Entre ruínas e sinais falhos, Gaza vê Copa distante do espetáculo milionário dos EUA
Em contraste com o cenário de luxo dos estádios na América do Norte, onde ingressos caros e infraestrutura moderna marcam o torneio, torcedores palestinos assistem aos jogos na Faixa de Gaza por meio de uma conexão instável, em abrigos improvisados, sob o ruído constante de drones e o risco permanente dos bombardeios israelenses.
Sem disputar uma partida há mais de dois anos, o jogador palestino Fadi Al-Arawi, 38 anos, acompanha a Copa do Mundo em condições que contrastam com o espetáculo exibido nos Estados Unidos, uma das sede do Mundial. Enquanto arenas em cidades como Nova York recebem visitantes em estruturas modernas, com ampla oferta de tecnologia e entretenimento, na Faixa de Gaza o cenário é o oposto, em meio à destruição provocada pela guerra.
Deslocado e sem casa, Al-Arawi tenta assistir às partidas em uma sala de escola transformada em abrigo em Khan Younès, no sul do enclave. Diante de um computador portátil com imagem instável, ele divide a transmissão com amigos enquanto drones israelenses sobrevoam a região e interrupções constantes de internet comprometem o sinal.
Fadi Al-Arawi atuava na primeira divisão local antes da suspensão das competições esportivas, no início da ofensiva militar israelense desencadeada após os ataques do grupo Hamas, em outubro de 2023. Desde então, como grande parte da população do território, ele perdeu a própria casa e passou a viver em instalações provisórias.
No sábado (14), enquanto o duelo entre Catar e Suíça estava prestes a começar, o jogador vestia a antiga camisa do Gaza Sports Club e exibia medalhas conquistadas em competições internacionais. O ritual, embora simbólico, contrastava com a precariedade das condições ao redor.
A transmissão era acompanhada por amigos reunidos na mesma escola, adaptada para receber famílias deslocadas. A conexão à internet, porém, mostrava-se instável desde o início. "Você vê, é isso internet: já começa a falhar antes mesmo de a partida começar", disse o atleta.
O ruído constante de drones israelenses reforça a tensão permanente. "Você ouve isso? Podemos ser atingidos a qualquer momento, corremos o risco de bombardeio", observou Al-Arawi.
Cotidiano precário convive com tentativa de normalidade
Grande parte da infraestrutura da Faixa de Gaza foi destruída ao longo dos mais de dois anos de ofensiva. Mesmo após uma trégua firmada em outubro de 2025, ataques continuam sendo registrados, enquanto não há acordo definitivo para o fim das hostilidades.
A realidade enfrentada por Al-Arawi é compartilhada pela maior parte dos cerca de dois milhões de habitantes do território, concentrados em uma faixa estreita sob controle do Hamas. Muitos vivem hoje em tendas ou em prédios danificados.
Na Cidade de Gaza, comerciantes tentam manter alguma atividade e oferecer espaços de convivência. É o caso de Alaa Babli, dono do Royal Café, que adaptou o estabelecimento para transmitir jogos da Copa mesmo com falhas constantes no fornecimento de energia.
Para contornar os cortes, ele instalou duas linhas elétricas alternativas e uma bateria de reserva, garantindo que partidas noturnas possam ser exibidas mesmo após o desligamento dos geradores a gasolina, normalmente interrompidos depois da meia-noite.
Entre os frequentadores, Hani Abu Rizq assistia a uma partida sob bandeiras do Egito e do Marrocos penduradas nas paredes. A presença no local, no entanto, não elimina o risco constante.
"O café pode ser alvo", afirmou. "Algo ao meu lado pode ser atingido e eu posso perder a vida." Ainda assim, Rizq destaca a permanência de hábitos cotidianos: "Apesar de tudo o que estamos vivendo, seguimos adiante e vamos assistir aos jogos."
Impacto da guerra sobre o esporte palestino
A guerra produziu efeitos profundos sobre o esporte local. Segundo a Federação Palestina de Futebol, cerca de 1.000 atletas estão entre os 73.000 palestinos mortos desde 2023, incluindo profissionais, amadores, árbitros e jovens em formação.
Além das perdas humanas, a infraestrutura esportiva também foi amplamente atingida. Aproximadamente 285 instalações foram destruídas ou danificadas, algumas demolidas com máquinas pesadas e outras atingidas por bombardeios.
Há registros de estádios convertidos em centros de detenção sob controle militar israelense, onde teriam ocorrido maus-tratos a prisioneiros — acusações negadas por Israel.
Um dos símbolos dessa transformação é o estádio Al-Yarmouk, situado na Cidade de Gaza. Antes palco de partidas com grande público, hoje abriga tendas ocupadas por famílias deslocadas.
Foi nesse estádio que Al-Arawi atuou ao longo da carreira, diante de arquibancadas cheias. O local, agora, reflete o deslocamento em massa e a perda de espaços de convivência e prática esportiva no território.
Para dirigentes esportivos palestinos, o setor tornou-se alvo recorrente ao longo do conflito. Segundo Mustafa Siam, da federação local, desde 2023 o esporte passou a ser atingido de forma sistemática no contexto das operações militares israelenses.
Com AFP
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