'Shot girl' sofre com onda feminista nas redes sociais
Gab Katina virou alvo depois da postagem no Facebook de uma foto em que aparece oferecendo os seios para frequentadores de uma festa beberem vodka, cerveja ou tequila
Enquanto o Brasil se indignava com o resultado do levantamento do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea) de que uma parcela da população endossava plenamente, ou parcialmente, “que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, uma outra cena criava burburinho semelhante nas baladas cariocas.
Simultaneamente ao feminismo deflagrado pela pesquisa, posteriormente corrigida, surgiram campanhas ferozes nas redes sociais por parte de mulheres, artistas ou comuns, pintando o corpo para exaltar a hashtag “não mereço ser estuprada”. O mesmo papo já estava na boca de quem frequenta festas no Rio de Janeiro, como “I Hate Flash Party” e “Pool Me In”, onde é comum o dia raiar com gente pelada na piscina.
Manifestações brotaram no Facebook, principalmente, apimentadas por discussões calorosas de quem se via invadido em seu direito de pleno convívio social. As festas safadinhas criaram a dúvida: qual o limite? Aliás, pudor e diversão podem (e devem) coexistir? No meio deste furacão, a apresentadora Cix, do Multishow, postou em sua página uma foto em que uma garota loira, jovem, oferecia os seios para os frequentadores da “Sex Tape", outra balada moderninha, beberem tequila, cerveja e vodca.
Foi algo mais ou menos assim, já que ela apagou o post após o redemoinho que a discussão causou: “eu que estou velha ou as pessoas que estão perdendo a noção?”. Nove mil curtidas e outros milhares de comentários depois, Gab Katina, a body shot girl da imagem em questão, uma jovem carioca de 21 anos, ficou bem no meio do tiroteio feminista. “Me chamaram de vulgar, que aquilo era desnecessário, que eu não tinha família”, relembrou. Muito embora as pessoas que frequentem este cenário alternativo tenham partido em sua defesa, “foi um puta choque, uma coisa tão ignorante. É o meu trabalho”.
Há dois meses usando da sensualidade para servir (literalmente) as bebidas em performances arrebatadoras, descendo até a boquinha da garrafa, Gab Katina (pseudônimo, ela não gosta de falar o nome real), do dia para a noite, viu suas imagens viralizarem nas redes sociais e jogarem ainda mais lenha na fogueira do (suposto) falso moralismo.
“Eu estava vindo para cá para te dar esta entrevista de saia, e blusinha. Aí um homem mexeu comigo, e quando reclamei, perguntou por que eu tinha colocado essa roupa? Porra, eu estava com calor”, indignou-se. “Cada um tem direito sobre o seu próprio corpo. Óbvio que eu tenho medo. Eu tenho uma vida fora das festas. Meus pais não tem a mesma cabeça que eu tenho”, completou.
“Essas pessoas pensam isso porque em alguma parte da vida delas elas foram influenciadas, guiadas a pensar dessa maneira. Então, se elas forem guiadas a pensar, acho que para todo mundo seria interessante se elas se libertarem disso. Alguém colocou isso na cabeça de vocês. Eu tive a liberdade de pensar da minha maneira. O mundo seria melhor. Acredito muito na frase do (Karl) Marx: ‘a religião é o ópio do povo.’ A maior parte do preconceito vem de quem segue firme os preceitos religiosos”, opinou.
O tiro no pé e o sucesso espontâneo
Depois de trabalhos nas noites do Rio como ring girl da famosa “Lucha Libre”, em que jovens de 18 a 25 anos (idade média de quem frequenta estas baladas liberais) viravam tequila num ringue improvisado, e uma passagem pela também badalada “TeKiller”, outra do gênero, uma bela noite, como forma de entreter mais o público, jogou sal, limão no próprio corpo para uma colega de trabalho a fim de que o público interagisse mais.
A tática funcionaria de maneira estrondosa (para o bem ou para mal), mas ela ainda não fazia ideia disso. “Quando a festa estava ruim, eu deixava o público tomar bebidas em mim”, explicou. Isso ocorreu depois de um período de estudos no interior de São Paulo (trancou a faculdade de veterinária), e reencontrar um antigo produtor cultural da noite carioca, que a recolocou no mercado.
Foi quando produtoras da “Sex Tape” gostaram do que viram e fizeram o convite “para ganhar um cachê”. Ela se considera bem-sucedida no que faz e conta apenas um episódio lamentável: “um cara mordeu a minha bunda. Fiquei puta. Se for um cara que abusa, quer pegar nos meus peitos, eu mando descer na hora”, garantiu.
E o resto da história a reportagem já explicou. “Sabe o que é engraçado? Este post (da Cix, do Multishow) acabou sendo um tiro no pé. Me ajudou muito”, contou ela, que já contabiliza convites para uma festa em São Paulo, Rio das Ostras e Juiz de Fora. Ela não diz quanto ganha, “pois quero melhorar esse cachê ainda mais”.
Diante de tamanha repercussão inflada pelo poder do anonimato oferecido pelas redes sociais dos novos tempos, Gab Katina diz não ter medo da fama: “se eu ficar famosa na rua e as pessoas me apontarem é porque eu vou estar ganhando dinheiro”.
Vida louca, vida
Antes tarde do que nunca: a explicação para o pseudônimo Gab Katina é complexa, mas nada que o advento da internet não ajude a entender. Gab vem de Gabrielle, no caso, a Xena, da série de TV “Princessa Guerreira”. Feito isso, ao suposto sobrenome: Katina é o nome do meio de Elena Sergeevna, da dupla russa T.A.T.U, sucesso no início do século com o hit “All The Things She Said”, em que as duas integrantes aparecem se beijando em meio a um temporal, bem antes da banda Pussy Riot irritar o presidente Vladimir Putin.
“Eu me assumi com 12 anos”, disse, sem problema algum em bater no peito e se dizer 'louca por meninas'. Sabe quando você é criança e eles dizem que você pode confiar nos seus pais? Eu cresci aberta a poder fazer o que quiser, e pensar no que eu quiser.”
Não que os pais de Katina aceitaram bem a situação, mas as asas não poderiam ser mais cortadas. Ela já tinha opinião própria. “Meus pais sabem que eu faço merda, mas eles preferem não saber. Nunca falei para eles. Eles meio que perguntam, mas eu fujo do assunto. É melhor eles não saberem”, explicou. “Mas acho que agora já era, né”.
Bem antes de subir em palcos e bares para oferecer o corpo como medidor de doses para destilados e afins, quando ainda tinha 14 anos, ela lembra noites com os amigos regadas a... Nutella. "A gente era muito quebrado”, recordou. “A gente não tinha nem dinheiro para pagar uma cerveja, imagina um Nutella. A gente roubava as coisas (do supermercado). Um belo dia, botamos um amigo no chão, jogamos a Nutella em plena plataforma do metrô e todo mundo começou a lamber ele. Aí virou tradição. Levávamos sempre para as festas."
Sete anos depois, a body shot girl planeja voos maiores, enquanto ainda alterna a rotina de trabalho noturno na recepção de um hospital católico. “Tem aquele nervoso de alguém descobrir, de me botar para fora por causa disso. Mas se me botarem, foda-se”, afirmou. Seu único receio, portanto, ela tem na ponta da língua.
“Só me preocupo com minha família, meu porto seguro. O resto das pessoas são substituíveis. Paguem as minhas contas e me julguem.”