Efetivo militar da Ucrânia é menor do que número de baixas divulgado por hackers; veja o que se sabe
POSTAGENS AFIRMAM QUE HACKERS REVELARAM DOCUMENTOS PROVANDO QUE 1,7 MILHÃO DE OFICIAIS TERIAM MORRIDO OU DESAPARECIDO EM CONFLITO COM A RÚSSIA DESDE 2022
O que estão compartilhando: que hackers russos expuseram um banco de dados com informações de 1,7 milhão de militares ucranianos mortos ou desaparecidos desde o início da guerra com a Rússia, em fevereiro de 2022.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: não há informações em fontes independentes que confirmem os dados divulgados pelos hackers. A alegação de que mais de 1,7 milhão de militares ucranianos morreram ou desapareceram na guerra com a Rússia desde 2022 foi publicada, primeiro, no canal do Telegram da agência de notícias russa Mash, em 20 de agosto. A informação se espalhou em outros canais simpáticos ao governo russo, mas não foi divulgada a totalidade dos documentos que possam confirmar os dados.
O Centro de Combate à Desinformação da Ucrânia negou que os números fossem verdadeiros e disse que o país nunca teve um exército regular de 1,7 milhão de pessoas durante os anos de sua independência. Levantamentos de poderio militar e de baixas na guerra da Ucrânia consultados pelo Verifica não sustentam a possibilidade de haver 1,7 milhão de mortos e desaparecidos entre os ucranianos.
Pelo menos um dos documentos citado como prova das alegações dos hackers já circula na internet pelo menos desde março deste ano: é o Certificado de Oficial das Forças Armadas da Ucrânia de um homem chamado Alexandr Alexandrovich, cujo status era desconhecido.
Saiba mais: De acordo com sites e canais em redes sociais que publicaram as alegações do grupo hacker, os dados de baixas ucranianas foram obtidos a partir do acesso ao computador de um dos funcionários do Estado-Maior da Ucrânia.
Os documentos coletados lá reuniriam dados pessoais de militares mortos e desaparecidos, locais onde foram sepultados, dados pessoais do Comando das Forças de Operações Especiais, além de todas as armas transferidas para a Ucrânia desde 2022 e os países responsáveis pelo fornecimento.
Apesar disso, não há nas publicações um meio de acessar todos esses dados, apenas algumas imagens com exemplos do que foi coletado. Sem esse material, não é possível verificar se as informações são confiáveis ou não.
Número de militares da ativa na Ucrânia é menor
De acordo com as publicações que viralizaram nas redes sociais nos últimos dias, 1,7 milhão de militares ucranianos morreram ou desapareceram desde o início da guerra com a Rússia, em fevereiro de 2022. Seriam 118,5 mil em 2022, 405,4 mil em 2023, 595 mil em 2024 e 621 mil em 2025.
No entanto, dados sobre os militares ucranianos, divulgados por organizações independentes não chegam nem perto disso. Em fevereiro de 2022, poucos dias antes da invasão russa à Ucrânia, o jornal norte-americano Financial Times publicou dados do poderio militar dos dois países. O levantamento tinha sido publicado no Balanço Militar 2021 do International Institute for Strategic Studies (IISS) e mostrava que a Rússia tinha quase quatro soldados para cada um ucraniano.
Ou seja, no início da guerra, o efetivo militar russo era de 900 mil oficiais, contra 261 mil militares da Ucrânia. Ao longo da guerra, os dois países convocaram reservistas, e a Ucrânia chegou a convocar pessoas com mais de 60 anos, além de recrutar estrangeiros, inclusive brasileiros e outros latinoamericanos.
No início deste ano, o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, disse que o efetivo do país era de 880 mil militares. O número se aproxima do contingente divulgado para 2025 pelo site Global Fire Power: 900 mil militares da ativa da Ucrânia, contra 1,32 milhão da Rússia.
Em nota divulgada no Facebook e no Telegram, o Centro de Combate à Desinformação da Ucrânia disse que a perda de 1,7 milhão de soldados ucranianos é falsa. "Na verdade, é uma falsificação absolutamente absurda, porque a Ucrânia nunca teve um exército regular de 1,7 milhão de pessoas durante os anos de independência", diz a nota.
Rússia tem mais baixas do que Ucrânia, diz relatório
Um relatório divulgado em março deste ano pelo Center for Strategic & International Studies (CSIS) aponta o número de mortes entre russos e ucranianos desde o início do conflito, em 2022. Houve um volume consideravelmente maior de óbitos entre os russos: 250 mil mortes russas na Ucrânia de fevereiro de 2022 a maio de 2025, contra um valor entre 60 mil e 100 mil mortes ucranianas no mesmo período.
O número de baixas russas - que inclui mortos, desaparecidos e feridos - é de aproximadamente 950 mil, segundo o relatório, enquanto na Ucrânia as baixas são de cerca de 400 mil pessoas, incluindo mortos, desaparecidos e feridos.
Vale ressaltar que a Ucrânia não divulga oficialmente seus números de mortos, mas há algumas pistas. A Praça Mykhailivs'ka, em Kiev, abriga um logo muro memorial com fotos de militares que morreram defendendo a Ucrânia. Antes da guerra com a Rússia, em 2022, o muro tinha 120 metros e 5 mil fotografias. De lá para cá, dobrou de tamanho e já não há mais espaço para novas fotografias, como mostra esta reportagem do site Frontliner.
Já o número de vítimas civis na Ucrânia alcançou em julho deste ano o maior recorde mensal desde maio de 2022, segundo dados da Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas na Ucrânia (HRMMU). Em julho deste ano, foram registradas 1.674 vítimas civis (286 mortos e 1.388 feridos). Em maio de 2022, haviam sido 1.741 vítimas, sendo 589 mortos e 1.152 feridos.
De acordo com o relatório, o maior número de vítimas agora foi atingido em áreas controladas pelo governo da Ucrânia. Eles foram vítimas principalmente de bombas aéreas lançadas pelas forças russas, mas também por drones de curto alcance.
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Quem são os hackers citados nas postagens?
O ataque hacker responsável pela divulgação dos dados é atribuído a um grupo de hackers russos, principalmente aqueles ligados a um grupo chamado Killnet. As ligações entre o grupo e o Kremlin são nebulosas, mas há registros de ataques a organizações públicas e privadas contrárias à Rússia pelo menos desde 2022, após o início do conflito na Ucrânia.
Em dezembro daquele ano, por exemplo, o Killnet derrubou temporariamente o site do Parlamento Europeu após a aprovação de uma resolução que considerava a Rússia um "Estado patrocinador do terrorismo".