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Canais de bets ilegais somam mais de um milhão de inscritos no Telegram

COMUNIDADES PROMOVEM PLATAFORMAS DE APOSTAS QUE SÃO ATRATIVAS PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS COM COMPULSÃO POR JOGOS; MINISTÉRIO DA FAZENDA DIZ QUE MAIS DE 56 MIL DOMÍNIOS ILEGAIS JÁ FORAM BLOQUEADOS

7 ago 2026 - 13h40
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O mercado ilegal de apostas esportivas e jogos online segue ativo na internet, apesar das iniciativas do governo federal para impor limites às chamadas bets. O Estadão Verifica mapeou oito plataformas clandestinas que somam mais de um milhão de inscritos em seus canais no Telegram. Por estar à margem da legislação, elas podem representar danos ainda maiores à população.

Foto: Estadão

Os nomes das bets ilegais não serão citados nesta reportagem, mas foram repassados ao Ministério da Fazenda, que regula o setor, juntamente com os seus endereços na internet.

A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda disse que mantém ações permanentes para combater a atuação de plataformas clandestinas de apostas. E que, desde outubro de 2024, mais de 56 mil domínios ilegais já foram bloqueados por meio de parceria com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Veja resposta completa ao fim do texto.

Já o Telegram afirmou que mantém contato rotineiro com o Ministério da Fazenda para tratar de conteúdo relacionado a jogos ilegais no Brasil.

Todos os canais das bets ilegais no Telegram levam a sites que não têm a terminação ".bet.br", que é obrigatória para as bets autorizadas pelo Ministério da Fazenda (veja a lista aqui). Um deles tem o domínio uk.com, o que indica origem no Reino Unido, mas está em português e com acesso liberado no Brasil. A plataforma oferece "chance de ganhar muito", com promessa de bônus em dinheiro apenas por se registrar nela. Trata-se de uma característica comum às outras bets ilegais mapeadas.

Todas as plataformas oferecem apostas esportivas, cassinos online e jogos de caça-níqueis. No Telegram, as mensagens que compartilham têm tom apelativo para atrair apostadores, como "entre no jogo e conquiste sua fortuna!", "hoje é seu dia de sorte!" e "até 99% de chance de ganhar".

"Esses apelos são gatilhos mentais, que desencadeiam na pessoa a sensação de que ela tem que jogar naquele momento", explicou o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva.

Possível prática de extorsão

Há ainda propagandas que reproduzem supostos comprovantes de transferências a apostadores, com valores de R$ 14,5 mil, R$ 13 mil e R$ 10 mil. Outras divulgam supostos pagamentos de prêmios em valores vultosos. Alguns dos exemplos: "Parabéns ao jogador. Valor vencedor: R$ 820.600,00" e "depósitos únicos de 10 reais ou mais darão direito a um bônus em dinheiro de 55,55 milhões".

No site Reclame Aqui há relatos de pessoas que afirmam ter sido enganadas. Alguns deles apontam para a prática de extorsão. Uma das reclamações diz: "Depositei 70 reais para jogar na casa de apostas e ganhei 2.800. Na hora de sacar, o dinheiro não cai na conta. Entrei em contato e pediram que eu fizesse mais um depósito de R$ 100 para poder fazer o saque."

O mesmo padrão se repete em outros dois relatos. "Ganhei e eles não querem pagar. Só ficam mandando eu depositar mais e mais", afirmou um apostador. Outra pessoa escreveu que só poderia receber o bônus devido ao atingir um volume extremamente alto de apostas.

Por serem clandestinas, essas plataformas não são alcançadas pela Lei das Bets (14.790/2023) e pelas portarias da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda e do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que buscam criar um ambiente de jogo responsável no mercado das bets autorizadas.

Como explica o presidente da Comissão de Direito dos Jogos, Apostas e do Jogo Responsável da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP), Luiz Felipe Santoro, as normas jurídicas em vigor vedam peças publicitárias que estimulem a prática ou apresentem as apostas e jogos online como investimento ou fonte de renda, prometam ganho fácil e criem senso de urgência. "Todas as mensagens mencionadas configuram infração à regulamentação vigente", afirmou Santoro. "A simples mensagem 'Entre no jogo', por exemplo, já seria proibida, por estimular o consumidor a jogar ou apostar. O complemento 'Conquiste sua fortuna' é pior ainda, por trazer uma falsa ideia de ganho fácil".

Risco para menores de idade

Outro aspecto ilegal é a permissividade para a participação de menores de 18 anos. A Portaria SPA/MF nº 1.231/2024 determina que o cadastro do apostador deverá conter dados como CPF, nome completo e data de nascimento. E que a sua identidade e a veracidade das informações devem ser verificadas pela plataforma, inclusive com reconhecimento facial.

Nas bets ilegais mapeadas pelo Verifica, o cadastro exige apenas autodeclaração de idade ao clicar em uma caixa em que se lê: "Tenho mais de 18 anos". Em quase todos os casos, a caixa já vem automaticamente preenchida, e uma das casas de apostas não exige filtro de idade.

A situação é agravada pelo fato de as plataformas abusarem de ilustrações de bichinhos e personagens lúdicos, todos representados em imagens coloridas. Na avaliação do psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, esses elementos são um chamariz para crianças e adolescentes.

"Toda mídia, legal ou ilegal, quer atingir um ponto específico", explica o psiquiatra. "Com bichinhos e tudo muito colorido e brilhante, com certeza se quer atingir um público infantil, que é mais suscetível a desenvolver a dependência, pois ainda está em formação."

Silva chama atenção para o amplo acesso a celulares e tablets por crianças e a facilidade que elas têm para lidar com esses dispositivos, que podem estar com cartões bancários cadastrados: "Hoje, uma criança de 3 anos de idade faz absurdos quando você dá a tela para ela, inclusive compras. Não sabem ler, nem falar direito, mas estão ali, mexendo nos joguinhos comuns do dia a dia. Para quem está por trás disso, quanto mais vício, melhor."

Para o psiquiatra, qualquer propaganda de bet, legal ou ilegal, deveria ser proibida. "Essas casas de apostas não deveriam ter sido autorizadas. Agora que foram, o mínimo que se tem que fazer é proibir qualquer tipo de propaganda."

Busca intencional por viciados em jogos

A Lei nº 14.790/2023 diz que pessoas diagnosticadas com compulsão incontrolável por jogos de azar e apostas (ludopatia) estão impedidas de apostar nas bets. Luiz Felipe Santoro explica que a aplicação, na prática, se dá de duas formas: preventiva, pelo próprio usuário, que pode acionar o Sistema Centralizado de Autoexclusão de Apostas do governo federal, e pelas próprias bets, que devem monitorar padrões de comportamento de risco e bloquear usuários que apresentem sinais de jogo patológico. "Caso as operadoras assim não façam, as apostas poderão ser consideradas nulas pelo Poder Judiciário, hipótese em que a operadora poderá ser condenada a restituir os valores apostados", explica o advogado.

Na avaliação de Santoro, por não terem mecanismos para saber quem está jogando, as bets ilegais acabam por atrair e incentivar a participação de apostadores com transtornos. O psiquiatra Antônio Geraldo explica que as mensagens das bets ativam nessas pessoas a área do cérebro conhecida como o centro do prazer. "O ludopata então vai atrás, buscar a sua recompensa."

Coordenador do serviço de Saúde Mental no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o psiquiatra Alaor Carlos acrescenta que o ludopata se torna refém do comportamento compulsivo em jogos. "Ele tem o sistema de recompensa cerebral sequestrado, e vai buscar a satisfação desse prazer de qualquer maneira. Essas bets funcionam dessa forma ilegal, sem filtros para contê-lo, justamente para atender a essa demanda, que existe."

Bloqueios e fiscalização

O Ministério da Fazenda explicou que, dentre as medidas permanentes para combater a atuação das casas clandestinas de apostas, estão o bloqueio de sites ilegais, o monitoramento do sistema financeiro, a fiscalização da publicidade irregular e a supervisão dos agentes que atuam na cadeia operacional do setor (B2B).

O órgão disse que a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) vem aperfeiçoando seus mecanismos de monitoramento por meio de ferramentas tecnológicas especializadas, incluindo um laboratório virtual voltado à identificação e ao bloqueio mais célere de plataformas irregulares.

No âmbito financeiro, a SPA afirmou que proíbe instituições financeiras e de pagamento de processarem transações destinadas a operadores ilegais (Art. 21 da Lei nº 14.790/2023). Já a Lei Antifacção (nº 15.358/2026) ampliou os instrumentos de combate à lavagem de dinheiro, fraudes e outros ilícitos relacionados à exploração irregular de apostas.

O ministério ainda citou medidas de asfixia financeira. A partir de 28 de agosto, após a notificação da SPA, instituições financeiras e de pagamento deverão bloquear, em até 24 horas, os recursos mantidos por bets irregulares e impedir novas transações destinadas a esses agentes. A ação é amparada pelo Decreto nº 13.033/2026 e pela Resolução CMN nº 5.320/2026.

Na área de publicidade, a SPA afirmou que removeu 979 perfis e 307 publicações que promoviam apostas irregulares.

Outro eixo de ação informado é a estruturação do modelo regulatório voltado aos prestadores de serviço que integram a cadeia operacional de apostas. Segundo a SPA, a medida busca ampliar a rastreabilidade, a transparência e a supervisão de empresas que desempenham funções essenciais para o mercado, como provedores de plataformas e desenvolvedores de jogos. A elaboração da proposta de regulamentação está em andamento.

Estadão
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