Com Andrade, Pet e Adriano, Flamengo leva Brasileiro
Na edição mais equilibrada da história dos pontos corridos, o Flamengo, em uma reação marcante no segundo turno, conquistou seu sexto título do Campeonato Brasileiro. Líder apenas durante duas rodadas, a 37ª e a 38ª, o Fla desbancou concorrentes como o então tricampeão São Paulo, o Internacional, vice da Copa do Brasil, o Cruzeiro, vice da Copa Libertadores, e o Palmeiras, líder durante 19 jornadas.
O título do Campeonato Brasileiro consagrou ainda Andrade, que assumiu como treinador interino na 14ª rodada, venceu o Santos e foi efetivado seis dias depois. Primeiro negro a comandar uma equipe campeã da Série A, ele substituiu Cuca, que havia sido tricampeão carioca, e fez o time crescer especialmente no segundo turno. Desde a derrota contra o Avaí, na 21ª rodada, foram 12 vitórias, quatro empates e uma derrota - em visita ao Barueri. Daí o pulo da 14ª posição para a liderança e o título.
Andrade teve méritos na formação de um time campeão. Encerrou o esquema tático com três zagueiros, vigente desde os tempos de Joel Santana em 2007, tornou Léo Moura e Juan laterais marcadores e acertou o sistema defensivo, que recebeu Álvaro e Maldonado - o Fla sofreu 12 gols em 19 jogos no returno. O treinador também controlou um ambiente sempre difícil, de salários atrasados, de disputas políticas, e promoveu a titularidade de Petkovic e a recuperação de Zé Roberto.
A conquista do Flamengo também teve a marca dos gols de Adriano, repatriado em maio após ameaçar o fim da carreira como jogador. Revelação da Gávea, ele assumiu o papel de comandar a equipe para o título brasileiro. Artilheiro do Brasileiro com 19 gols, ao lado do atleticano Diego Tardelli, foi o segundo flamenguista a fazer mais gols em uma edição da Série A, atrás apenas de Zico, que anotou 21 em 1980 e 1982. Principal finalizador do torneio, de quebra, foi ainda apontado como o Bola de Ouro da Revista Placar e o Craque do Brasileirão, prêmio oferecido pela CBF.
Petkovic foi outro personagem central na virada do Flamengo. Contestado por Cuca e toda a antiga direção do futebol, o sérvio retornou à Gávea cercado de desconfianças e se tornou o principal maestro da reação do returno. Em uma negociação financeiramente polêmica, foi contratado para sanar uma dívida e dominou o meio-campo, se transformando também em líder do elenco e conquistando o respeito até de Adriano, com quem formou uma dupla marcante. A importância do camisa 43, herói do tricampeonato carioca em 2000, se resume por um número: em nove jogos sem Pet, o aproveitamento de pontos despencou para 29,6%.
O torcedor flamenguista também foi outro aliado marcante para o título brasileiro. Com média superior a 40 mil espectadores por jogo, o Maracanã se tornou palco de grandes vitórias. O Fla também foi campeão em renda e teve a terceira melhor campanha dentro de casa, com 12 vitórias e cinco empates, atrás apenas da dupla Gre-Nal.
Tudo isso aconteceu ao longo de uma temporada marcada por crises políticas. Márcio Braga precisou se ausentar da presidência por problemas de saúde, abrindo espaço para a ascensão política de Delair Dumbrosck. Nesse meio tempo, Kléber Leite deixou o futebol, renovando os quadros do clube, que teve eleições um dia após conquistar o título. A campanha teve atrasos de salários e o fim dos acordos com a Petrobrás, vigente havia 24 anos, e Nike, havia oito anos.
Em aproveitamento, a campanha do Flamengo foi a quarta melhor entre os seis títulos brasileiros, considerando a Copa União de 1987, não reconhecida pela CBF. O time de Andrade - que foi também de Cuca -, anotou 58% de aproveitamento. Em 1980, com 72%, e 1982, com 73%, Zico e companhia cravaram índices superiores. Nada, porém, que tire o brilho de uma conquista improvável, pauta por uma reação marcante na Série A mais acirrada em oito anos sob os pontos corridos, encerrando um domínio paulista que se arrastava desde 2004.