Vídeo engana ao minimizar público de ato em Brasília contra anistia e PEC da Blindagem
POSTAGEM MOSTRA MOMENTOS INICIAIS DA MANIFESTAÇÃO, QUE POUCO TEMPO DEPOIS FICOU MAIS CHEIA; ORGANIZADORES ESTIMARAM PRESENÇA DE 20 MIL PESSOAS
O que estão compartilhado: imagens que mostrariam que a manifestação contra a anistia aos condenados por tentativa de golpe de Estado e a PEC da Blindagem, organizada neste domingo, 21, foi um fracasso em Brasília.
O Estadão Verifica apurou e concluiu que: é enganoso. O vídeo mostra os momentos iniciais da manifestação, ainda com baixa presença de público. Imagens posteriores uma concentração maior de pessoas nas imediações do Museu Nacional da República, o mesmo local mostrado nas postagens enganosas. Além de usar imagens do início do ato, o vídeo ainda manipula uma gravação do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). Por meio de ferramenta de inteligência artificial (IA), as feições do parlamentar foram modificadas para parecer que ele estava chorando. Os organizadores estimaram público de 20 mil pessoas; a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) não fizeram uma estimativa.
Saiba mais: as postagens analisadas compartilham um vídeo que mostra baixa concentração de pessoas nas imediações do Museu Nacional da República, em Brasília. Sobre as imagens, é inserido um outro vídeo de Lindbergh, em que ele diz: "Esta é a maior manifestação em Brasília que acontece há muito tempo".
Em algumas das postagens, o vídeo tem áudio de risos. Alguns dos posts colocam a palavra "flopou" e frases como "Manifestação contra anistia em Brasília fracassa!" e "Esquerda faz fiasco em manifestação em Brasília". Mas essas postagens são enganosas.
A imagem que mostra baixa concentração de pessoas em frente ao Museu Nacional da República foi retirada de uma live no YouTube com duração de uma hora e 22 minutos feita por um homem que acompanhou a manifestação. O Verifica localizou uma postagem no Facebook que compartilhou a transmissão às 11h38. Ou seja, a live teve início antes desse horário.
Uma foto registrada às 12h10 pelo fotógrafo Evaristo Sá, da AFP, mostra o mesmo local repleto de manifestantes. Percebem-se os mesmos elementos no vídeo utilizado nas postagens enganosas e no registro do fotógrafo: um carro de som vermelho à direita e o prédio da Biblioteca Nacional de Brasília Leonel de Moura Brizola ao fundo. Veja abaixo:
Fotos feitas pelo repórter Vinícius Valfré, do Estadão, e pelo fotógrafo Marcelo Camargo, da Agência Brasil, também mostram grande concentração de público no ato de Brasília deste domingo, 21.
Reportagem do Estadão com a cobertura dos protestos informou que, no ato em Brasília, um dos participantes estimou do caminhão de som a presença de 30 mil pessoas. Ao Verifica, organizadores do evento estimaram um público de 20 mil. As manifestações ocorreram em todas as capitais do País.
Vídeo de deputado é manipulado e retirado de contexto
O vídeo de Lindbergh utilizado nas postagens enganosas foi retirado de postagem do parlamentar no X (antigo Twitter). Na gravação original, o deputado está no protesto em Brasília rodeado por um grande número de pessoas.
A imagem do deputado é recortada e inserida sobre o vídeo que mostra o local de concentração da manifestação ainda com poucas pessoas. Uma ferramenta de inteligência artificial foi aplicada sobre o rosto dele para mudar as feições do político e fazer parecer que ele estava chorando enquanto falava.
O professor e pesquisador em processamento de linguagem natural do Insper Tiago Tavares confirmou ao Verifica que o vídeo foi modificado com uso da tecnologia.
"Dá sim para fazer isso com ferramentas de IA", disse. "E dá para ver que é IA. Percebe-se que os dentes do deputado ficaram embaçados: um indício de que houve a manipulação".
Como lidar com postagens do tipo: são recorrentes as postagens nas redes sociais após manifestações de ambos os espectros políticos buscando descredibilizar os eventos. Geralmente, elas compartilham imagens dos atos em momentos sem concentração de público ou em ângulos que permitem uma interpretação distorcida. Há ainda casos que utilizam imagens antigas para enganar. São diversos os desmentidos do Estadão Verifica nesse sentido (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).