Imagens sexualizadas de mulheres feitas com IA impulsionam publicidade irregular no Facebook
CONTAS ATRAEM MILHÕES DE SEGUIDORES E LEVAM USUÁRIOS A SITES DE COMPRAS E DE BETS; PROCURADA, A META NÃO SE PRONUNCIOU
Contas no Facebook publicam imagens sexualizadas de mulheres geradas por inteligência artificial (IA) para atrair milhões de seguidores. Depois, os direcionam para sites externos como a Shopee e sites de apostas, onde ganham dinheiro com os gastos de usuários. Na maior parte das vezes, não informam que estão lucrando com a atividade. Especialistas avaliam que a prática pode ferir as regras de comunidade da Meta, empresa que controla a rede social, e a legislação vigente no País para publicidade.
O Verifica monitorou, durante um mês, 13 perfis com mais de 10,2 milhões de seguidores. As contas postam no feed do Facebook fotos ou vídeos gerados por IA de mulheres com seios e glúteos grandes em roupas justas e com decotes. Há contas que se especializam em um padrão específico: mulheres mais velhas, com deficiência física, indígenas ou negras, entre outros. Não foram observadas imagens com nudez ou conteúdo explícito.
As ferramentas SynthID, do Google, e Hive Moderation, que identificam uso de inteligência artificial em imagens, confirmaram a origem sintética das mídias citadas nesta reportagem. Nenhuma das contas monitoradas informa que publica imagens geradas artificialmente.
O intuito das postagens é chamar a atenção e atrair seguidores. Entre 10 de fevereiro e 10 de março de 2026, as contas passaram de 8,9 milhões para 10,2 milhões de seguidores.
As páginas e perfis têm nomes e fotos que simulam uma identidade autêntica. A maior parte deles, por exemplo, tem a foto principal de perfil que não parece ter sido criada com IA. Mas detalhes indicam o contrário: os nomes femininos não são naturais, como "Renata Resources" ("recursos", em português) ou "Tóxica Mery".
Oito das contas monitoradas têm opções de assinatura para acesso a conteúdos exclusivos que variam de R$ 2,59 a R$ 19,90. Ao menos cinco delas postaram, nos stories, links de direcionamento para fora do Facebook, onde lucram com comissões.
O Verifica separou dois perfis que apresentaram um padrão de comportamento ao longo do mês de monitoramento. Um redireciona usuários para o site de compras online Shopee, onde ganha uma comissão pelas transações realizadas. Outro leva os usuários para sites de apostas (as bets) e lucra com a adesão de novos apostadores e com o montante apostado.
A Meta, dona do Facebook, foi procurada, mas não quis comentar o caso.
Cliques e vendas geram comissões
O perfil "Renata resources" posta fotos e vídeos de mulheres quase sempre com uma legenda que parece ser um pedido de amizade na rede social. Em postagem feita no dia 13 de fevereiro, um vídeo de 10 segundos mostra uma mulher vestindo roupas de academia. Ela diz: "Oi! Acabei meu treino agora há pouco, vi seu perfil e te enviei uma solicitação de amizade. Você poderia aceitar e se tornar meu amigo?"
As postagens atraem um número grande de seguidores. O perfil ganhou 200 mil novos seguidores em um mês, passando de 1 milhão para 1,2 milhão.
Uma análise dos comentários na postagem mostra que eles interagem como se ela fosse uma pessoa real. Um usuário respondeu que "Ser seu amigo é o que eu mais quero", enquanto outro disse "Eu aceito ser seu amigo, já falei várias vezes, linda". Um terceiro escreveu: "Só amizade? Que tal um encontro, eita nóis."
Nos stories, o perfil posta vídeos das mulheres e um botão que convida a clicar em um link que leva para diferentes lojas no site de vendas online Shopee. A URL gerada usa um ponto de interrogação, mecanismo utilizado em campanhas de publicidade para, entre outras coisas, identificar a origem de tráfego.
A Shopee tem um programa de afiliados que oferece comissões para cada venda válida. Funciona assim: uma pessoa se inscreve no programa e gera um link exclusivo que direciona para produtos no site da empresa. Toda vez que alguém compra algo na Shopee por meio daquele link, o afiliado ganha uma porcentagem da venda.
Não há, nos stories da "Renata Resources", nenhum aviso de que se trata de conteúdo publicitário. Isso contraria o que diz o programa de afiliados da Shopee, que avisa os afiliados que eles devem identificar o conteúdo como publicidade de forma "clara" e "visível". Ela sugere o uso de termos como #publicidade, #anúncio ou #parceriapaga e as ferramentas oficiais de "parceria paga" disponibilizadas pelas plataformas. "A identificação inadequada ou a omissão do caráter publicitário poderá resultar na aplicação das medidas previstas neste programa, além de eventuais sanções pelas plataformas e autoridades competentes", diz o regulamento da plataforma de comércio.
Em nota enviada ao Verifica, a Shopee disse que associados ao programa de afiliados devem avisar sobre o teor publicitário de postagens que direcionam para o e-commerce e que promove campanhas educativas. Também informou que não permite o uso de links em publicações que promovam desinformação ou conteúdos enganosos, e que excluiu as contas de afiliados citadas pela reportagem.
Conta lucra com valores gastos em bets
A página "Tóxica Mery" utiliza estratégia semelhante para lucrar. Ela chegou a mais de 1,7 milhão de seguidores postando vídeos e fotos de mulheres em cenários montanhosos gerados por IA. As mídias mostram mulheres cuidando de animais ou fazendo tarefas em uma casa de campo.
O perfil é em espanhol, mas isso não impede que usuários brasileiros interajam com o conteúdo. Há comentários em português nas postagens elogiando as mulheres.
Nos stories, a página posta links para levar os usuários para sites fora do Facebook. Neste caso, encontramos links que redirecionam para diferentes páginas de sites de apostas.
O perfil direciona a links das empresas Betano, Blaze, Brazino777, KTO e Rivalo. Todas as páginas continham o sufixo ".bet.br", regra do Ministério da Fazenda para as bets autorizadas a funcionar no País.
As regras públicas do programa de parceria dessas empresas mostram como o direcionamento de usuários gera faturamento aos afiliados. As bets distribuem partes da receita gerada por cada novo apostador. Cada uma adota um cálculo próprio. O Verifica encontrou exemplos com parcelas que variam de 20% a 50% da receita gerada.
A página "Tóxica Mery" não informa aos seus seguidores que tem o esquema de faturamento com o direcionamento de usuários para as plataformas de apostas.
A Betano disse, em nota, que os filiados devem usar "frases claras" para informar que seus conteúdos são publicidade, e que é proibido o uso de conteúdo sexualmente explícito ou obsceno. A empresa informou que descredenciou o filiado do programa.
A Blaze disse exigir de seus filiados o comprometimento de atuar dentro das exigências regulatórias e dos princípios do jogo responsável. O filiado teve o contrato rescindido.
A Brazino777 disse que exige dos seus filiados que cumpram as normas da publicidade brasileira e que conduz investigações reativas quando identifica possíveis violações.
A Rivalo afirmou que "tanto a veiculação de conteúdos sem a devida identificação de publicidade quanto o uso de material de cunho sexual ou que explore atributos físicos, ainda que não explícito, configuram violações às diretrizes da companhia". Também disse monitorar o uso da marca e adotar medidas cabíveis contra irregularidades.
O que dizem especialistas
O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) considera que toda mensagem destinada a estimular o consumo de bens e serviços é publicidade. Isso inclui conteúdos divulgados por meio de acordos formais e informais entre anunciantes e influenciadores nas redes sociais, disse a diretoria do Conar ao Verifica. "Há o entendimento de que as ofertas divulgadas por afiliados por meio de links configuram publicidade, ainda que façam uso de uma nova modalidade de publicidade, em que são divulgados links com ofertas de produtos e/ou serviços, muitas vezes sem a necessária identificação publicitária."
O Conar destacou ainda que "o princípio da transparência e identificação da natureza publicitária" está previsto no Código de Defesa do Consumidor e no Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária (CBAP).
Julia Caldeira, porta-voz do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), disse que os usuários que não identificam os vídeos como publicidade estão violando o artigo 36 do Código de Defesa do Consumidor: "Toda publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a identifique como tal".
Ela afirmou que, em alguns casos, o vídeo com o link para o e-commerce nem sequer tem relação com o produto ofertado, o que configura propaganda enganosa. "O uso das imagens e/ou vídeos sexualizados de mulheres associado ao link induz o usuário ao click, fazendo-o acreditar que haveria alguma relação entre ambos".
Para Karina Santos, coordenadora de Democracia e Tecnologia do Instituto de Tecnologia e Sociedad (ITSRio), os perfis chamam a atenção porque tentam simular uma identidade real, mesmo quando o conteúdo é gerado com IA. Segundo ela, as empresas de tecnologia precisam melhorar não só a rotulação do conteúdo que não é real, mas também para que ela seja mais clara e efetiva.
"O problema não é o uso de inteligência artificial na criação de conteúdo ou até na criação de personagens fictícios, mas sim a ausência de transparência sobre esse uso, principalmente de forma estratégica, maliciosa ou para fins comerciais", disse.
Ela ressalta que a preocupação aumenta quando os conteúdos redirecionam para bets porque mistura engajamento com possíveis riscos econômicos para o usuário de forma pouco clara. "O desafio aqui é entender como diferentes riscos se combinam: o conteúdo sintético, identidade ambígua e direcionamento para serviços potencialmente sensíveis. Não é um problema isolado, são camadas de risco que se combinam", falou.
Sobre a geração de mídias sexualizadas de mulheres, Santos diz que ele dialoga com padrões que existem na sociedade, fora das redes. O que a tecnologia faz é amplificar a objetificação das mulheres e normalizar certos padrões de representação do corpo feminino que podem ter efeitos danosos para a saúde coletiva.
"O ponto de atenção é que a inteligência artificial permite escalar isso de forma muito rápida e, muitas vezes, sem vínculo com uma pessoa real, o que pode reduzir a percepção de responsabilidade sobre o impacto desse conteúdo", falou.
Os perfis Renata Resources e tóxica Mery não têm informação para contato e nem podem receber mensagens. O espaço está aberto para manifestação.
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