Checamos a entrevista de Fernando Haddad ao 'Estadão'; veja o resultado
CANDIDATO DO PT AO GOVERNO DE SÃO PAULO FALOU SOBRE INTEGRAÇÃO DO TRANSPORTE METROPOLITANO, EDUCAÇÃO E SANEAMENTO, ENTRE OUTROS TÓPICOS
O Estadão Verifica checou declarações de Fernando Haddad em entrevista. O candidato acertou ao citar a queda de São Paulo no Ideb, o aumento da letalidade policial e as restrições no Campo de Marte. Contudo, foi enganoso ao falar de tarifas de trem e do total de escolas federais, além de impreciso sobre seu tempo de TV. Declarações sobre regulação e impacto das bets no PIB, moradias populares entregues em sua gestão na prefeitura, serviços funerários e a privatização da Sabesp carecem de contexto.
O candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad (PT) foi entrevistado na manhã desta sexta-feira, 18, pelo Estadão. O Estadão Verifica, núcleo de checagem de fatos do jornal, analisou a veracidade das alegações feitas ao longo da entrevista.
Foram consideradas apenas afirmações factuais, como números, datas, comparações de grandeza e outras. A depender da apuração, podemos atribuir as etiquetas "falso", "enganoso", "exagerado", "subestimado", "impreciso", "falta contexto" e "verdadeiro".
A assessoria do candidato foi procurada para comentar a checagem, e o texto será atualizado se houver resposta.
Veja o resultado abaixo:
Tempo de propaganda eleitoral na TV
O que Haddad disse: que ele tem 30% do tempo de TV de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
O Estadão Verifica checou e concluiu que: é impreciso. O governador Tarcísio tem 6 minutos e 20 segundos de horário eleitoral exibido no rádio e na televisão. Já Haddad tem 2 minutos e 39 segundos. A proporção é de 42%.
Regulamentação das bets
O que Haddad disse: que Tarcísio autorizou bet em São Paulo, mas que vai proibir se for eleito.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: falta contexto. Em 2022, o governo do Estado de São Paulo apresentou o projeto de concessão para a iniciativa privada da nova Loteria Paulista. Em leilão, o Consórcio SP Loterias pagou R$ 526 milhões ao governo estadual, em contrato de 15 anos. Nesse período, o governo paulista estima que vai arrecadar mais de R$ 3,4 bilhões.
Segundo a Folha de S. Paulo, desde o dia 1º de julho deste ano, a Loteria Estadual de São Paulo opera em um site com endereço ".bet", com jogos online similares a caça-níqueis e roletas.
Haddad omite, porém, que fez movimentos para regulamentar as bets enquanto ocupava o cargo de ministro da Fazenda. Em 2023, o Ministério da Fazenda publicou uma portaria que determina que as empresas de apostas só podem atuar no Brasil se estiverem credenciadas junto ao governo e tiverem sede no território nacional. Assim, embora o órgão tenha imposto critérios para atuação das bets, elas não foram proibidas.
Perda econômica com bets
O que Haddad disse: que vai defender o fim das bets porque elas impactam entre 0,5% e 1% do Produto Interno Bruto (PIB).
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: falta contexto. Até o momento, não existe uma medição oficial consolidada, com metodologia contínua, sobre o impacto das casas de apostas sobre o PIB, apenas estimativas. Em agosto, um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP), estimou que, em 2025, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica, em razão da redução do consumo, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB.
O banco Santander estimou, com dados de 2024, que as bets têm potencial para reduzir de 0,2% a 0,3% do PIB.
A Pesquisa 2004/2025 de Orçamentos Familiares (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mede gastos, ganhos e o consumo das famílias no Brasil, deverá trazer informações sobre apostas, mas ainda não foi publicada.
Entrega de moradias
O que Haddad disse: que entregou, como prefeito de São Paulo, cerca de 15 mil unidades habitacionais, e viabilizou e licenciou mais de 100 mil.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: falta contexto. A gestão de Haddad na Prefeitura de São Paulo entregou 14.951 unidades habitacionais. No entanto, sua meta inicial era de 55 mil.
Quando Haddad deixou a Prefeitura, em 2016, as obras ainda estavam inacabadas. No mesmo ano, a Prefeitura informou ao Fiquem Sabendo que desembolsou R$ 740 milhões em desapropriações de terras para construção de habitação popular e viabilizou terrenos que permitiriam a construção de mais de 124 mil moradias.
Qualidade do ensino
O que Haddad disse: que São Paulo caiu para a 10ª posição em qualidade do ensino no governo de Tarcísio.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é verdadeiro. A rede estadual de São Paulo alcançou a 10ª posição no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) em 2025. Os resultados foram divulgados pelo Ministério da Educação em agosto deste ano. São Paulo obteve uma média de 4,3 para o ensino médio, chegando à 10ª posição. Em 2015, a rede estadual paulista ocupava o primeiro lugar. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, o estado alcançou a nota 6,6, ficando acima da média nacional de 6,3.
Transporte público na capital
O que Haddad disse: que, com a privatização de linhas da CPTM, o trajeto de Jundiaí para o Centro de São Paulo, que antes era feito com apenas uma passagem, agora é feito com duas e com uma baldeação na estação Palmeiras-Barra Funda.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O candidato refere-se ao fim do serviço 710, que fazia conexão direta entre as Linhas 7-Rubi e 10-Turquesa. Mas a estação Palmeiras-Barra Funda tem área de transferência gratuita. Lá, é possível pegar a linha 3-Vermelha do metrô, além das linhas de trem 7-Rubi (TIC Trens), 8-Diamante (ViaMobilidade), 10-Turquesa (CPTM), 11-Coral (Trivia Trens) e Expresso Aeroporto (Trivia Trens). Não é necessário pagar duas passagens para fazer a integração, como disse o candidato.
Campo de Marte
O que Haddad disse: que Tarcísio, enquanto ministro da Infraestrutura, promoveu a privatização do Campo de Marte e colocou uma cláusula que amplia o cone de aproximação.
O Estadão Verifica checou e concluiu que: é verdadeiro. Um leilão realizado em 2022, quando Tarcísio era ministro da Infraestrutura, entregou a concessão do Campo de Marte à iniciativa privada.
O contrato de concessão estabeleceu a mudança do procedimento de pousos e decolagens, que passará a ser também com base em dados do computador de bordo e outros equipamentos, no sistema chamado de voo por instrumentos. Atualmente, as movimentações ocorrem apenas por meio da visão do piloto.
Essa mudança amplia o raio de restrições de altura de prédios para mais bairros da capital e em 15 cidades da região metropolitana. Com isso, um número maior de projetos para construção de edifícios pode precisar passar por análise aprofundada da Aeronáutica.
Serviço funerário em São Paulo
O que Haddad disse: que o serviço funerário na cidade de São Paulo encareceu após a privatização.
O Estadão Verifica checou e concluiu que: falta contexto. Como mostrou o Estadão, um levantamento dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep), em 2024, mostrou que o pacote funerário mais barato na capital paulista saltou de cerca de R$ 428 para R$ 1.494 após a concessão dos serviços funerários, em março de 2023, sob a gestão Ricardo Nunes (MDB).
Contudo, as empresas privadas questionaram os valores citados, afirmando que as cobranças feitas pelas concessionárias eram 25% inferiores em comparação aos praticados anteriormente pelo Serviço Funerário da Prefeitura (SFMSP). Na época, o município apresentou uma tabela comparativa, com preço total mais barato no pacote social após a privatização.
Em novembro de 2024, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o município de São Paulo reestabelecesse os valores dos serviços anteriores à concessão. O tribunal ainda analisa as duas decisões que estabeleceram um teto para a cobrança das atividades.
Privatização da Sabesp
O que Haddad disse: que 60% dos paulistanos são a favor da reestatização da Sabesp.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: falta contexto. Uma pesquisa do Datafolha mostrou que 54% dos eleitores paulistanos eram contra a privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Os dados não citam especificamente o apoio à reestatização da companhia, mas demonstram insatisfação com a venda para a iniciativa privada em julho de 2024. A pesquisa também mostrou que 31% dos ouvidos eram favoráveis à mudança, e que 15% não tinham opinião ou eram indiferentes à privatização.
Centros de ensino médio federal
O que Haddad disse: que a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica tem 800 unidades no Brasil, sendo 60 em São Paulo.
O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. Atualmente, a rede federal é formada por 754 unidades, sendo que 111 novos campi estão em processo de implementação, segundo o site do Ministério da Educação. Na lista do Estado de São Paulo, constam 43 instituições federais de educação.
Em março, uma nota do Instituto Federal de SP (IFSP) anunciou 15 novos campi, sendo que dois - Carapicuíba e São Bernardo do Campo - foram aprovados para funcionamento em julho.
A Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica é constituída por Institutos Federais (IFs), Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets), Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), escolas técnicas ligadas à universidades federais e pelo Colégio Pedro II.
Letalidade policial
O que Haddad disse: que a letalidade policial dobrou em São Paulo.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é verdadeiro. Em 2022, antes de Tarcísio assumir o governo, o Estado de São Paulo teve 421 mortes decorrentes de intervenções policiais em serviço e fora de serviço, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. No primeiro ano do mandato de Tarcísio, em 2023, esse número aumentou para 504. Em 2024, houve um salto para 813. Já em 2025, foram 835 mortes - número que representa quase o dobro dos casos de 2022.
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