uma segunda onda da pandemia de coronavírus, não há sinais de que abrirão tão cedo.

Mas isso não significa que as festas acabaram. Elas simplesmente mudaram de local. As raves são mantidas secretamente em parques, florestas e prédios abandonados por toda a cidade. Uma delas é exatamente o que Max procura. "Um amigo meu me convidou para uns grupos do Telegram, onde as pessoas postam informações sobre as próximas raves", explica, percorrendo um desses chats no celular.

Ele abandona o caminho em direção aos arbustos. No chão, mal se pode perceber uma vereda trilhada recentemente. Ouve-se música por perto. Max faz um aceno com a cabeça e acelera.

Dez pessoas dançam ao redor de uma caixa de som. Mas isso é tudo. Luzes de bicicleta piscam na escuridão, seguindo a estrada que leva do parque à cidade. Max lê em voz alta uma mensagem do grupo Telegram: "A polícia chegou e terminou com a festa".

Informações exclusivas para convidados

Max é membro de vários desses grupos do Telegram que podem ser acessados apenas por meio de convite. Eles variam de 50 a 1.500 participantes. Num dos maiores, ele contou pelo menos cinco endereços de raves, apenas naquela noite, e esteve em quatro delas.

Uma foi numa floresta e durou um dia. "Festejar ao ar livre é prático, pois dá para tirar uma soneca na grama", explica. O sigilo faz parte da atração. "Essas conversas fechadas, as coordenadas via GPS e as caçadas de raves - isso tudo é muito legal."

A caçada continua. "Ok, eu provavelmente deveria ir para o Hasenheide, mas isso já é considerado mainstream", diz Max, com um tom de decepção. Trata-se de um parque no bairro de Neukölln, no sudeste de Berlim.

Festas espontâneas ao ar livre sempre fizeram parte das noites de verão berlinenses, mas como os clubes permanecem fechados, o Hasenheide se transformou numa meca para festas legais e ilegais.

Encontrar um amigo e dançar em espaços públicos abertos é legal, mas organizar uma festa com centenas de pessoas não. Tais festas autoorganizadas se encontram agora numa zona cinzenta, pois ninguém sabe quantas pessoas podem comparecer. Se a polícia detecta grupos ilegais, eles são dispersados, e em alguns casos os envolvidos estão sujeitos a multas.

"Entendemos que as festas fazem parte da vida", observou um representante da polícia de Berlim em conversa com a DW. "Nossa abordagem básica é cooperativa, tentamos explicar aos participantes que eles representam um risco."

Uma vez que uma festa se transforma num evento de massa, ela pode de fato ser perigosa. Jonas Schmidt-Chanasit, chefe de diagnóstico virológico do Instituto Bernhard Nocht de Medicina Tropical em Hamburgo, diz que qualquer aglomeração maior, inclusive festas ao ar livre, implica uma elevação do risco de infecção.

"Sabemos que o vírus se espalha através de gotículas. Quando se canta, aplaude, grita, essas gotículas são expelidas particularmente forte e longe. Outras pessoas podem inalá-las e se infectar."

O virologista diz que, mesmo em eventos ao ar livre, deve-se manter distância ou, se isso não for possível, pelo menos usar máscara protetora. "Essa é a única maneira de impedir que indivíduos infectados contagiem outros e desencadeiem o fenômeno chamado de 'superdisseminação'."

Pela legalização das festas ao ar livre

Agora são três da manhã, e o parque Hasenheide se transformou num grande festival de música ao ar livre. Não tem só techno, o local se divide em várias zonas: de um arbusto parte música dos anos 90, em outra área, se dança pop moderno.

Max segue o som do techno. Um trailer de madeira de bicicleta coberto de lâmpadas coloridas serve de mesa de mixagem para um DJ, com caixas de som amarradas co, uma corda. Distanciamento social e máscaras parecem nem passar pela cabeça dos cerca de 70 presentes.

"Só queremos dançar. É só uma festa. É verão, afinal de contas. Não representamos ameaça, estamos só cansados da pandemia", diz alguém no meio da multidão. Max compartilha dessa opinião, mas dança a dois metros do grupo.

A Comissão de Clubes de Berlim, uma organização oficial que representa os clubes da capital, está pedindo às autoridades que lhes deem a concessão para organizar festas ao ar livre o mais rápido possível. Ela preparou uma lista de espaços abertos em Berlim que podem ser usados para receber até 200 pessoas.

"Estamos discutindo nossa ideia com diferentes bairros. Isso ajudará a controlar as festas e rastrear as pessoas presentes", revela Lutz Leichsenring, da Comissão de Clubes. "Dessa forma, os organizadores cumprirão as medidas de higiene necessárias. Caso contrário, as festas ilegais ao ar livre vão continuar enquanto durar o verão."

A situação em Hasenheide reflete o que ele diz. Às 6 da manhã, a música ainda toca no parque. O sol está nascendo quando três carros da polícia entram numa área do parque. "Por favor, deixem o local. Vocês representam um risco de disseminação do coronavírus, por favor, saiam já", apelam.

A música termina, sem prisões. Os ravers colocam as caixas de som em trailers de bicicleta, a multidão deixa lentamente o parque. Segundo a polícia, cerca de 3 mil estiveram presentes. Mas o telefone de Max já está cheio de mensagens sobre onde serão as próximas festas.

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