Zambelli nega ordem para invadir sistema do CNJ e diz que desconhecia mandado de prisão de Moraes
Deputada depõe na CCJ da Câmara em processo que pode levar à cassação de seu mandato; Carla Zambelli está presa na Itália
A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) negou nesta quarta-feira, 24, que tenha ordenado a invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) pelo hacker Walter Delgatti para a inserção de um mandado de prisão contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Em depoimento aos integrantes da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados, Zambelli disse que o processo pelo qual foi condenada a dez anos de prisão e perda do mandato é "injusto". O colegiado analisa o processo que pode cassar o mandato da parlamentar.
Relator do processo no Supremo, Moraes sustentou que a deputada manteve uma "ligação umbilical" com Delgatti com "objetivos antirrepublicanos". De acordo com a acusação do Ministério Público, Zambelli teria coordenado a invasão a sistemas do Poder Judiciário executada por Delgatti. No ataque ao sistema do CNJ, em 2023, foi emitido um mandado falso de prisão contra Moraes.
A deputada negou. Zambelli disse "não participou dessa questão" e afirmou que "está tranquila para provar que o processo é injusto".
"Não falei com ele durante toda a campanha, o resto de ano. Só fui falar com ele quando, vocês devem ter visto no depoimento do perito, em que ele diz que ele entrou em contato comigo só depois de alguns meses depois de ter invadido o sistema do CNJ (...) Estou bastante tranquila de provar que o processo é injusto. Eu não participei dessa questão", afirmou a deputada.
Segundo a deputada, ela só teve acesso ao mandado de prisão do ministro Alexandre de Moraes inserido no sistema do CNJ após o crime cometido por Delgatti. "Eu tive acesso ao mandado de prisão depois que ele aconteceu. Antes, não", disse.
Zambelli afirmou que Delgatti invadiu o sistema do CNJ por vontade própria: "ele fez porque ele quis fazer. Fez da cabeça dele". A deputada disse acreditar que o hacker teria feito um acordo com Moraes para apontá-la como mandante do crime.
"Acredito que ele fez um acordo com alguém, e acredito que essa pessoa tenha sido Alexandre de Moraes, para dizer que eu fui a mandante porque o Alexandre de Moraes nunca conseguiu nada. Ele abriu minhas contas quatro vezes, fiscal, bancário, telemático, telefônico. Ele abriu quatro vezes o meu sigilo e nunca encontrou nada. Ele precisava de um outro crime e ele queria um crime que desse para colocar na Interpol, então ele colocou um crime de invasão com perda financeira, sendo que nunca teve perda financeira", disse.
A Polícia Federal (PF) apontou, no relatório da investigação, que documentos apreendidos com a deputada correspondem aos arquivos inseridos pelo hacker no sistema do CNJ, o que para os investigadores comprova que ela participou do ataque. Segundo a investigação, o ataque foi planejado para colocar em dúvida a credibilidade do Poder Judiciário. Em 14 de maio, Zambelli foi condenada por unanimidade.
Walter Delgatti narrou à Polícia Federal que recebeu cerca de R$ 40 mil para tentar invadir os sistemas do Judiciário. Ele entregou comprovantes de transferências que somaram R$ 10,5 mil feitas por um ex-assessor da deputada. O restante, segundo o relato, teria sido entregue em espécie, em São Paulo.
Porte ilegal e constrangimento com arma de fogo
Em agosto deste ano, o STF condenou a deputada a cinco anos e três meses de prisão por porte ilegal de arma e constrangimento ilegal com uso de arma de fogo.
O episódio que originou o processo ocorreu em um sábado, 29 de outubro de 2022, na véspera do segundo turno da eleição presidencial. Zambelli foi filmada com a pistola em punho, atravessando uma faixa de pedestres, enquanto perseguia um homem, identificado mais tarde como o jornalista Luan Araújo. Para fugir, Luan entrou em um restaurante. A deputada também entrou no estabelecimento e, ainda empunhando a arma, mandou o homem deitar no chão.
Em depoimento nesta quarta-feira, Zambelli afirmou não cometeu nenhuma crime pois tinha "porte de arma federal" e que se arrepende porque o ex-presidente Jair Bolsonaro "cogitou" que o episódio foi um dos fatores para a derrota dele à reeleição.
"Naquele dia, tinha um policial comigo. O policial caiu no chão e disparou a arma. Naquela confusão, eu estava perto do meu filho, que tinha 14 anos na época. Eu olhei para o meu filho para ver se o tiro tinha sido nele. Eu olhei e vi o policial caído no chão. Achei que o policial tinha sido atingido. Foi quando eu saquei minha arma para garantir que aquela pessoa fosse presa, caso ela tivesse atirado no policial", afirmou.
Segundo Zambelli, ela foi a vítima no episódio e, se pudesse voltar atrás, não teria "participado daquilo".
"Aquele dia, eu não cometi nenhum crime. Eu tinha porte de arma federal, eu não estava perto de nenhuma escola e aquele homem cometeu um crime político contra uma mulher. Se eu pudesse voltar atrás, eu ficaria no hotel almoçando com o meu filho e não participaria daquilo. É um dos meus grandes arrependimentos da vida. Sinto uma culpa muito grande, principalmente, depois de ouvir cogitar de que isso poderia ser culpa minha, a perda da eleição. Eu acho que não foi", disse.