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Nikolas Ferreira espalha mentiras já refutadas sobre vacinas e pandemia

APÓS DEPOIMENTO DE IMUNOLOGISTA NO CONGRESSO AMERICANO, DEPUTADO REPETIU ALEGAÇÕES FALSAS SOBRE HIDROXICLOROQUINA, FETOS ABORTADOS EM IMUNIZANTES E USO DE MÁSCARAS; ELE FOI PROCURADO, MAS NÃO RESPONDEU

4 ago 2026 - 10h01
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O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou no domingo, 2, um vídeo em que dissemina alegações falsas já refutadas sobre as vacinas contra covid-19. A publicação foi baseada no depoimento do imunologista norte-americano Anthony Fauci ao Senado dos Estados Unidos. Nikolas disse que a hidroxicloroquina é segura para tratar o coronavírus, alegação sem nenhum fundamento científico e desmentida por dezenas de estudos.

Fauci é ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), e aconselhou os presidentes dos Estados Unidos Donald Trump e Joe Biden durante a pandemia de covid-19.

No último dia 29, Fauci foi intimado pelo senador republicano Rand Paul para responder a perguntas em uma audiência do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado dos EUA. O imunologista se recusou a respondê-las e invocou a Quinta Emenda da Constituição, que garante o direito contra a autoincriminação. Ele também acusou Paul de fazer uma campanha para prendê-lo.

"A conclusão a que posso chegar é que o único motivo pelo qual ele está me convocando perante esta comissão é para me fazer dizer algo - qualquer coisa - que possa justificar suas repetidas promessas públicas de que eu acabe, em suas palavras, 'atrás das grades'", disse Fauci.

Dias antes da audiência, Paul divulgou mais de mil páginas de anotações diárias datilografadas de Fauci. O diário e o depoimento do imunologista inflamaram as redes sociais com alegações infundadas sobre as vacinas contra covid-19, o tratamento da doença e a origem do vírus. Somente no X (antigo Twitter), o vídeo de Nikolas acumula mais de um milhão de visualizações.

Nikolas foi procurado, mas não respondeu até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.

Veja abaixo a checagem das alegações feitas.

Fauci reconheceu a hidroxicloroquina como eficaz para tratar covid-19?

No vídeo, Nikolas afirma que o diário de Fauci revela que o imunologista norte-americano considerava a hidroxicloroquina segura e pretendia disponibilizá-la para tratamento da covid-19. "Depois que o Trump endossou o medicamento e a mídia explodiu, Fauci volta atrás e começa a pressionar para poder ir contra o medicamento, que poderia ter salvado milhões de pessoas", complementa.

Mas, na verdade, o documento mostra que Trump e alguns assessores defendiam publicamente o uso da hidroxicloroquina, enquanto Fauci argumentava que as evidências de eficácia ainda não haviam sido comprovadas.

Em uma anotação de 18 de março de 2020, ao descrever uma discussão na Casa Branca sobre o medicamento, Fauci registrou: "Respirei fundo e disse que aquilo estava errado e não deveria ser feito".

Fauci também relatou um confronto com Peter Navarro, assessor comercial de Trump. Navarro defendeu que a hidroxicloroquina funcionava contra a covid-19, mas Fauci rebateu. O imunologista escreveu que as evidências que sustentavam a afirmação permaneciam "em grande parte anedóticas", segundo a revista norte-americana Newsweek.

O jornal The Wall Street Journal mencionou a hidroxicloroquina como um dos pontos que deterioraram a relação entre Fauci e Trump. Segundo o veículo, Fauci tentou convencer Trump a mudar de ideia sobre promover a hidroxicloroquina, que o republicano havia divulgado para combater a covid-19 sem comprovação científica.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda o uso de hidroxicloroquina para prevenir ou tratar a covid-19. A OMS ressalta que resultados de 30 estudos clínicos, com mais de 10 mil pacientes com covid-19, mostraram que a hidroxicloroquina não reduziu a mortalidade ou a necessidade de ventilação mecânica. Além disso, as pesquisas mostraram que a hidroxicloroquina pode "aumentar o risco de problemas no ritmo cardíaco, distúrbios sanguíneos e linfáticos, lesão renal, problemas hepáticos e insuficiência hepática".

Bebês abortados usados em pesquisas da vacina de covid-19?

Nikolas diz que, durante a audiência, a senadora republicana Joni Ernst perguntou a Fauci sobre o uso de partes de bebês abortados em pesquisas para elaboração da vacina contra a covid-19. O parlamentar destaca que Fauci "se calou". "Será que de fato foi usado parte de bebês para poder fazer pesquisa de vacina da covid?", questiona.

Desde 2020, agências de checagem mostram os fatos que desmentem a alegação de que vacinas contenham células de fetos em sua composição.

Como já explicou o Projeto Comprova (veja aqui e aqui), coalizão da qual o Verifica faz parte, a alegação distorce um tipo de tecnologia empregada em vacinas. É o caso da produção da vacina Oxford-AstraZeneca, que funciona por meio de um vetor adenovírus recombinante.

Isso significa que os pesquisadores pegaram o vírus que causa gripe em chimpanzés, inofensivo para o corpo humano, e o alteraram geneticamente para que ele passasse a ter características do coronavírus. Injetado no corpo, as células de defesa do sistema imunológico aprendem a identificar essas características e atacá-las.

Os adenovírus precisam se replicar em células mantidas em laboratório. Essas células são da linhagem HEK-293. Sua origem vem de um feto abortado legalmente na Holanda nos anos de 1970. No entanto, desde então, elas se multiplicam por meio de um mecanismo natural - por este motivo, não é verdade que fetos são abortados para pesquisas de vacinas.

Essa alegação também já foi desmentida pela Academia Americana de Pediatria (AAP). A organização é categórica em afirmar que as vacinas não contêm células fetais. A AAP explica que algumas vacinas envolvem o cultivo de vírus em culturas de células humanas originalmente desenvolvidas a partir de fetos abortados na década de 1960. Também é destacado que os processos de purificação filtram as vacinas e, dessa forma, nenhum tecido permanece.

Distanciamento social e máscaras eram ineficazes?

No vídeo, Nikolas afirma que existe um relatório do Congresso norte-americano demonstrando que o distanciamento social e as máscaras foram ineficazes, e mais teriam prejudicado do que ajudado. O parlamentar faz referência a um relatório produzido por um subcomitê do Congresso dos Estados Unidos, apresentado por parlamentares republicanos - essa informação é omitida.

O Estadão Verifica mostrou, em 2024, que afirmações feitas no documento foram amplamente desmentidas por estudos e entidades médicas. A checagem apontou que um artigo publicado na revista médica The Lancet concluiu, após revisão de 44 estudos observacionais, que o distanciamento físico de 1 metro e uso de máscaras reduziram significativamente a transmissão do vírus da covid-19.

Vale destacar que o uso de máscaras foi recomendado pela OMS durante a pandemia com base em evidências científicas. Segundo a organização, o uso de máscara reduz a propagação de doenças respiratórias e faz parte de um pacote de medidas de prevenção e controle da covid-19.

Por que Fauci ficou em silêncio?

Nikolas sugere que o silêncio de Fauci seria uma "prova" das "mentiras" sobre as vacinas, o distanciamento social e as máscaras. "Não era ele que iria falar e ia esclarecer tudo a respeito do que ele estava fazendo? Por que se calou perante isso? Será que é verdade?", indagou.

Antes de deixar a Presidência, em 19 de janeiro de 2025, o ex-presidente dos Estados Unidos Joe Biden concedeu um indulto preventivo a Fauci para protegê-lo de "processos injustificados e com motivação política" por seu papel no combate à pandemia. A medida abrangeu atividades do imunologista de 2014 até aquele dia.

O indulto concedido por Biden não inclui condutas ou depoimentos recentes de Fauci. Por este motivo, na audiência do Senado, o imunologista invocou seu direito à Quinta Emenda da Constituição, sob justificativa de que seu depoimento poderia ser usado para processá-lo.

Nos Estados Unidos, invocar a Quinta Emenda não significa admissão de culpa. O dispositivo tem como finalidade proteger os cidadãos contra eventuais coerções, erros e transferência injusta do ônus da prova de atos ilícitos.

Estadão
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