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É falso que diário de Anthony Fauci tenha confissões sobre origem do coronavírus em laboratório

SENADOR NORTE-AMERICANO DISTORCEU REGISTROS FEITOS PELO MÉDICO PARA ALEGAR QUE HÁ PROVAS DE VAZAMENTO E DE FINANCIAMENTO DOS EUA A LABORATÓRIO DE WUHAN; AUTORA DE VÍDEO NÃO RESPONDEU

5 ago 2026 - 16h23
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O que estão compartilhando: que o imunologista Anthony Fauci confessou, em registros feitos em seu diário pessoal, que o coronavírus teve origem em um vazamento de laboratório e que o governo dos Estados Unidos financiou, com a coordenação do próprio Fauci, estudos de ganho de função que tornaram o vírus mais letal.

Publicações mentem ao afirmar que diário de imunologista dos EUA traz confissões sobre coronavírus ter se vazado de laboratório
Publicações mentem ao afirmar que diário de imunologista dos EUA traz confissões sobre coronavírus ter se vazado de laboratório
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O senador republicano Rand Paul, do Kentucky, divulgou no final do mês de julho um documento com mais de mil páginas, ao qual chamou de "Tony's Diary", com anotações feitas por Anthony Fauci entre 2019 e 2022, o que inclui o período da pandemia. Mas, diferentemente do que ele afirma, não há nos registros uma confissão de que o governo dos EUA financiou estudos de ganho de função do coronavírus, tampouco revelações de que ele tenha escapado de um laboratório.

Pelo contrário, Fauci sempre defendeu que o vírus teve origem natural, ao passar de um animal para uma pessoa e depois se disseminar com a contaminação entre seres humanos. No diário, ele fez menções à teoria de que o vírus teria vazado de um laboratório, mas sempre mencionando a falta de consenso ou a opinião de outros pesquisadores, não a dele próprio.

Saiba mais: No ano passado, a Casa Branca substituiu a página oficial do governo que fornecia informações sobre a covid-19 por um site que sustenta a teoria de que o vírus vazou de um laboratório de Wuhan, na China. O Verifica checou o conteúdo e mostrou que, diferentemente do que afirmava o governo de Donald Trump, as evidências científicas apontavam para uma origem natural.

No último dia 29 de julho, a Casa Branca usou a conta oficial no X para republicar o link do site com a legenda "A verdade". O post foi feito no mesmo dia em que Anthony Fauci compareceu ao Senado para ser interrogado sobre as origens do coronavírus. Fauci invocou a 5ª Emenda da Constituição dos EUA e optou por não responder às perguntas.

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A audiência foi convocada pelo Comitê de Segurança Interna e presidida pelo senador republicano Rand Paul, que divulgou dias antes o diário com anotações de Fauci sobre a pandemia. Logo depois, publicações se multiplicaram nas redes sociais alegando que Fauci confessou que o vírus teve origem em um laboratório e que ele ajudou a financiar estudos de ganho de função do coronavírus, o que não é verdade.

O Verifica procurou a autora do vídeo checado, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.

O que diz o diário de Anthony Fauci?

A principal alegação de Rand Paul é que Fauci escreveu, em 26 de janeiro de 2020, que já se sabia que o vírus não tinha se originado em um mercado de animais de Wuhan, na China. No entanto, não há neste registro, nem em qualquer outro ao longo do diário, qualquer tipo de "confissão" de que o vírus se originou em um laboratório.

No dia 26 de janeiro, Fauci escreveu que as coisas estavam mudando rapidamente e mencionou que o ministro da Saúde da China havia declarado que o período de incubação do vírus era de 1 a 14 dias e que ele estava sendo transmitido também por pessoas assintomáticas. O imunologista estadunidense disse acreditar que a China estava interpretando mal os dados, mas considerou que, se isso fosse verdade, seria preciso colocar em quarentena todas as pessoas vindas de Wuhan, inclusive as sem sintomas.

Ele continua afirmando que, segundo os dados epidemiológicos e genômicos, a primeira infecção teria ocorrido em dezembro de 2019 e que não estava relacionada com o mercado, diferentemente do que haviam dito as autoridades chinesas. Fauci escreveu: "Agora sabemos que o mercado não foi a fonte, mas sim o amplificador".

Esse trecho tem sido usado como prova de que o vírus não teve a origem natural que Fauci e outras evidências científicas apontam, e sim que vazou de um laboratório, mas não é isso que ele afirma. Logo na sequência, ele continua: "Dito isso, em algum momento o vírus passou dos animais para os seres humanos". Ou seja, ele manteve a tese de que o vírus teve uma origem natural.

Opiniões de outros cientistas

Da mesma forma que Fauci não "confessa" que o vírus teve origem em vazamento de laboratório, também não há provas no diário de que esse suposto vazamento teria ocorrido a partir de um estudo de "ganho de função". Ele menciona essas teorias, como como opinião de outros pesquisadores, e registra não haver consenso.

No dia 31 de janeiro de 2020, Fauci escreveu que recebeu em seu escritório uma ligação do médico e cientista britânico Jeremy Farrar, ligado à Organização Mundial de Saúde (OMS). Ele disse que já circulava uma teoria conspiratória de que o coronavírus teria sofrido uma mutação por meio de um ganho de função e que teria sido liberado, "deliberada ou acidentalmente", em Wuhan.

Para Fauci, todos achavam aquela teoria uma loucura, mas a ligação de Jeremy Farrar foi diferente porque ele tinha conversado com outros biólogos que achavam que as mutações ao redor da proteína spike não poderiam ter ocorrido naturalmente. "Eles levantam a possibilidade de que isso possa ter sido inserido deliberadamente e, em seguida, liberado acidentalmente ou deliberadamente por um louco no laboratório, sendo a primeira hipótese a mais provável", escreveu.

De acordo com as anotações, Jeremy Ferrer havia ligado para Fauci para pedir conselhos, e este sugeriu que se reunisse um número maior de virologistas e biólogos evolutivos qualificados para discutir o assunto, o que aconteceu no dia seguinte. A reunião contou com 12 pessoas, incluindo Fauci.

No dia 1º de fevereiro, após a reunião, ele escreveu que não houve consenso entre os cientistas sobre a possibilidade de que o vírus tenha sido vazado, e que dois dos pesquisadores disseram ter convicção de uma origem natural, de modo que eles não deveriam perder tempo investigando isso. Foram eles: Ron Fushier, vice-chefe do Departamento de Virologia do Centro Médico Erasmus, na Holanda, e Christian Drosten, diretor de Virologia Humana do Centro Alemão de Pesquisa em Infecções da Charité - Universitätsmedizin, na Alemanha.

Os demais consideraram que era possível um vazamento deliberado, considerando que a Dra. Zheng-Li Shi, da Universidade de Wuhan, trabalhava há anos com estudos de ganho de função do coronavírus.

Não há confirmação de que EUA financiaram estudos de ganho de função

Outra alegação que apareceu em vídeos virais após a divulgação do diário foi a de que o conteúdo confirmava que o governo dos Estados Unidos financiou estudos de ganho de função do coronavírus e que os recursos tinham sido liberados sob a coordenação de Fauci enquanto era diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID). Ele ocupou o cargo até 2022.

Não há registros disso, e, todas as vezes que Fauci menciona estudos de ganho de função (GOF, no diário), ele trata o assunto como teoria conspiratória. Além disso, mostra publicações na imprensa que desmentem alegações que ele financiou esses estudos, como checagens de fatos e posts no X de figuras conhecidas que saíram em sua defesa.

Em 17 de maio de 2021, ele escreveu que a "imprensa marginal" está começando a "intensificar a retórica das teorias conspiratórias sobre o GOF". Em 19 de outubro de 2022, ele escreveu: "A BU admite que realizou os experimentos por conta própria e não utilizou recursos do NIAID. Ainda há uma discussão em andamento sobre se isso foi realmente um GOF, já que menos camundongos morreram. De qualquer forma, nós estamos livres dessa questão".

Fauci se referia à Universidade de Boston, acusada de criar um híbrido do coronavírus em laboratório. A universidade negou que tivesse criado uma cepa mais mortal do Sars-CoV-2.

Estadão
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