Resistência das instituições brasileiras ao golpismo escancarou que parte da sociedade não liga para democracia
Se os atos contra a invasão 8 de janeiro de 2023 mostraram esforço de órgãos como polícia federal, ministério público e poder judiciário do Brasil para identificar e punir responsáveis pela trama golpista, por sua vez também evidenciou que o Brasil continua dividido, inclusive quando o assunto é a defesa da democracia.
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
Há três anos uma massa raivosa invadiu e depredou a sede dos três poderes em Brasília. Com base em investigações da polícia federal, depoimentos e provas, a justiça considerou que o ato estava ligado a uma trama que pretendia matar rivais e tomar o poder, num golpe fracassado que levou à condenação e à prisão autoridades do ex-governo, como Jair Bolsonaro e, pela primeira vez na história, militares de alta patente, como os generais Braga Netto e Augusto Heleno.
Mas ainda que o resultado tenha mostrado a resistência e o funcionamento de instituições que estiveram à frente das apurações, analistas ouvidos pela RFI apontam uma perigosa constatação advinda daquele 8 de janeiro de 2023: a de que parcela significativa da população e da classe política não só não viu gravidade na pretendida ruptura, como apoia o retorno ao poder de nomes que de alguma forma minimizam ou mesmo apoiaram o golpismo.
"É triste ter que admitir que a política brasileira se encontra tão degradada. Que mesmo uma fracassada, mas muito explícita tentativa de golpe de Estado não foi suficiente para haver um consenso de que isso é inadmissível", afirmou o cientista político Luis Felipe Miguel, da Universidade de Brasília.
Para ele, embora o Brasil muitas vezes seja citado atualmente como exemplo de combate ao golpismo da extrema direita e mesmo obtido avanços importantes como a condenação e a prisão de acusados, os efeitos do 8 de janeiro não foram tão positivos para a política brasileira.
Um "cordão sanitário" contra o golpismo no Brasil?
"Os atos deveriam ter promovido um grande cordão sanitário contra aqueles que atentam contra a democracia. Deveriam ter contribuído para afastar definitivamente os setores conservadores tradicionais dessa nova extrema direita que se organizou em torno da figura de Jair Bolsonaro. O desrespeito a regras básicas da convivência democrática deveria resultar no ostracismo. Não foi isso que aconteceu. A gente acabou vendo uma rápida reconstituição desse campo", constata Miguel.
O analista político Bhreno Vieira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco chama de "efeitos colaterais" os resultados negativos perceptíveis na sociedade diante dos inquéritos e do julgamento dos acusados.
"Essa atuação forte capitaneada pelo poder judiciário produziu efeitos colaterais, como o aumento do caldo da polarização, principalmente entre a elite política. Então a gente vê que o Congresso tenta reduzir penas, questiona os processos, a gente vê que existe um tensionamento institucional entre os poderes."
Mais grave ainda, na visão de Vieira, é constatar que o atentado à democracia divide opiniões entre os brasileiros:
"A população, o eleitorado, grupos políticos, todo um comportamento coletivo que apoia a fraude, a deslegitimação das instituições. Setores que encaram a questão do golpe, da ruptura por meio da força, como um caminho a ser legitimado."
Evento politizado
Enquanto a direita se engalfinha para ver quem fica com o eleitorado bolsonarista, o governo Lula organizou cerimônia no Palácio do Planalto nessa quinta-feira, tendo por objetivo "reforçar os valores da democracia, que sofreu abalo nessa data, em 2023", diz o comunicado oficial do Executivo.
"Vejo esses atos com uma certa ambiguidade. Por um lado, é bom que a sociedade se manifeste com memória e em repúdio aos que atentaram contra a democracia. Mas por outro lado, existe uma forte tendência de politização, com um caráter fortemente político, até no sentido eleitoral, partidário mesmo, por parte de Lula, do governo, porque nós estamos em ano de eleição", avalia o cientista político Leonardo Queiroz Leite, doutor em administração pública e governo pela FGV/SP.
"O outro polo está muito fragilizado, com Bolsonaro preso, doente, a direita fragmentada, sem candidato claro. E Lula, como um ser político, certamente vai tentar instrumentalizar esses atos de modo a se colocar como defensor da democracia. Para o país seria bom que fosse algo mais neutro, algo mais institucional, republicano", disse Leite.
No Supremo Tribunal Federal também haverá eventos para relembrar os ataques. Já na Câmara e no Senado não há mobilização prevista nesse sentido, inclusive com destaque para a ausência dos presidentes do Legislativo na cerimônia de Lula.