Células-tronco não criam 'super-humanos' nem substituem óvulos e espermatozoides em gestações
VÍDEO EM REDES SOCIAIS DISTORCE ESTUDOS COM BLASTOIDES; ESTRUTURAS DE LABORATÓRIO SERVEM PARA ENTENDER INFERTILIDADE, NÃO PARA GERAR BEBÊS
É falsa a alegação de que células-tronco estão sendo usadas para criar super-humanos ou gerar bebês para casais homoafetivos sem óvulos e espermatozoides. Embora cientistas criem blastoides — estruturas celulares que mimetizam embriões iniciais —, eles são biologicamente inviáveis para gerar fetos e servem apenas para pesquisas de reprodução. Além da limitação técnica, a legislação brasileira proíbe a clonagem reprodutiva e a seleção genética com fins eugênicos ou estéticos.
O que estão compartilhando: que já existem seres humanos criados a partir de células de casais homoafetivos, sem a necessidade de espermatozoides ou óvulos. Isso seria possível a partir de uma técnica com uso de células-tronco, que permitiria a criação de "super-humanos" ou "super-soldados".
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Cientistas já conseguiram criar em laboratório estruturas celulares sintetizadas a partir de células tronco que mimetizam a fase inicial de um embrião. Elas são chamadas de blastoides. Mas essas estruturas não têm capacidade biológica de se transformar em um feto. De acordo com especialistas, elas servem para estudar a fase da gestação em que o embrião tenta se fixar no útero. Ainda não existe tecnologia que permita a duas pessoas do mesmo sexo gerar um filho biológico apenas com o material genético dos dois. E a legislação brasileira proíbe a seleção genética para criação de "super-humanos".
Saiba mais: Um estudo publicado neste ano na revista científica Cell Research detalhou o desenvolvimento dos chamados blastoides. Eles são modelos criados em laboratório a partir de células-tronco que simulam a arquitetura celular de um blastocisto inicial (formado cerca de seis dias após a fecundação). O blastoide, no entanto, tem deficiências biológicas que o impedem de evoluir para um feto.
O médico Dani Ejzenberg, médico do Centro de Reprodução Humana Mário Covas, explicou que os blastoides são usados em estudos sobre a reprodução humana, especialmente sobre a fase de implantação do embrião, que termina cerca de dez dias após a fecundação. Nesse período, segundo ele, ocorrem de 60% a 70% das perdas gestacionais.
"Com o blastoide, (os cientistas) querem tentar entender o que acontece dentro do útero sem utilizar embriões de verdade", disse Ejzenberg, que é integrante da Câmara Técnica de Reprodução Assistida do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). "Então, eles conseguem ver como ocorre o processo de implantação do embrião e quais medicamentos podem ajudar ou atrapalhar nesse processo."
Ejzenberg lembrou que os blastoides não sobrevivem mais que 14 dias. "Não é permitida a colocação de blastoides dentro do útero de humano ou de animal para que deem origem a um outro ser", afirmou.
A médica Rivia Lamaita, da Comissão Nacional Especializada em Reprodução Assistida da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), reforçou que o blastoide não é biologicamente viável. "Ele não tem uma arquitetura celular completa, sincrônica e natural como a de um embrião vindo de um óvulo e de um espermatozóide", explicou. "Além disso, é terminantemente proibido pela nossa legislação esse tipo de modelo ir para o útero."
A prática de reprodução assistida e o uso de células-tronco no Brasil são rigidamente regulamentados. A resolução nº 2.320/2022, do Conselho Federal de Medicina (CFM), regulamenta a Fertilização in Vitro (FIV) e autoriza a reprodução assistida para casais homoafetivos e pessoas solteiras. A norma proíbe a seleção do sexo ou de características biológicas (exceto para evitar doenças hereditárias). Ela também veta a transferência de modelos embrionários sintéticos, como os blastoides, para o útero.
Já a Lei de Biossegurança (Lei nº 11.105/2005) proíbe expressamente a clonagem humana reprodutiva e o uso de engenharia genética para a manipulação de células humanas voltada para fins eugênicos.
O mito dos mutantes
Como dito anteriormente, a legislação brasileira proíbe a manipulação genética para seleção de características biológicas, como traços estéticos ou sexo do bebê. A médica Rivia explicou que é permitida a análise genética para selecionar embriões sem alterações causadoras de doenças. A resolução do CFM estabelece que os embriões não selecionados podem ser doados para pesquisa ou descartados, de acordo com a decisão do paciente.
O médico Ejzenberg refuta a ideia de que seja possível criar "super-humanos" com a análise genética de embriões. Testes como o PGT (Diagnóstico Genético Pré-Implantacional, na sigla em inglês) analisam o número de cromossomos para evitar síndromes como Down, Patau ou Edwards, ou mutações específicas de doenças hereditárias conhecidas na família, como a surdez congênita ou distrofias. "Esses testes foram desenvolvidos para que a gente aumente a chance de nascimento de crianças saudáveis, e não para se selecionar a cor do olho, cor do cabelo", resumiu.
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