Os 144 índios mundurukus, que passaram mais de uma semana em Brasília tentando convencer o governo a interromper todos os empreendimentos hidrelétricos em obras ou em estudo na Amazônia, estão regressando ao seu Estado, o Pará. O grupo, que ocupou a sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) na segunda-feira - chegando a impedir a entrada de servidores durante toda a terça -, partiu da Base Aérea de Brasília no início da tarde de hoje, a bordo de dois aviões da Força Aérea Brasileira (FAB).
Os mundurukus estavam em Brasília desde a terça-feira da semana passada, quando desocuparam o principal canteiro da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e aceitaram a proposta de se reunir com representantes do governo. A principal reunião, com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, ocorreu no mesmo dia que os índios chegaram a Brasília, também em aviões da FAB.
Ao fim da conversa com os índios, o ministro afirmou que o governo vai ouvir as comunidades afetadas pelos empreendimentos. Ele disse aceitar todas as formas de protesto democrático, mas que as obras em Belo Monte não seriam interrompidas e que a segurança no local seria reforçada.
Segundo uma das lideranças dos índios, Valdenir Munduruku, a articulação indígena destinadas a paralisar as iniciativas de aproveitamento dos rios Xingu, Teles Pires, Tapajós e Madeira, entre outros, não foi encerrada. "Nossa luta apenas começou. Estamos retornando para nossa comunidade (onde) vamos nos fortalecer e nos aliar com outros parentes (povos indígenas) para, juntos, combatermos esse desrespeito do governo federal com nossa cultura, nossa crença e nossos direitos", declarou Valdenir, pouco antes do grupo partir.
"Outros povos estão se juntando a nós para combatermos não só Belo Monte, mas também Teles Pires e todas as usinas que estão sendo construídas sem que sejamos consultados", disse.
Índios mundurukus estão acampados na sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) desde segunda-feira
Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil
Índios reivindicam consulta prévia antes da construção de usinas hidrelétricas na região amazônica
Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil
Grupo acampado na Funai é formado por cerca de 150 índios
Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil
Grupo munduruku é o mesmo que já ocupou o principal canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, a cerca de 55 quilômetros de Altamira (PA)
Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil
Na tarde desta terça-feira eles deixaram a sede da Funai e seguiram, a pé, pela Esplanada dos Ministérios, em direção ao Palácio do Planalto e ao STF
Foto: José Cruz / Agência Brasil
A marcha se concentrou em frente ao Ministério de Minas e Energia
Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil
Na tarde desta terça-feira eles deixaram a sede da Funai e seguiram, a pé, pela Esplanada dos Ministérios, em direção ao Palácio do Planalto e ao STF
Foto: José Cruz / Agência Brasil
Na tarde desta terça-feira eles deixaram a sede da Funai e seguiram, a pé, pela Esplanada dos Ministérios, em direção ao Palácio do Planalto e ao STF
Foto: José Cruz / Agência Brasil
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Conforme havia dito ontem, durante entrevista à rádio Nacional Amazônia, Valdenir garantiu que, a menos que o governo federal interrompa a execução das obras e estudos, os mundurukus não voltarão a dialogar. "O que o governo quer, nós não queremos. Ele quer ir a nossa terra dizer que vai construir hidrelétricas e ver o que queremos em troca. E nós não queremos nada em troca. Queremos nosso rio livre e nossa natureza preservada", declarou Valdenir.
Ao ser perguntado sobre a morte de mais um índio em Mato Grosso do Sul, o líder munduruku criticou a demora na demarcação ou homologação de novas terras indígenas no Mato Grosso do Sul. "Falta à Funai e aos governos (federal e estadual) tomarem providências antecipadas para que isso não aconteça. Esses índios estão morrendo enquanto lutam para reaver suas terras."
Nesta quinta-feira, o delegado Rinaldo Gomes Moreira, responsável por investigar o assassinato, a tiros, do índio guarani kaiowá Celso Figueiredo, adiantou à Agência Brasil que os depoimentos prestados pelo pai e pela irmão da vítima sugerem que o crime não seja resultado dos conflitos por terras que, só no último mês, deixaram um índio morto e outro gravemente ferido em Mato Grosso do Sul.
Em maio, logo após o assassinato de Osiel Gabriel, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, classificou os episódios de violência contra índios sul-mato-grossenses como uma "lamentável" consequência da judicialização a que estão sujeitos os processos demarcatórios de terras indígenas.
30 de maio - Indígenas atearam fogo em prédios da Fazenda Buriti, em Sidrolândia, durante operação de reintegração de posse realizada na quinta-feira. Durante confronto com policiais militares e federais, um índio morreu baleado e outros quatro ficaram feridos
Foto: Moisés Palácios / Futura Press
30 de maio - Incêndio produziu grande coluna de fumaça em fazenda no interior de MS
Foto: Moisés Palácios / Futura Press
30 de maio - Construção ficou destruída após incêndio
Foto: Moisés Palácios / Futura Press
30 de maio - A propriedade fica no interior da Terra Indígena Buriti, declarada pelo Ministério da Justiça como de ocupação tradicional em 2010
Foto: Moisés Palácios / Futura Press
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Foto: Moisés Palácios / Futura Press
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Foto: Moisés Palácios / Futura Press
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Foto: Marcos Ermínio / Campo Grande News
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Foto: Marcos Ermínio / Campo Grande News
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Foto: Marcos Ermínio / Campo Grande News
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Foto: Marcos Ermínio / Campo Grande News
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Foto: Marcos Ermínio / Campo Grande News
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Foto: Marcos Ermínio / Campo Grande News
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