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Com UTIs lotadas, RN transfere pacientes para o interior

Pacientes estão sendo levados de Natal a Mossoró, a 300 quilômetros de distância. Leitos críticos têm 90% de ocupação. Mesmo sem respaldo científico, prefeito da capital continuar a recomendar ivermectina

24 fev 2021
05h10 atualizado às 07h30
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05h10 atualizado às 07h30
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NATAL - Com índice de ocupação de leitos crítico no sistema público de atendimento aos casos graves de covid-19, acima dos 92% na Grande Natal, os pacientes que necessitam de tratamento numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI) na região estão sendo transferidos via aérea para a cidade de Mossoró, a 300 quilômetros de Natal.

Paciente com Covid-19 na UTI de hospital em Porto Alegre (RS) 
19/11/2020
REUTERS/Diego Vara
Paciente com Covid-19 na UTI de hospital em Porto Alegre (RS) 19/11/2020 REUTERS/Diego Vara
Foto: Reuters

Entre a segunda-feira, 22, e esta terça-feira, 23, a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN) fez a remoção de quatro pacientes, três deles fazendo uso de oxigênio artificial. Em todo o Rio Grande do Norte, a taxa de ocupação de leitos críticos para a covid-19 se aproxima dos 90%, conforme dados da Plataforma Regula RN, da Sesap.

Conforme a infectologista integrante do Comitê Científico da Sesap/RN, Marise Freitas, a situação do Estado é crítica. "O sistema de saúde da Grande Natal está colapsado, sim, não tenha dúvidas. Agora, tem gente na fila (por leitos críticos) e que pode morrer", alerta.

Somente na Central de Regulação da Região Metropolitana, 30 pacientes aguardam leitos críticos na tarde desta terça-feira. O número disponível é de 16. O estrangulamento da rede de saúde específica para o tratamento da covid não se restringe ao serviço público. Dos seis maiores hospitais particulares de Natal, três estão com as UTIs lotadas e um deles chegou a fechar, por quatro horas, o serviço de pronto-socorro no domingo passado.

"Não houve medida de proteção adequada e o número de pessoas que precisam do sistema de saúde aumentou. A taxa de ocupação acima de 80% é preocupante, pois reduz a rotatividade das UTIs. Os pacientes passam mais tempo, demandando mais cuidados quando não morrem. E o paciente que demanda UTI, o faz por uma necessidade urgente. Ou ele é colocado nesse leito ou a chance de morrer aumenta", alerta Marise Freitas.

"Com as taxas atuais, ultrapassamos o nosso limite prudencial. É hora de toda a sociedade fazer um pacto social. O ideal, agora, é parar de circular, não encontrar pessoas", sugere a especialista.

Como tentativa de mitigar a disseminação do coronavírus - o Sars-Cov-2 e as duas linhagens P1 e P2 confirmadas em circulação no Rio Grande do Norte pelo Ministério da Saúde -, a governadora Fátima Bezerra (PT) emitiu novo decreto restringindo o horário de funcionamento de bares e restaurantes até as 22h. Além disso, anunciou a abertura de aproximadamente 60 novos leitos críticos na Grande Natal para dar vazão à demanda crescente de internações pela covid-19.

"Nossos hospitais estão praticamente lotados e a Região Metropolitana (de Natal) é nossa grande preocupação no momento. Estamos correndo contra o tempo, cobrando o Ministério da Saúde para agilizar o processo das vacinas e enviá-las em número suficiente para que possamos imunizar integralmente a nossa população", declarou em nota a gestão de Fátima.

Prefeito de Natal defende ivermectina

Em meio ao avanço da doença no Estado, o prefeito da capital Natal, Álvaro Dias (PSDB) mantém o discurso em defesa da ivermectina. Recentemente, o fabricante do remédio, a MSD, disse não ter enxergado respaldo científico para aplicação contra o novo coronavírus, o que poderia envolver riscos desconhecidos. A farmacêutica desaconselhou, então, o uso do medicamento nesse contexto.

A posição da empresa e de especialistas não tem demovido a defesa feita pelo prefeito da capital potiguar. "A grande saída é a ivermectina, com a dosagem indicada pelo médico. É ela que impede o acometimento da doença na forma mais grave", declarou o prefeito, que é médico pediatra. Não há estudos que indiquem os efeitos citados por Dias.

De acordo com Marise Freitas, cerca de 90% dos pacientes atendidos na rede pública de saúde com sintomas ou diagnosticados com a covid confirmaram o uso da ivermectina como medida preventiva. "A maioria dos pacientes usa terapia precoce, seja ivermectina ou azitromicina, por conta própria ou prescrita. Criou-se uma falsa segurança induzida pelo poder público", critica a especialista.

Dias confirmou nesta semana a abertura de mais 20 leitos de UTI no Hospital Municipal de Campanha e a restrição do horário de funcionamento de bares e restaurantes até as 22h, além da proibição de venda de bebidas alcoólicas em lojas de conveniência após esse horário.

Estadão
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