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Doria: "Perder Mandetta seria um desastre para o Brasil" 

Governador de São Paulo defende ministro da Saúde e diz que crise uniu centro e centro-esquerda

31 mar 2020
10h47
atualizado às 11h29
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No fim da semana passada, o sinal de alerta soou no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Um integrante da equipe de segurança do governador João Doria (PSDB) testou positivo para o coronavírus, o que levou o tucano e sua esposa, Bia Doria, a fazerem um segundo exame, que não chegou a ser divulgado. Ao contar o episódio em uma sala no subsolo do Palácio, Doria retirou o resultado negativo de uma pasta e entregou à reportagem com uma provocação àquele que hoje substituiu o PT como seu principal adversário. "O seu primo lá de Brasília disse que fez, mas nunca mostrou".

Governador de SP, João Doria
21/02/2019
REUTERS/Amanda Perobelli
Governador de SP, João Doria 21/02/2019 REUTERS/Amanda Perobelli
Foto: Reuters

Esse tem sido o tom de Doria nos últimos tempos, que tirou do topo da lista de seus eventuais adversários na disputa presidencial de 2022 Lula e o PT para 'promover' o presidente Jair Bolsonaro. Mas somente Bolsonaro, não toto seu governo. Nesse entrevista, por exemplo, o governador fez uma defesa enfática da permanência do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, cujo discurso destoa da do presidente nas estratégias de combate ao novo coronavírus.

O governador também contou como está sendo sua nova rotina em tempos de covid-19. Doria tem optado por voltar para casa todas as noites, mas tem ficado até 15 horas no Palácio, onde dormiu apenas algumas noites desde o começo da crise.

A rotina na sede do executivo, porém, não mudou drasticamente. A lanchonete e os dois restaurantes do local continuam funcionando. A apertada sala de entrevistas, conhecida pelo ar-condicionado congelante, foi substituída pelo amplo salão da entrada principal. Os funcionários tem um vasto estoque de álcool gel à disposição, mas os cumprimentos foram substituídos por toques de cotovelo ou acenos a distância.

A segurança do governador também foi reforçada após as ameaças de morte que ele recebeu na semana passada e que ele atribui ao 'gabinete do ódio" do Palácio do Planalto. Acompanhe os principais trechos:

Lideranças de esquerda lançaram um manifesto pedindo o afastamento do presidente Jair Bolsonaro. Há quem enxergue nisso uma resposta ao seu protagonismo na oposição ao presidente.

Doria: Não vejo isso. Vi o manifesto. Sinto que cada vez mais crescem as manifestações em relação ao presidente Jair Bolsonaro pelas posições equivocadas e irresponsáveis que ele te adotado diante de uma crise tão grave como essa. O Brasil está sem um líder na mais grave crise de saúde dos últimos 90 anos, e a mais grave crise econômica também.

Acredita que Bolsonaro pode unir esquerda e direita contra ele?

Eles está provocando circunstâncias que nunca haviam sido visualizadas do ponto de vista político. Nesse momento, 24 dos 27 governadores estão unidos, independentemente de suas posições partidárias ou ideológicas. Não me lembro de ter visto algo sim no Brasil no período pós-ditadura militar. Isso é um fato novo na vida política do País. Também não me lembro de ver uma convergência como essa de visão no segmentos de centro e centro esquerda nos últimos 20 anos.

Pode surgir uma frente ampla contra o presidente Jair Bolsonaro?

Nesse momento há uma frente pelo Brasil, pela defesa dos brasileiros. Isso eu sinto claramente. Ela é composta por governadores, prefeitos, uma parte do Congresso Nacional e uma parte considerável do Judiciário, da imprensa, dos formadores de opinião. Há um movimento muito forte em defesa do Brasil. Não vejo essa frente nesse momento com nenhuma vocação política, partidária ou ideológica.

O senhor teme que a esquerda assuma o protagonismo do movimento de oposição ao Bolsonaro?

Ainda não vejo isso. Mesmo nessa manifestação assinada pelo Fernando Haddad, Flávio Dino, Ciro Gomes, eu não vejo política de marcação de posição ideológica ou eleitoral. Vejo, por enquanto, como mais um sentimento de defesa do que é correto e bom.

O senhor defende o afastamento ou o impeachment do Bolsonaro?

Quem deve ter essa posição é o Congresso Nacional. É ao Congresso que cabe fazer essa avaliação e tomar uma decisão. O que eu defendo é o Brasil. Espero que o presidente possa mudar de posição e defender o Brasil, e não agir contra. Ele não tem liderado o Brasil. O Bolsonaro hoje não lidera o Brasil. Espero que ele tenha a humildade de reconhecer o seu erro.

O que acha da ideia de isolamento vertical?

É absolutamente inviável. São 7 milhões de pessoas com mais de 60 anos em São Paulo. Como fazer o isolamento vertical de 7 milhões de pessoas, que representam o grupo de maior fragilidade? Não há 7 milhões de leitos, mesmo se reservassem todos os hotéis e pensões.

O ministro Mandetta chegou a flexibilizar o discurso por pressão do Bolsonaro e depois reforçou a orientação das autoridades médicas, chegando a afirmar que a população deve seguir orientações dos Estados. O que achou disso?

Ele mantém a posição que o isolamento é importante para preservação da vida. Em atenção ao Bolsonaro, ele fez algumas observações. Eu perdoo o ministro Mandetta por algumas dessas oposições, embora na essência ele esteja correto em defender medidas restritivas. Pelo menos até aqui. Pequenas observações que ele fez e que coincidem com a visão equivocada do presidente Jair Bolsonaro não afetam a relação da ciência e da medicina.

Mandetta está sendo alvo de uma fritura no governo. O que significaria a demissão dele?

Perder o Mandetta à frente do ministério da Saúde, com seu bom senso e equilíbrio, seria um desastre para o Brasil.

É possível ser anti-PT e anti-Bolsonaro ao mesmo tempo?

É possível ser a favor do Brasil. Mais importante do que ser anti partidos, pessoas ou ideologias é ser a favor do Brasil.

O senhor se arrependeu de ter votado no Bolsonaro? Como responde à acusação do presidente de que foi oportunista por ter usado seu nome para se eleger em São Paulo?

Não houve oportunismo. A circunstância de uma eleição estabelecia definir um lado. Ou era o lado da esquerda, apoiando e votando no Fernando Haddad, que eu derrotei nas eleições de 2016, ou era anular o voto ou votar em branco, coisa que nunca fiz e espero nunca fazer. Ou era votar no outro candidato, o que fiz assim como outras 58 milhões de pessoas que votaram no outro candidato.

Mas o senhor adotou até o lema 'Bolsodoria"...

O Bolsodoria surgiu no interior de São Paulo não por orientação, determinação ou iniciativa nossa. O movimento contribuiu para que na eleição ficasse clara nossa posição contra o outro candidato, Fernando Haddad, que representava um movimento de esquerda. Mas nossa posição nunca mudou. Continuo sendo um homem público de centro, do centro democrático. Não sou nem esquerda nem direita. Sempre defendi uma posição conciliatória e de diálogo com a esquerda e com a direita, mas distante dos extremos.

O liberalismo está em cheque com essa pandemia? Alguns teóricos defendem que está claro agora a importância do Estado.

Não concordo. Eu não associaria rever ou não o liberalismo com uma crise grave de saúde. São coisas distintas. Não se pode culpar nem esquerda nem direita. Isso é um erro.

O PSDB hoje é um partido de oposição ao Bolsonaro?

Essa é uma pergunta que deve ser dirigida ao Bruno Araújo, presidente do partido. O PSDB está a favor do Brasil.

O senhor defende a manutenção do calendário eleitoral esse ano?

É um ponto a ser avaliado nos próximos dois meses. De qualquer maneira, também é uma decisão do Congresso e do TSE. Não compete análise ao Poder Executivo.

As obras em São Paulo, privadas e públicas, não foram paralisadas. Por quê?

Para não haver incremento do desemprego. A construção civil nos últimos meses foi a grande contratante de mão de obra em SP. Mais de 200 mil pessoas foram contratadas pela construção civil nos últimos meses em SP. Ela absorve uma mão de obra mais simples, que precisa desse emprego para sobreviver. Nós pensamos nisso de forma serena. Pedimos ao setor que adotasse as medidas sanitárias necessárias. Eles têm seguido rigorosamente o protocolo sanitário. Com isso, evitamos a paralisação do setor, que podia vitimizar 200 mil pessoas.

A Fiesp procurou o governo federal e o STF para dizer que está preocupada com a segurança jurídica e pedindo uma centralização das ações. Como o senhor avalia essa inquietação da classe empresarial?

Não há inquietação da classe empresarial. A Fiesp não representa a classe empresarial, mas o interesse de poucos empresários e de um presidente da entidade que nem sequer é empresário. a representatividade é limitada. A Fiesp não fala pelo empresariado de São Paulo. Já falou no passado, mas hoje não fala mais. O pacto federativo tem que ser observado em qualquer circunstância. Não se pode tirar autonomia dos governadores. Pode se orientar, mas não retirar o poder de avaliação de um governador. Isso seria confrontar o pacto federativo e estabelecer uma concentração inadequada institucional e política.

Como o senhor avalia o silêncio da Fiesp, que é presidida pelo Paulo Skaf, um aliado de Bolsonaro, sobre o confinamento social?

A Fiesp deixou de ser uma entidade para ser uma nulidade.

A primeira quarentena termina no dia 7 de abril. O que esperar desse dia em diante? A pressão do governo federal pode antecipar a abertura do comércio?

A pressão do governo federal não tem efeito em São Paulo. Aqui, as decisões são balizadas pela ciência, não pelo governo federal. Temos uma relação fluida e constante com o ministro Mandetta, os secretários executivos e membros do Ministério da Saúde, que vem conduzindo bem o processo. A avaliação será dia a dia.

O senhor sofreu ameaças de morte. Como isso mudou sua rotina? Isso já tinha acontecido antes?

Nesse nível não. Na quinta-feira, ao terminar o Jornal Nacional, parecia uma ação articulada. Às 21h32, comecei a receber centenas de ligações telefônicas de WhatsApp. Diziam: 'Vamos invadir a casa do João Doria', colocaram a fotografia da minha casa e o endereço na internet. Outro movimento foi chamar João Doria filho disso, filho daquilo. Foi de uma maneira destemida. Era fácil de identificar a origem da ameaça. Todas essa informações estão com a Polícia Civil.

O senhor acusou o 'gabinete do ódio' do Palácio do Planalto, que é comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro, filho dele, como autor dessas ameaças. O senhor tem alguma prova disso?

Não quero antecipar o laudo policial. A Polícia Civil tem uma área de crimes cibernéticos com profissionais capazes de identificar crimes com origem em redes sociais. Mas todos os indicadores convergem para o 'gabinete no ódio' do Palácio do Planalto.

É uma acusação grave.

Grave é o fato de um presidente da República ter um 'gabinete do ódio', que é conhecido e tratado como tal inclusive por ministros dentro do Palácio do Planalto, sede da Presidência. Isso é que é grave. O presidente da República colocar um filho ativista ideológico dentro de reuniões ministeriais é grave. Não há na história da República nenhum registro dessa natureza. Filhos que ousam mandar e orientar ministros é um fato único na história política do Brasil.

Como está sua rotina nesses tempos de coronavírus? Tem dormido no Palácio?

Minha jornada é muito intensa. Trabalho em média 15 horas por dia. Fico aqui a maior parte do tempo, e eventualmente sábados e domingos também. Eu só passei um período residindo aqui por orientação médica quando começou a crise do coronavírus e depois que eu testei, no período do teste. Foram duas noites. Passo mais tempo aqui do que casa. Tenho academia em casa. Tenho umafisioterapeuta, que depois do coronavírus tem ido protegida com máscara e luva. Não parei de fazer exercício.

O senhor fez um segundo teste no sábado?

Fiz dois (testes). A Bia fez também. O seu primo lá de Brasília disse que fez, mas nunca mostrou.

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