Script = https://s1.trrsf.com/update-1768488324/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Cidade mais ocidental do Brasil fica no Acre e tem o último pôr do sol do país

Estado tem duas horas a menos em relação à Brasília

2 fev 2026 - 04h58
Compartilhar
Exibir comentários
Pôr do sol em Mâncio Lima, no interior do Acre, é o último do Brasil
Pôr do sol em Mâncio Lima, no interior do Acre, é o último do Brasil
Foto: Maria Sena/Arquivo Pessoal

Um município do interior do Acre é o último do Brasil a contemplar o pôr do sol todos os dias. Com uma população de 19.294 pessoas, Mâncio Lima está localizado no extremo oeste do país e, como todo o Estado, tem duas horas a menos em relação à Brasília. 

Conhecida por ser a cidade mais ocidental do Brasil, Mâncio Lima faz fronteira com o Peru e é considerada a cidade brasileira mais distante em linha reta da capital federal, sendo 2.870 km. A região reúne belezas naturais que atraem turistas de todo o mundo. E foi lá que nasceu Sansão Nogueira de Sena, de 58 anos, uma figura conhecida por grande parte da população. 

Assim como Mâncio Lima, seu Sansão, como é chamado na cidade, tem uma história de vida muito curiosa. Pai de três filhas, avô e esposo de Leidimar, o produtor rural nasceu de sete meses no Parque Nacional da Serra do Divisor, em um parto de gêmeos, acima da cachoeira do Pedernal.

"As onças nessa época moravam na 'biqueira' da minha casa, onde morei até os oito anos. Depois, minha família acabou se mudando para Cruzeiro do Sul, onde estudei, me formei, e retornei para Mâncio Lima. Minha família toda é daqui e é onde resido há mais de 50 anos. Grande parte da minha história é aqui", conta em entrevista ao Terra

O Parque Nacional da Serra do Divisor ao qual ele se refere é um dos pontos turísticos da cidade -- e um dos mais importantes para a fauna e flora do Brasil. O local é o 4º maior Parque Nacional do País, ocupando cerca de 843 mil hectares, e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), sendo considerado o de maior biodiversidade da Amazônia. 

Açude fica a poucos metros de distância da casa de seu Sansão
Açude fica a poucos metros de distância da casa de seu Sansão
Foto: Maria Sena/Arquivo Pessoal

Morar na cidade onde o pôr do sol de põe por último no Brasil é privilégio para poucos. A região banhada pelo rio Moa tem recebido turistas de todo o mundo por conta da beleza natural, empolgando os moradores da cidade.

"Tem um potencial muito grande e creio que a economia da cidade ficará cada vez melhor. Hoje temos pessoas preparadas para transportar turistas, guias turísticos, pousadas, tanto Mâncio Lima quanto o Parque Nacional estão mais estruturados para receber as pessoas", relata o morador.

Seu Sansão foi o primeiro produtor rural a investir na piscicultura na região. Motivado por programas de televisão mais de 20 anos atrás, ele aprendeu a fazer tanques de peixes manualmente com a ajuda das filhas. "Não tínhamos equipamentos, nem máquinas, fazíamos tudo nas mãos. E há mais de 20 anos estou nessa atividade. Fora minha família, a piscicultura é minha paixão. É algo que nesses últimos anos tem desenvolvido um potencial econômico para o município", conta. 

Ele relata que, inicialmente, era chamado de 'louco' pelas pessoas. "Diziam que eu era doido de fazer meu tanque para criar peixes, já que tínhamos como pescar no rio. Mas eu gosto de coisas desafiadoras desde o meu próprio nascimento. Foi muita luta e muita batalha, mas, ao mesmo tempo, é uma vitória grande e eu me sinto realizado."

De acordo com o acreano, hoje já existem mais de 100 piscicultores no município, todos motivados pela ideia dele. "Quero sempre estar assim, trabalhando, inovando, acreditando e trazendo novas expectativas para a vida das pessoas. Me sinto realizado porque é um legado que a gente deixa, faz parte da economia do município", completa. 

Piscicultura fortalece economia de Mâncio Lima (AC)
Piscicultura fortalece economia de Mâncio Lima (AC)
Foto: Maria Sena/Arquivo Pessoal

Tranquilidade, oportunidades e afeto na comunidade

A segurança também é um ponto favorável em Mâncio Lima, segundo seu Sansão. "Você anda com celular na mão, com bolsa na mão, é muito difícil ter assalto. Isso é um privilégio, se a gente for olhar para grandes capitais como São Paulo. O pôr do sol aqui é maravilhoso, é um privilégio também. Você ir caminhando pelas ruas com tranquilidade e com ar puro, é muito bom", ressalta. 

O produtor rural chegou a morar em Brasília por algum tempo, mas acabou retornando para sua cidade natal depois que seus pais adoeceram. "Quando eu era jovem, meu sonho era sair daqui e ir pra um grande centro. Queria estudar e ser alguém na vida, morando fora de Mâncio Lima. Hoje etendo que podia ser desafiador morar em Mâncio Lima, mas mais desafiador ainda é morar em um grande centro. Fui me estabelecendo e vendo que aqui era o lugar que queimava no meu coração para eu ficar."

"Você conhece todo mundo, fala com todo mundo e conhece todo mundo. Tem oportunidades para quem quer, para quem acredita e para quem corre atrás de conquistar o seu espaço. Desde novo eu tinha isso em mente, correr atrás, acreditar e conquistar meu espaço", declara. 

Pôr do sol em Mâncio Lima, no interior do Acre, é o último do Brasil
Pôr do sol em Mâncio Lima, no interior do Acre, é o último do Brasil
Foto: Maria Sena/Arquivo Pessoal

Para seu Sansão, não faltam elogios aos moradores de Mâncio Lima. "Nosso povo é acolhedor. Temos o hábito de dormir cedo e acordar cedo. Por volta das 5h ou 6h da manhã, você já está levantando. Quem estuda, já vai se preparar para aula, e quem trabalha, vai para o trabalho. Como tenho plantações e criações de gado, também acordo muito cedo. Tomo café, vou dar um trato nos peixes e nas galinhas, é uma vida tranquila."

O produtor rural comenta que seu estilo de vida é uma 'terapia'. "Você está alimentando os peixes e tendo ali aquele momento. Você olha um boi, ver como ele está, coloca um sal. Fui policial militar durante 30 anos e hoje sou aposentado, mas sempre quis ter outra renda fora meu trabalho. Minha família sempre foi de produtores, pessoas que plantam e criam", completa. 

Desafios

O transporte é um dos principais desafios de quem mora em Mâncio Lima. Quando ele começou sua criação de peixes, a ração era levada de balsa. O trajeto levava cerca de 3 meses. Atualmente, é possível chegar ao local por meio do transporte terrestre, fluvial e aéreo. No entanto, ainda há problemas de logísticas em uma rodovia conectada à cidade, o que acaba afetando a vida dos moradores que precisam sair e retornar para Mâncio Lima. 

Os preços exorbitantes das passagens aéreas, por exemplo, acabam tornando à chegada até o local um pouco inacessível, mas muitas pessoas têm optado por usar ônibus para a lomocação. Além da Serra do Divisor, o município tem festividades históricas relacionadas ao carnaval, festivais indígenas e até um Festival do Coco. A piscicultura e a pecuária também são fortes em Mâncio Lima.

"Outra questão também é o estudo. Você termina termina o primeiro grau e o segundo grau, mas, se você quer fazer uma faculdade, precisa ir para Cruzeiro do Sul, que é a cidade mais próxima. Mas nem todos os cursos que você quer estão lá. Às vezes o jovem acaba se formando e ficando sem emprego também, então vejo que a produção rural é uma forma de vencer esse desafio", complementa seu Sansão, destacando que o café e a farinha também são especialidades da região. 

Seu Sansão ao lado da filha Maria
Seu Sansão ao lado da filha Maria
Foto: Maria Sena/Arquivo Pessoal

Maria Sena, filha do produtor, precisou deixar Mâncio Lima para fazer faculdade. Aos 26 anos, ela é formada em Engenharia Agrônoma e está retornando à cidade natal para ajudar o pai na produção rural. Ela conta que a energia elétrica chegou na casa deles quando ela tinha seis anos de idade.

"Eu lembro que o primeiro programa que eu assisti na televisão foi A Praça É Nossa. Era um sítio, você olhava para um lado e para o outro e só tinha mato. Foi um acontecimento quando trouxeram energia. Eu ficava brincando na tomada do interruptor, porque era nova. A gente brincava de acender e apagar a luz, era um evento", recorda a jovem.

Apesar da distância de um centro urbano, ela revela que teve uma infância tranquila e de bastante contato com a natureza em Mâncio Lima. O choque cultural veio quando passou para Universidade Federal do Acre em Cruzeiro do Sul: "É uma outra realidade, é uma cidade maior. Você conhece pessoas com experiências diferentes de quem nasceu e cresceu no interior. Mas foi uma experiência que agregou. Mâncio Lima ensina para gente muita calmaria, paciência e resiliência", afirma. 

Crescer tendo contato com a natureza e com o trabalho da família fez com que Maria retornasse ao município com uma nova tarefa: dar continuidade ao legado do pai. "Ele me inspirou muito. Ele tem uma mentalidade expansiva, um espírito jovem que eu sempre admirei", completa.

Para quem deseja conhecer a cidade com o último pôr do sol do mundo, Maria aconselha: "A avenida é uma só. Se você chegar na entrada da cidade, é só pegar uma reta. Vai ser medo e logo chegará em uma aldeia. Não tem semáforo, mas tem placas", brinca. 

Fonte: Portal Terra
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade