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Estudante de Medicina vende biscoitos para tentar quitar dívida de R$ 200 mil e voltar à faculdade

Moradora de Caraguatatuba (SP), Renata Dahe teve a matrícula trancada após acumular mensalidades em atraso

28 jul 2026 - 17h21
(atualizado às 17h37)
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Aos 49 anos, Renata Dahe vende biscoitos amanteigados para tentar quitar dívida de R$ 200 mil e voltar a estudar medicina.
Aos 49 anos, Renata Dahe vende biscoitos amanteigados para tentar quitar dívida de R$ 200 mil e voltar a estudar medicina.
Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

O sonho de vestir um jaleco branco e exercer a Medicina levou a fisioterapeuta Renata Dahe, de 49 anos, a enfrentar um desafio que vai muito além das salas de aula. Moradora de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, ela precisou interromper a graduação após acumular uma dívida de quase R$ 200 mil com a faculdade. Agora, aposta na venda de biscoitos amanteigados para arrecadar recursos e conseguir retornar ao curso.

Renata conta que sonha em ser médica desde a infância. Filha de uma técnica de enfermagem, cresceu acompanhando a profissão da mãe, que cuidava de pacientes, experiência que despertou sua vocação.

"Eu sempre quis fazer Medicina, é um sonho de infância. Cresci vendo minha mãe cuidar de pessoas muito vulneráveis. Não tinha como eu gostar de outra coisa. Eu me apaixonei por ajudar pessoas", afirma.

Sem conseguir ingressar no curso quando era mais jovem, ela se formou em Fisioterapia, fez pós-graduação e atuou na profissão por anos. O sonho da Medicina, porém, permaneceu vivo. Em 2022, aos 46 anos, aproveitou a inauguração de um curso de Medicina em Caraguatatuba e conquistou uma vaga após estudar sozinha para o vestibular.

Dificuldades financeira interrompe o sonho de ser médica

Segundo Renata, a situação financeira da família mudou drasticamente durante a graduação. “Meu marido tinha um bom trabalho, as coisas estavam andando. A gente não tem bens, não é rico, mas com o trabalho dele conseguimos pagar a minha faculdade. Só que nesse tempo ele perdeu o emprego três vezes. Então as finanças se afundaram, as coisas se desequilibram. E todo mundo sabe o quanto custa uma faculdade de medicina”, conta Renata.

Com o acúmulo das parcelas, a dívida chegou a aproximadamente R$ 200 mil. Para conseguir renovar a matrícula e ingressar no nono período da graduação, ela precisaria quitar parte desse valor e pagar a matrícula, algo que diz não conseguir fazer neste momento. Por isso, decidiu interromper os estudos enquanto busca recursos para retornar ao curso.

Ela relata que a família já fez diversos esforços para mantê-la na faculdade. “Agora eu fui para o nono período, mas no período passado, o oitavo, meu pai vendeu o carro dele para me dar o dinheiro. Era um Uno, então não deu para pagar tanto assim da dívida”, disse a estudante. Atualmente, o marido trabalha como motorista de aplicativo para sustentar a família, composta pelo casal e três filhos.

Renata diz que está buscando as alternativas que tem ao seu alcance. "Eu não tenho mais o que vender. Meu marido ainda perguntou se eu queria me expor tanto nas redes sociais. Mas eu pensei: 'Eu não fiz nada errado. Vou contar minha história e, se alguém quiser me ajudar, vamos em frente'", diz.

Receita de família virou fonte de renda

Foi nesse contexto que surgiu a ideia de vender biscoitos amanteigados. A receita veio da cunhada, que preparava os doces para reuniões familiares. Renata chegou até a acrescentar alguns novos sabores e passou a comercializar os produtos em embalagens de 100 e 400 gramas, vendidas entre R$ 18 e R$ 65.

Renata Dahe aprendeu com a cunhada a receita dos biscoitos.
Renata Dahe aprendeu com a cunhada a receita dos biscoitos.
Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

Além das vendas pelas redes sociais, ela também comercializa os biscoitos no comércio local, no calçadão e na orla de Caraguatatuba, e espera ter boas vendas especialmente durante a alta temporada turística.

Apesar de reconhecer que a venda dos biscoitos, sozinha, não será suficiente para quitar uma dívida tão alta, ela afirma que é um caminho. "Seria muito ingênua achar que vou pagar quase R$ 200 mil vendendo biscoito. Mas é uma luta. O biscoito está me dando um dinheirinho, e estou juntando tudo", afirma.

Mobilização nas redes sociais

A história ganhou força nas redes sociais e passou a mobilizar pessoas de diferentes cidades. Além de comprar os biscoitos, alguns internautas fizeram doações sem sequer pedir os produtos, motivados por experiências semelhantes.

"Tem pessoas de São Paulo e do Rio de Janeiro que mandam dinheiro e dizem que já passaram por dificuldades parecidas ou conseguiram formar um filho em Medicina. Isso me dá esperança", conta.

Renata estuda na Universidade de Taubaté (UNITAU), no campus de Caraguatatuba, que é uma instituição pública, mas não é gratuíta. “A UNITAU é uma universidade pública, mas é paga, então ela não tem convênio com o Fies. Ela tem um programa de financiamento próprio, mas que não me cabe, porque você tem que pagar a metade da mensalidade todo mês, o que hoje tá difícil para mim. E você precisa de um fiador para entrar nesse programa e eu não tenho”, explica a estudante.

Além de enfrentar dificuldades para retornar aos estudos, Renata tem preocupação em como vai conseguir concluir. “Para eu continuar mais um período tenho que pagar 20% dessa dívida, mais a matrícula. Mas só que depois no outro período eu vou ter essa dívida de novo. Então eu tinha que pagar um pouco mais. Porque chega uma hora que você tem que quitar, senão você não se forma”, disse.

Enquanto isso não acontece, ela garante que não pretende desistir. "Eu quero ser médica. Não posso desistir agora. Se for preciso vender biscoitos durante um ano inteiro, eu vou vender. Na temporada, estarei na praia, no calçadão, fazendo o que for necessário para conseguir me formar", conclui.

Fonte: Portal Terra
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