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Bolsonaro não 'segurou' preço da gasolina durante guerra na Ucrânia; valor médio superou R$ 6

LITRO DO COMBUSTÍVEL NO PAÍS ERA VENDIDO A R$ 7,39 EM JUNHO DE 2022, O MAIOR VALOR DESDE 2013; VÍDEO VIRAL DESCONTEXTUALIZA DADOS

25 mar 2026 - 14h57
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O que estão compartilhando: que o governo de Jair Bolsonaro (PL) teria conseguido segurar o preço da gasolina e entregá-la a R$ 4,88, em meio à guerra da Ucrânia, quando o valor do barril do petróleo chegou a custar US$ 141.

Na verdade, gasolina oscilou no Brasil após o início da guerra na Ucrânia.
Na verdade, gasolina oscilou no Brasil após o início da guerra na Ucrânia.
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e descobriu que: é enganoso. Depois do dia 24 de fevereiro de 2022, quando teve início a guerra na Ucrânia, o preço médio da gasolina aumentou rapidamente, chegando ao pico de R$ 7,39 em 19 de junho de 2022. Esse foi o maior valor da gasolina registrado desde 2013. O governo de Bolsonaro decidiu então isonerar o combustível de impostos federais e colocar um teto nos tributos estaduais. Só depois disso o preço abaixou e ficou em R$ 4,96 no fim do mandato. O valor médio da gasolina no período entre o início da guerra e o fim da gestão de Bolsonaro ficou em R$ 6,02. Vale dizer ainda que o preço do barril de petróleo não chegou a US$ 141 em 2022. O máximo foi de US$ 133,18, em 8 de março de 2022.

Procurado pelo Verifica, o autor do vídeo não respondeu até a publicação da checagem.

Saiba mais: Circula nas redes sociais um vídeo do deputado estadual pelo Rio Grande do Sul Gustavo Victorino (Republicanos) comparando como as gestões de Jair Bolsonaro e de Luiz Inácio Lula da Silva lidaram com o preço da gasolina em contextos de conflitos mundiais.

Ele diz que Bolsonaro conseguiu segurar o preço da gasolina, mesmo com a eclosão da guerra na Ucrânia, quando o valor do barril do petróleo se aproximou do patamar de US$ 141. Ele diz que, diferentemente de Lula em meio à guerra no Irã, Bolsonaro encontrou uma solução, porque entregou o preço da gasolina a R$ 4,88. Postado no dia 19 de março, o vídeo ultrapassa 677 mil visualizações.

Média do preço da gasolina com Bolsonaro após início da guerra foi de R$ 6,02

O Verifica consultou o levantamento do preço médio da gasolina comum feito pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Do início da guerra na Ucrânia (fevereiro de 2022) até o final do mandato de Bolsonaro (dezembro de 2022), foram feitas 45 medições semanais. Ao analisá-las, observamos que:

O valor médio da gasolina no País ficou em R$ 4,88 apenas em duas das medições semanais feitas no período, entre 18 e 24 de setembro e entre 16 e 22 de outubro;O valor mínimo foi de R$ 4,79, na semana de 2 a 8 de outubro;O valor máximo ficou em R$ 7,39, na semana de 19 a 25 de junho;O valor médio do litro da gasolina comum foi de R$ 6,02.Na alta do petróleo, gasolina chegou a ser vendida a mais de R$ 8

O conflito teve início nas primeiras horas da manhã de 24 de fevereiro de 2022. Nesse dia, o preço mais baixo da gasolina foi de R$ 5,65, em uma revendedora de Bauru (SP); o mais alto foi de R$ 7,68, em Araruama (RJ). O valor do barril do petróleo bruto Brent naquela data, estava em US$ 121,29, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Na média, o preço da gasolina ficou em R$ 6,56 no País.

Do início do guerra até o final do ano 2022:

O preço do petróleo nunca bateu os US$ 141. O preço máximo foi US$ 133,18, em 8 de março de 2022. Neste dia, o preço mais baixo do litro da gasolina comum foi de R$ 5,19, em Macapá (AP) e o mais alto foi R$ 8,27, em Ilhéus (BA). O valor médio no País foi de R$ 6,68 naquela semana.No período em que o valor da gasolina atingiu R$ 4,88, o preço do barril do petróleo variou entre US$ 76,02 a US$ 101,13.O preço médio da gasolina ficou acima dos R$ 7 ao longo de 16 semanas, ou quatro meses.Bolsonaro baixou preço da gasolina reduzindo tributos

Após o preço médio da gasolina chegar a R$ 7,39 em junho de 2022, Bolsonaro propôs teto de 17% para o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) cobrado nos Estados sobre o produto. A medida foi aprovada no Congresso às vésperas do período eleitoral.

O governo federal zerou até dezembro de 2023 as alíquotas dos tributos federais Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide-Combustíveis), Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) incidentes sobre a gasolina.

A partir disso, o preço recuou, motivado também pela redução pela Petrobras do preço da gasolina nas refinarias. Isso aconteceu graças à queda no valor do barril de petróleo no mercado externo. Bolsonaro encerrou o governo com o preço da gasolina comum a R$ 4,96.

No ano seguinte, quando Lula assumiu o governo, ele decidiu pela retomada da cobrança de impostos federais sobre a gasolina e o etanol. Em março, o governo começou a fazer uma cobrança parcial, com carga maior sobre a gasolina. Em junho, passou a valer a reoneração total do PIS/Cofins.

Qual foi o impacto de cada guerra nos preços?

O doutor em economia Luciano Nakabashi, professor da Universidade de São Paulo (USP), explicou que o impacto no preço do petróleo durante a guerra na Ucrânia se deu porque a Rússia, que é um dos maiores exportadores do produto, sofreu uma série de embargos de outros países, principalmente no início do conflito.

No caso do Irã, a questão está mais ligada ao Estreito de Ormuz, por onde passa de 20% a 25% do petróleo comercializado no mundo. O espaço está sob controle do país, que praticamente não permite que navios o atravessem.

Nesse cenário, segundo o economista, antes mesmo do real impacto ocorrer, apenas diante da expectativa de um desabastecimento, começa a ocorrer aumento de preços.

"A guerra do Irã está impactando justamente na restrição. É uma questão de oferta e demanda. Se reduzir a oferta, vai aumentar o preço", explicou.

Petrobras e distribuidoras negam existir desabastecimento de combustíveis

É enganoso post que compara preços de gasolina durante governo Bolsonaro e Lula

O petróleo é considerado um bem de baixa elasticidade. Ou seja: a quantidade demandada do produto pelos consumidores varia muito pouco mesmo quando ocorre uma grande mudança no preço. Assim, a tendência é haver alta significativa.

"É muito mais difícil substituir petróleo, principalmente no curto prazo", explicou Nakabashi. "Quando se reduz a oferta, existe uma dificuldade muito grande de reduzir a demanda. Como você vai circular menos? Como vai carregar menos mercadoria entre países e dentro do próprio país?".

O doutor em Economia Mauro Rochlin, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), explica que é cedo para antecipar quais impactos a guerra no Irã terá futuramente nos preços dos combustíveis.

Ele relembra que, no caso da guerra na Ucrânia, os efeitos foram de médio prazo, com pelo menos um ano de preço dos barris de petróleo maiores que no período anterior ao conflito. O mesmo ocorreu com o gás da Rússia, que tornou o preço da energia mais caro no mundo todo.

"Acabou tendo um impacto inflacionário tremendo. Em 2022, a inflação chegou até a 10% nos países de economia mais avançada", obervou o economista.

Segundo ele, esse cenário obrigou os países a adotarem uma política de juros muito severa, o que freou o crescimento econômico.

Apenas nos dois últimos anos começou a haver a recuperação desse cenário, mas agora há um novo problema a partir do conflito dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Governo Lula investiga prática de preços abusivos em postos e distribuidoras

Em 27 de fevereiro, um dia antes dos Estados Unidos e Israel atacarem o Irã, o barril do petróleo era comercializado a US$ 71,32, segundo o Ipea. Desde então, o preço vem aumentando e chegou a US$ 101,04 no dia 16.

A última avaliação de preços da gasolina comum no Brasil, feita na semana entre 15 e 26 de março, apontou que o litro foi comercializado a R$ 6,46 em média. O menor valor de revenda encontrado pela ANP foi de R$ 5,49 e o maior foi de R$ 9,39.

O maior problema do governo, agora, não é a gasolina, e sim o óleo diesel, outro produto oriundo do petróleo. Produtores rurais têm reclamado de falta do combustível e caminhoneiros dos preços.

No dia 20, o Ministério da Justiça anunciou a criação de uma força-tarefa para fiscalizar o mercado de combustíveis diante de indícios de aumentos abusivos de preços nas bombas em meio ao cenário da guerra do Irã.

A Polícia Federal abriu inquérito para investigar crimes como manipulação artificial de preços, formação de cartel e infrações contra a ordem econômica.

Antes disso, Lula anunciou um pacote de medidas para controlar o preço do óleo diesel no País, que inclui zerar as alíquotas de impostos federais na importação e comercialização do produto. Não foi mencionada a gasolina.

O presidente pediu que os governadores estudem a redução de ICMS sobre combustíveis para evitar o aumento do preço. Na ocasião, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o preço da gasolina está dentro da política de preços da Petrobras.

"A maior pressão que o mercado de combustíveis sofre hoje vem exatamente do diesel, não da gasolina. É com o diesel que estamos mais preocupados, pelo fato de o diesel afetar as cadeias produtivas de maneira muito enfática", declarou.

Sobre isso, o economista Rochlin explica que intermediários como os distribuidores podem querer aumentar estoques ao perceberem que os preços tendem subir, mesmo que o governo conceda subvenções e reduza impostos. Acaba se formando um efeito que os economistas chamam de "profecia autocumprida".

"Se as empresas acham que vai faltar óleo diesel, o racional seria que as pessoas se antecipassem à falta, comprassem óleo diesel e estocassem, e que as empresas fizessem esse movimento, como provavelmente estão fazendo", disse.

De acordo com ele, isso acaba gerando escassez de produto no mercado, o que provoca a alta de preços. "O mercado tem essa dinâmica, não dá para ignorar isso", afirmou.

Comparação entre momentos distintos não é tão simples

O economista Rochlin destaca que não é correto comparar os valores dos combustíveis nas bombas em dois períodos distintos, como faz o vídeo enganoso, apenas com base no valor do barril do petróleo.

Ele explica que o preço da gasolina é composto por diferentes itens e que cada um tem um peso. Os principais são o petróleo em si, o câmbio, o custo dos impostos e as margens de todos os participantes da cadeia produtiva. Nisso entram refinarias, distribuidores e varejistas.

"Todos esses fatores importam e a gente teria que falar sobre cada um deles, entender cada um deles, para de fato poder falar que a alegação está contextualizando com o mínimo de rigor os dois cenários", disse.

Para ele, o que complica mais a comparação entre os dois governos é justamente o momento de extrema volatilidade no preço do petróleo. Para o economista, analisar o período de guerra atual, de menos de 30 dias, pode ser insuficiente para capturar toda a volatilidade da situação.

Estadão
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