Anúncios na Meta levam a grupos de venda de pornografia e possível exploração de menores no Telegram
LINKS PATROCINADOS NO FACEBOOK E INSTAGRAM PROMOVEM CANAIS QUE COBRAM POR ACESSO A IMAGENS DE SEXO COM ADOLESCENTES; ALERTADA, EMPRESA DISSE TER REMOVIDO CONTEÚDOS
Alerta: o texto abaixo aborda conteúdos sensíveis relacionados a abuso sexual.
Dezenas de anúncios no Instagram e no Facebook - as redes sociais da Meta - levam a grupos do aplicativo de mensagens Telegram que comercializam conteúdos pornográficos, inclusive envolvendo pessoas que aparentam ser menores de idade. Uma pesquisa feita pelo Estadão na Biblioteca de Anúncios da Meta detectou a existência de uma série de links patrocinados com fotos de meninas e promessa de acesso a vídeos denominados "secretos", "brutais" e "macabros". As postagens ainda mencionam os termos "incesto", "incesto real" e "estupro".
A pena para a divulgação de pornografia infantil, de cenas de estupro e de estupro de vulneráveis pode chegar até a 8 anos de prisão. Em junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que as redes sociais podem ser responsabilizadas por manter esse tipo de conteúdo no ar, mesmo sem ordem judicial para removê-lo. Além disso, o teor pornográfico desses anúncios viola os termos de uso das próprias plataformas.
As palavras chamativas são inseridas em fotos de jovens que ilustram os anúncios, e são formadas a partir da combinação de letras e números. Isso, em tese, dificultaria a detecção automática de conteúdos proibidos.
O Estadão monitora os anúncios há mais de uma semana. Os números variam a cada dia. Na quarta-feira, 13 de agosto, havia ao menos 92 peças ativas sendo veiculadas por Facebook, Instagram, Threads ou Messenger, o serviço de mensagens privadas do Facebook. Na segunda-feira, 18, eram 72 - o mesmo número verificado nesta quarta-feira, 20. Comum a todos eles, o direcionamento para canais do Telegram que comercializam fotos e vídeos pornográficos.
Em nota, a Meta afirmou que não permite conteúdos de exploração sexual, abuso, nudez infantil e sexualização de menores, e que remove os conteúdos assim que identificados. "Além disso, reportamos todas as atividades de aparente abuso sexual infantil das quais tomamos conhecimento ao Centro Nacional de Crianças Perdidas e Exploração Infantil (NCMEC), que disponibiliza as denúncias à Policia Federal do Brasil", diz o texto.
Depois de consultada, a Meta ainda acrescentou que os conteúdos foram removidos. No entanto, até a publicação desta reportagem, o Estadão identificou pelo menos 72 anúncios ativos. O Telegram também foi procurado, mas não respondeu.
Anúncios simulam voz de menina
Um dos anúncios traz um vídeo com uma mensagem dita por uma voz de menina, gerada aparentemente por inteligência artificial. Ela diz que "o que é proibido é mais gostoso" e que pode dar acesso a "vídeos ocultos de novinhas na flor da idade" em um grupo "premium".
Outro anúncio tem vídeo com as mesmas características e mensagem semelhante. Neste segundo conteúdo, a menina chama para participar do "grupo mais procurado e oculto do Brasil", com "novinhas na flor da idade fazendo tudo que é tipo de coisa que não pode ser vista por qualquer um".
Outro anúncio nas redes da Meta mostra um vídeo de um homem sem camisa dançando ao lado de uma jovem. Ela está com uma latinha de cerveja na mão. O termo "incesto" é inserido na tela junto com a frase: "pai pega a filha bêbada, ". O botão de "saiba mais" direciona o usuário para um canal no Telegram dedicado à pornografia.
Conteúdo com adolescentes e crianças é oferecido
Os canais do Telegram para os quais os anúncios da Meta direcionam são bots ou chats que não permitem que os participantes enviem mensagens. Eles oferecem diferentes pacotes para acesso a vídeos e fotos em categorias como "adolescentes sub 15?, "incestos", "estupro" e "CP". A sigla "CP" é utilizada por pedófilos na internet para designar "child pornography" ("pornografia infantil", em português).
Os valores vão de R$ 4,99 a R$ 97,90. Um dos bots conta com mais de 19,3 mil assinantes. Já os chats contabilizam mais de 17 mil inscritos.
Outra característica comum dos anúncios patrocinados nas redes da Meta é que a grande maioria é veiculado por perfis com nomes femininos. As contas têm poucos ou nenhum seguidor, apenas uma ou duas postagens e foto retirada da internet - características típicas de perfis falsos.
Pornografia disfarçada de anúncio contra fumo
Um dos anúncios identificados levava a conteúdo pornográfico de uma forma disfarçada. A imagem da postagem patrocinada mostra pessoas fumando e os dizeres: "Tenta parar mas não consegue?" e "Fique livre desse mal. Tratamento caseiro, validado". Porém, ao clicar no botão "saiba mais", o usuário era direcionado para um canal do Telegram com venda de conteúdo pornográfico.
Anúncios violam política das plataformas
Os anúncios nas redes sociais da Meta são impulsionados, ou seja, o pagamento serve para levá-los a um número de pessoas que não seria alcançado por uma postagem comum. O público alvo pode ser segmentado por categorias como idade, localização e interesses.
A Meta tem uma política de anúncios. Nela, há diretrizes que vetariam as postagens mostradas nesta reportagem.
Na página "Introdução aos Padrões de Publicidade", a Meta informa que seu sistema de análise "verifica anúncios em busca de violações de nossas políticas". O processo de análise, segundo a plataforma, "pode incluir os componentes específicos de um anúncio, como imagens, vídeo, texto e informações de direcionamento, bem como a página de destino associada a um anúncio ou outros destinos, entre outras informações".
Ainda de acordo com a Meta, "os anúncios não devem conter conteúdo que facilite encontros sexuais, serviços sexuais comerciais entre adultos ou conteúdo que solicite ou ofereça conteúdo pornográfico".
Nos Padrões da Comunidade da Meta, a página "Nudez adulta e atividades sexuais" diz que imagens que envolvam fetiches como incesto não são permitidas.
Já os termos de uso do Telegram não permitem "publicar conteúdo pornográfico ilegal em canais públicos, bots etc."
Falta de regulação dificulta detecção do conteúdo
Nos casos mostrados nesta reportagem, o mecanismo de análise das plataformas não foi efetivo. Presidente da ONG Safernet, Thiago Tavares acredita que a detecção de conteúdos ilícitos em língua portuguesa fica prejudicada pelo fato de as ferramentas de moderação terem sido desenvolvidas para mercados de língua inglesa que regularam as redes sociais, como o Reino Unido e a Austrália.
"O nível de acurácia em língua inglesa é muito maior do que em língua portuguesa", disse Tavares. "Então acaba passando muita coisa, porque não há um catálogo tão amplo de palavras-chave, hashtags, acrônimos em língua portuguesa quanto existe em língua inglesa".
Segundo Tavares, as plataformas têm mecanismos para identificar mesmo os termos inseridos em imagens ou o conteúdo narrado de vídeos. "Agora, se a transcrição do áudio traz palavras que não sensibilizam o sistema, porque o sistema não entende aquela palavra, ou ele não entende o contexto em que aquela palavra está sendo usada, o conteúdo vai passar batido pela moderação, que é automatizada na maior parte dos casos."
No caso dos termos "incesto" e "incesto real", Tavares afirma que há falha grave de não detecção. "Só a presença dessa palavra, que é muito conhecida e que consta da própria política de moderação da Meta, já seria o suficiente para que esse anúncio fosse retido para avaliação humana."
Tavares acrescentou que a falha não é um problema isolado, mas uma fragilidade do sistema de moderação: "Não é um bug da plataforma. É um problema sistêmico, que acaba expondo usuários e principalmente as vítimas, que acabam tendo suas imagens vazadas."
Danos no mundo real
Diretor do Eixo Digital do Instituto Alana, Rodrigo Nejm afirma que os anúncios demonstram como a sociedade ainda não conseguiu fazer com que regras mínimas de ética empresarial possam valer também para os ambientes digitais.
"As plataformas não estão combatendo aquilo que consideram ilícito em seus próprios produtos", disse Nejm. "Trata-se de uma evidência de que há uma disposição de lucrar a qualquer custo, ainda que o custo seja a veiculação de conteúdo que leve à exploração sexual de crianças e adolescentes."
Nejm alertou para os danos no mudo real provocados pelo comércio de conteúdo pornográfico nas redes sociais. "Muitas dessas imagens são produzidas a partir de situações concretas de abuso, de violência de crianças e adolescentes reais, no mundo inteiro", apontou.
"Inclusive existem conteúdos que são criados sob encomenda por grupos que usam as redes sociais para se articular. Então, há uma engrenagem que se retroalimenta, ou seja, o consumo digital dessas imagens de abuso pode amplificar a demanda por mais imagens e por mais abusos reais acontecendo na vida fora das telas."
Como denunciar
Denúncias podem ser feitas por meio das próprias redes sociais. No caso da Meta, as reclamações podem ser registradas pelo feed dos usuários ou pela Biblioteca de Anúncios da Meta (veja como fazer). Já no Telegram, o usuário pode tocar ou pressionar a mensagem e clicar em "denunciar", ou enviar a denúncia por e-mail abuse@telegram.org (veja aqui).
Denúncias também podem ser feitas pelo canal da Safernet (aqui), por meio do Disque 100, ligado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, ou pelos canais do Ministério Público Federal (aqui) e da Polícia Federal (aqui).