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Copa do Mundo de 2026 será a menos sustentável da história, apesar das promessas da Fifa

Apesar de usar estádios já existentes, a ampla distribuição geográfica dos jogos da Copa e o aumento do número de seleções farão com que este seja o evento esportivo mais poluente da história

15 jun 2026 - 11h26
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ACHPF/Shutterstock
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Foto: The Conversation

Desde 1930, a cada quatro anos o futebol desperta o interesse de boa parte do mundo com a mistura de paixão, história e cultura que a Copa do Mundo oferece. Mais do que um simples esporte, o futebol é um reflexo das tensões políticas, identidades e emoções coletivas que marcam a modernidade. Em países como o México, a antropologia mostra que o futebol funciona como um ritual. Ele une a comunidade e molda formas de pertencimento e de ser.

Mas, em pleno século XXI, esse ritual global se depara com uma fronteira ambiental: o planeta já não aguenta mais. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) deixa isso claro. A janela para evitar o desastre climático está se fechando. E sim, o futebol também está no campo da responsabilidade.

Nesse cenário, a Fifa e os organizadores dos países-sede da Copa do Mundo de 2026 (Canadá, Estados Unidos e México) prometeram um torneio ambientalmente avançado. Sua estratégia se baseia em quatro pilares "independentes, mas inter-relacionados": social, ambiental, econômico e de governança. Mas quando se analisam os números, a história se revela outra. Tudo indica que esta será a Copa do Mundo mais insustentável e poluente já organizada.

A ilusão da infraestrutura existente

O grande trunfo ecológico da Fifa em 2026 é que, ao contrário de outros torneios, para esta Copa do Mundo quase não foram construídos novos estádios.

Em contraste, a Copa do Mundo do Catar 2022 teve como palco oito estádios, sete dos quais foram construídos desde as fundações e inaugurados antes da competição. O único que já existia, o estádio Khalifa, de 1976, passou por uma reforma total para sua reinauguração em 2017.

A Copa do Catar 2022 deixou uma enorme pegada ecológica: estádios climatizados no deserto e, segundo números oficiais, 3,6 milhões de toneladas de CO₂ emitidas. Estimativas como as publicadas pela Carbon Market Watch, no entanto, garantem que o impacto real desse evento, somando os voos diários para deslocamento das equipes e torcedores, foi muito maior.

Para 2026, a aposta foi na direção contrária, baseada em usar estádios já construídos para não adicionar toneladas de cimento ao meio ambiente. O problema, porém, é mais profundo. O modelo dos "megaeventos esportivos" baseia-se em crescer e crescer sem limites e esquece uma verdade ecológica elementar: a escala importa. Tanta expansão e turismo acabam anulando qualquer avanço em eficiência local.

Emissões de escopo 3

Ao expandir o formato do torneio de 32 para 48 seleções nacionais e de 64 para 104 partidas distribuídas por todo um continente, a Fifa multiplicou exponencialmente as chamadas emissões de escopo 3. Estas correspondem às fontes indiretas que se produzem na cadeia de valor, dominadas de forma esmagadora pelo transporte aéreo das delegações oficiais e dos milhões de torcedores estrangeiros.

E esse fenômeno não é exclusivo do futebol. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e nos Jogos de Inverno de Pequim 2022, os deslocamentos internacionais e a construção de infraestrutura temporária também geraram emissões indiretas maciças, muitas vezes subestimadas nos relatórios oficiais.

De acordo com os dados de um relatório publicado por especialistas da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), os voos com grande número de passageiros de costa a costa na América do Norte são incompatíveis com qualquer plano sério de descarbonização. A dispersão geográfica obriga a realização de voos frequentes de milhares de quilômetros para conectar sedes tão distantes entre si como Vancouver, Miami e a Cidade do México. O transporte, por si só, representará mais de 85% da pegada de carbono total do evento. Essa estimativa preliminar reflete valores que superam amplamente os de edições anteriores.

O relatório Fifa's Climate Blind Spot ("O ponto cego da Fifa", em tradução livre) aponta que a Copa do Mundo de 2026 poderá gerar emissões de mais de 9 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, um número muito maior do que edições anteriores do torneio.

O torneio da ecofarsa (greenwashing)

Dizer que esta Copa é sustentável apenas porque se recicla nas arquibancadas ou se usam lâmpadas LED nos estádios é, na verdade, um claro exemplo de ecofarsa, ou greenwashing.

Não é a primeira vez que vemos isso. Nas Olimpíadas de Londres 2012, os organizadores se gabaram de medalhas recicladas e transporte ecológico, mas ignoraram o impacto dos voos internacionais e a geração de resíduos em grande escala.

O greenwashing se tornou uma estratégia frequente para disfarçar os custos ambientais reais de megaeventos esportivos, enquanto a pegada ambiental continua a crescer.

Adaptação insustentável e paradoxo climático

A crise climática já está rolando nos gramados dos estádios e torna o futebol de hoje um evento inviável. As altas temperaturas previstas para as sedes norte-americanas colocarão em risco jogadores e torcedores. A solução? Ar-condicionado a todo vapor em estádios fechados no sul dos Estados Unidos.

Isso transforma a situação em um "paradoxo climático": as mesmas medidas que tomamos para nos adaptarmos aos efeitos das mudanças climáticas, como resfriar os estádios, podem acabar agravando o problema ao aumentar as emissões de gases de efeito estufa.

É o exemplo perfeito do que o IPCC classifica como "medidas de adaptação inadequadas" (maldaptive actions). Esse conceito explica como se tenta apagar o fogo com gasolina, usando mais energia — e muitas vezes proveniente de fontes fósseis — para enfrentar o calor que nós mesmos causamos.

É hora de dar um intervalo para o planeta

A ciência da sustentabilidade alerta: os problemas globais não se resolvem com maquiagem. Enquanto empresas gigantes ligadas aos combustíveis fósseis continuarem patrocinando o futebol, as metas de carbono neutro da Fifa serão apenas promessas vazias.

Se o futebol quiser sobreviver em um planeta que está aquecendo, é preciso mudar o jogo. Isso implica apostar em sedes realmente regionais e compactas, reduzir o número de jogos e colocar o bem-estar do planeta à frente dos dados de audiência. O apito final se aproxima e o planeta já não admite prorrogações.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Alejandra del Carmen Meza Servín não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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