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Sem turistas, guia se transforma em "caça-fantasma" para combater coronavírus em favela do Rio

10 abr 2020
19h32
atualizado em 11/4/2020 às 12h40
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Quando os turistas que Thiago Firmino costumava conduzir pelas vielas da favela Santa Marta sumiram devido ao coronavírus, o guia de 39 anos sabia que a espera pelo poder público poderia ser longa demais e era preciso agir por conta própria.

Voluntários desinfetam vielas da comunidade Santa Marta, Rio de Janeiro.
REUTERS/Ricardo Moraes
Voluntários desinfetam vielas da comunidade Santa Marta, Rio de Janeiro. REUTERS/Ricardo Moraes
Foto: Reuters

Atento ao noticiário sobre o avanço da pandemia, ele reuniu moradores e lançou uma iniciativa para higienizar a favela, uma das mais de 700 comunidades da cidade, onde moram mais de 2 milhões de pessoas muitas vezes sem condições adequadas de higiene e com dificuldade de se manter em isolamento.

Vestido de "caça-fantasma", como apelidou o traje de proteção comprado em uma loja de produtos agropecuários graças a doações, Firmino agora passa os dias despejando desinfetante pela comunidade, que serviu de cenário para um clipe de Michael Jackson e tem como ponto turistico uma estátua do cantor norte-americano.

"A gente teve essa atitude brava, para não dizer heróica", disse Firmino à Reuters, em uma pausa do trabalho de higienização de becos, vielas, maçanetas de casas e portões da comunidade realizado na tentativa de impedir a chegada da Covid-19.

"A favela sempre fica esquecida, qualquer coisa que acontece na cidade, a favela sempre é a última a receber benefício. A saúde é precária, a questão da saneamento e do lixo também é muito precária", acrescentou Firmino, que trabalha com mais seis moradores na higienização.

De acordo com Wilcieide Miranda, mulher de Firmino que também participa da higienização, até o momento não foi identificado nenhum caso de Covid-19 no Santa Marta, onde moram cerca de 4.000 pessoas.

Além da higienização, o grupo tem pedido aos moradores para que permaneçam em casa, em atendimento às recomendações das autoridades de saúde para evitar a disseminação da doença.

Segundo Firmino, não existe qualquer previsão de volta ao trabalho normal como guia turístico.

"O turismo é o primeiro a parar e o último a voltar. A minha previsão é tão otimista que eu só tenho trabalho, se bobear, ano que vem", disse ele.

"Aqui, sem trabalho, estamos fazendo essa ação voluntária com moradores para a gente se cuidar, porque é melhor eu estar sem trabalho do que sem a minha vida, e ou os nossos moradores perderem a vida", acrescentou.

O possível avanço do coronavírus pelas favelas é motivo de preocupação das autoridades públicas e especialistas de saúde. Nesta semana foram relatas as primeiras seis mortes em comunidades da cidade, elevando o nível de alerta em áreas com acesso limitado a atendimento médico.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, chegou a afirmar que a área da saúde vai dialogar até mesmo com o crime organizado que domina territorialmente essas localidades para encontrar a melhor forma de enfrentar a pandemia.

"A saúde dialoga, sim, com o tráfico, com a milícia, porque também são seres humanos e precisam colaborar, ajudar, participar", afirmou. "Então, neste momento, quando a gente faz esse tipo de colocação, a gente deixa claro que todo mundo vai colaborar", afirmou.

O Estado do Rio de Janeiro contabiliza até o momento 2.464 casos de Covid-19, de acordo com dados divulgados nesta sexta-feira pelo Ministério da Saúde, com 147 mortes.

Diante da alta densidade demográfica das favelas, há o temor de uma explosão no número de casos da doença altamente contagiosa no caso de uma disseminação ampla nas comunidades.

"As favelas têm potencial para subir de 6 para 60 e 600 casos da noite para o dia", disse à Reuters o infectologista Edimilson Migowski.

Nesta sexta-feira, a prefeitura do Rio iniciou a higienização em algumas favelas com casos confirmados da doença.

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