Não, cal de construção civil não é usada para clarear açúcar
PROCESSO DE LIMPEZA DE IMPUREZAS TEM ETAPA COM USO DE CAL DE GRAU ALIMENTÍCIO, QUE É REMOVIDA ANTES DE CALDO DA CANA VIRAR AÇÚCAR
O que estão compartilhando: que cal de construção civil é adicionada ao açúcar para que ele fique branco. Ao consumir o produto, as pessoas também "comem" cal.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O processo de produção do açúcar tem uma fase chamada de "calagem", em que é adicionado leite de cal para facilitar a remoção das impurezas presentes no caldo da cana que dará origem ao açúcar. Essa cal não é a mesma usada na construção civil, e sim uma de grau alimentício.
A pessoa que consome açúcar não ingere a cal. Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que o leite de cal é removido no processo e não se torna um ingrediente do produto final. No máximo, ficam resíduos de cálcio em baixa concentração, cujos limites são regulamentados por normas sanitárias para que não representem um risco à saúde.
Não é verdade que açúcar tenha 'cal de construção'
Diferentemente do que afirma o vídeo que viralizou, a cal usada no processo de clarificação do açúcar não é a mesma da construção civil, e sim uma versão considerada de "grau alimentício". De acordo com o professor Paulo Mesquita, essa cal atende a especificações sanitárias para uso como auxiliar tecnológico, sem impurezas e contaminantes incompatíveis com a indústria de alimentos.
Neste caso, ela é produzida, segundo o professor Flavio Luis Schmidt, a partir da calcinação de calcário de elevada pureza. "O calcário é selecionado justamente para minimizar contaminantes como chumbo, arsênio, cádmio, mercúrio e outros metais pesados que podem ser encontrados no produto destinado à construção civil", apontou.
O pesquisador Fábio Cesar da Silva, da Embrapa Alimentos e Territórios, explica que, caso uma usina tentasse usar a cal de construção no processo de purificação do açúcar, isso causaria mais prejuízo do que economia.
Isso porque, embora a cal de construção também seja feita a partir do óxido de cálcio (CaO), ela tem diversas impurezas. "A construção civil usa uma cal que é 'boa para reboco'. A concentração de CaO é de 70% a 90% e pode ter argila, areia", explicou Fábio Cesar.
Na indústria da construção, a presença dessas impurezas é irrelevante, mas para a indústria do açúcar a concentração de óxido de cálcio precisa ser superior a 95%. Isso porque a cal precisa agir como um reagente químico, segundo o pesquisador da Embrapa.
Quando transformado em leite de cal, o produto passa a ter uma densidade semelhante a um xarope. Isso importa no processo porque a cal de baixa qualidade tem alto teor de óxido de magnésio, que tende a formar um produto gelatinoso. Com essa textura, o caldo pode não decantar e o filtro das máquinas pode entupir.
Outro problema é se a cal de baixa qualidade tiver altos teores de ferro e manganês. Em vez de clarear, a cal vai escurecer o produto e deixá-lo com gosto de caramelo queimado.
"Em síntese, economizar na cal é o prejuízo mais caro da usina: 1% de impureza na cal vira 3% de perda na recuperação de açúcar", resumiu o pesquisador da Embrapa.
Leite de cal usado na purificação não permanece no açúcar
Outra alegação enganosa do vídeo que viralizou é a de que as pessoas comem cal quando consomem açúcar. Isso porque o leite de cal usado no processo de clarificação do caldo da cana não é um ingrediente do produto final, ou seja, ele é eliminado no processo. É o que explica o professor Paulo Mesquita.
"O leite de cal é utilizado como auxiliar tecnológico de processamento e não como ingrediente do produto final", disse.
Na prática, quando o leite de cal é adicionado ao caldo e favorece a coagulação das impurezas, ele forma um lodo junto com essas substâncias e é removido por decantação e filtragem.
"O caldo que segue para as etapas de evaporação e cristalização contém apenas eventuais resíduos de cálcio em níveis muito baixos", apontou.
Esses eventuais resíduos, explica o professor, atendem aos limites estabelecidos pelas normas sanitárias e não representam um risco à saúde. Flavio Luis Schimdt, da Unicamp, reforça que o resíduo que permanece é em quantidade baixa e não tóxica, que pode ser metabolizada pelo corpo.
Fábio Cesar da Silva, da Embrapa, acrescenta que no produto final há um resíduo limite de sulfito, ou dióxido de enxofre residual, preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ou seja, o consumo é seguro.
Para o açúcar cristal branco e refinado, a concentração máxima é de 20mg por quilo de açúcar. A OMS estabelece uma ingestão diária aceitável de dióxido de enxofre de 0,7 mg por peso corporal por dia. Ou seja, para uma pessoa com 60 kg, é considerado seguro ingerir até 42mg de dióxido de enxofre por dia. Para que toda essa quantidade viesse do açúcar, essa pessoa precisaria ingerir mais de 2 quilos de açúcar diariamente.
Em nota, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) informou que "a presença do cálcio no açúcar produto final é mínima e atende integralmente aos limites estabelecidos pela regulamentação nacional" e, assim, "não oferece qualquer risco à saúde". A entidade acrescentou que o óxido de cálcio é usado no processo para clarificar o caldo da cana-de-açúcar e que é extraído do calcário, um mineral presente na natureza.
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