Quem foi Miriam Etz, a primeira mulher a usar um maiô de duas peças no Rio de Janeiro
Dez anos antes do biquíni, alemã Miriam Etz foi à praia com traje que ela mesma confeccionou para tomar sol no umbigo. Pioneira, jogava frescobol na areia, usava vestido com as costas de fora e pintava as unhas dos pés.Quem passa pela Rua Joaquim Nabuco, entre os bairros de Copacabana e Ipanema, não imagina que, há 90 anos, aquele era o endereço de Erna Miriam Etz Kaufmann. Aos 22 anos, Miriam escreveu seu nome na história ao se tornar a primeira mulher a ir à praia do Arpoador, no Rio, usando um maiô de duas peças. A façanha está registrada em três livros: Ela É Carioca (Companhia das Letras, 1999), de Ruy Castro; Um Mergulho no Rio (Casa da Palavra, 2012), de Márcia Disitzer; e O Biquíni Made in Brazil (Arte Ensaio, 2016), de Lilian Pacce.
Ao lado do marido, Miriam é um dos 237 verbetes da "enciclopédia ipanemense" de Ruy Castro. No calhamaço de 560 páginas, o jornalista relata que o duas-peças de lã foi a primeira coisa que Miriam tirou da mala em 1936. "Era um maiô de crochê, que ela própria confeccionara e trouxera na viagem", escreveu. Outro pioneirismo de Miriam foi ir à praia, a cinco minutos de casa, grávida de quatro meses. Sua primogênita, Iracema, nasceria dali a cinco meses, em 1º de janeiro de 1937. Além disso, usava vestidos com as costas de fora e pintava as unhas dos pés.
Autora de Um Mergulho no Rio - 100 Anos de Moda e Comportamento na Praia Carioca, a jornalista Márcia Disitzer pondera que a intenção de Miriam não era escandalizar a sociedade carioca. Naquela época, as mulheres iam à praia de maiô de uma peça só. "A mãe dela dizia que tomar sol no umbigo fazia bem à saúde", revela. Além de pegar sol, a garota do Arpoador gostava de jogar frescobol. "Era uma mulher à frente de seu tempo", define. Ano que vem, o livro Um Mergulho no Rio vira série documental na EBC pelas lentes da cineasta Susanna Lira.
Dos três autores, Lilian Pacce foi a única que conseguiu entrevistar Miriam. Não por acaso, a alemã ganha um agradecimento especial em O Biquíni Made in Brazil. No livro, a jornalista explica que, como a lã era quente e desconfortável para o calor do Rio, Miriam logo comprou outros tecidos, como algodão. Além disso, fazia costuras laterais com crochê para dar mais elasticidade à peça. "O maiô inteiro no Brasil era muito caro. Então, resolvi fazer o meu duas-peças de lã azul-marinho com cinto na calcinha", contou Miriam à autora do livro.
"A diferença entre o duas-peças e o biquíni é que o biquíni revela o umbigo, símbolo da maternidade", esclarece Lilian Pacce. "Até o começo do século 20, as pessoas tomavam banho de mar para fins terapêuticos. Por isso, usavam vestidos com calçolas largas. Com o passar do tempo, a praia se transformou em entretenimento familiar e prática esportiva. Surge, então, o maiô de perninha e, mais adiante, o maiô em si. Até vir o duas-peças e, depois, o biquíni. Apesar de ter sido lançado em 1946, o biquíni só pegou mesmo a partir de meados dos anos 1950."
À frente do tempo
Um dos primeiros jornalistas a registrar a proeza de Miriam Etz em livro, Ruy Castro tem, pelo menos, mais dois méritos: estimular Ira Etz, a primogênita de Miriam, a transformar suas memórias em biografia, e inspirar a atriz Isabelle Drummond a adaptar a história de Miriam para as telas. O livro de Ira já foi publicado: Ira do Arpoador (ID Cultural, 2016), uma parceria com Luiz Felipe Carneiro, chegou às livrarias no aniversário de 80 anos do feito da mãe. Já o filme de Isabelle, embora já tenha sido rodado no verão de 2025, não tem previsão de lançamento.
Por coincidência, Isabelle tomou conhecimento da história de Miriam há dez anos, quando leu, pela primeira vez, Ela É Carioca. Logo, teve a ideia de transformar algumas das minibiografias do livro em curtas-metragens. Em um deles, o casal Hans e Miriam Etz é interpretado por Antônio Benício e Hanna Svarts. "Miriam é uma mulher forte. Vivia com naturalidade, sem fazer alarde. Uns dos primeiros moradores do Arpoador, ajudaram a transformar Ipanema em um dos lugares mais importantes da cultura brasileira", explica a atriz e diretora.
"Ainda hoje, lembro da minha mãe, sentada à máquina de costura. Ela costurava muito bem, sabe?", recorda Ira, hoje aos 89 anos. "Minhas amigas do colégio eram ricas. Quando elas precisavam de roupas novas, as costureiras iam à casa delas tirar as medidas. Lá em casa, era diferente. Quando precisávamos de roupas novas, íamos à loja comprar tecido. Minha mãe fazia tudo em casa. Achava isso legal. O tal maiô de duas-peças, por exemplo, foi ela quem fez. Minha mãe era uma pessoa muito criativa. Acho que herdei essa criatividade dela."
Fuga do nazismo
Miriam nasceu em Kaiserswerth, na cidade de Düsseldorf, em 1914. Era filha de Arthur, um pintor, e de Lisbeth, uma professora. Pelo menos uma vez por semana, os pais dela abriam a casa para amigos. Das cinco da tarde às duas da manhã, anfitriões e convidados brindavam à vida. Em Ela É Carioca, Ruy Castro lista alguns dos amigos famosos do casal: o físico Albert Einstein, o médico Sigmund Freud, o escritor Thomas Mann, o cineasta Fritz Lang... Entre uma caneca e outra de cerveja, os amigos aproveitavam para posar para o dono da casa.
Miriam tinha 15 anos quando começou a namorar Hans, seu futuro marido. Em 1933, com a tomada do poder por Hitler, as famílias dos dois, ambas de Düsseldorf, fugiram da Alemanha. À princípio, foram para a Holanda e, de lá, para a Inglaterra, onde Miriam e Hans se casaram. Na introdução de seu livro, Ira brinca: "Fui gerada em Amsterdã, morei em Londres (na barriga da minha mãe) e nasci no Rio de Janeiro". Antes de se casar com Miriam, Hans precisou fugir do alistamento militar na Juventude Hitlerista. Atravessou a fronteira de bicicleta!
Da Europa, Miriam e Hans tinham duas opções: África do Sul ou Brasil. Desembarcaram no Rio, em 1936, e foram morar em uma casa na Joaquim Nabuco, 192. Na frente dela, um pequeno jardim. Nos fundos, um quintal com uma árvore. Ao lado, a casa da família Kostenbader, avós dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle. "Nos anos 1930, alugar uma casa em Ipanema custava três vezes menos do que em Copacabana", calcula Ira. Noventa anos depois, a casa dos Etz não existe mais. Em alguma década do passado, cedeu lugar para edifícios.
Miriam e Hans tiveram dois filhos: Iracema nasceu em 1937 e Roberto, em 1941. Na hora de escolher o nome da filha, optaram por algo brasileiro. Em vez de Gertrud ou Bertha, cogitaram Moema, Guaracy, Jussara... Os amigos alemães estranharam. Julgaram se tratar de uma doença, como eczema e enfisema. Na escola, surgiram os primeiros apelidos: Iraceminha e Irinha. "Minha mãe me disse que meu nome poderia ser tanto uma homenagem aos índios brasileiros quanto à América", revela Ira. "Iracema é um anagrama de América."
Aventuras nos trópicos
No Rio, Hans trabalhou como publicitário. Primeiro, na agência J. Walter Thompson. Depois, abriu a própria agência, Estúdio Etz, na esquina das ruas México com Araújo Porto Alegre.
Certa ocasião, Miriam, dentro de um duas-peças de algodão, posava como garota-propaganda da Antarctica. Noutra, a pequena Ira, de olhos azuis, cabelos cacheados e rostinho de boneca, se lambuzava com Leite Vigor. O cabelo comprido de Hans suscitava perguntas curiosas dos colegas de turma: "Ele é o Tarzan?". Já Miriam trabalhou como alta executiva da Avon.
No livro, Ira relata algumas de suas amizades famosas. Se o pai era amigo de Einstein, Freud e Lang, ela conheceu artistas, como o músico Tom Jobim, o humorista Millôr Fernandes e o escritor Rubem Braga. Do primeiro, sente saudade dos papos sobre passarinhos, uma das paixões do maestro. Do segundo, das partidas de frescobol. E do terceiro, bem, do terceiro, ela tentou ser professora de inglês. "Foi um dos maiores desafios da minha vida", conta Ira no livro. "Rubem não queria aprender. Se ele já era econômico para falar o português, imagine o inglês."
No dia 3 de maio de 1992, Miriam Etz, já com 78 anos, inspirou uma crônica de Affonso Romano de Sant'Anna: Pequenos Rituais. "Miriam Etz, sempre à tardinha, se assenta numa mesma poltrona em sua sala rodeada de quadros e livros e prepara-se para o ritual: beber sua cerveja e ler o Time", dizia um trecho, no jornal O Globo. Uma curiosidade: Affonso Romano de Sant'Anna era marido de Marina Colasanti. Os dois foram casados por 54 anos. Marina era irmã do ator Arduíno Colasanti, o primeiro namorado de Ira Etz, a filha de Miriam.
No começo dos anos 1990, Miriam já morava em Conselheiro Paulino, no município de Nova Friburgo (RJ). Na década de 1960, ela e o marido trocaram o litoral pela serra. Artista plástica, produzia obras e expunha telas em mostras individuais e coletivas. Foi uma das primeiras mulheres a dirigir um jipe na região. Hans morreu em 1986, aos 73 anos. Miriam, em 2010, aos 96. O casal deixou dois filhos, seis netos e 12 bisnetos.
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