TSE amplia horário de votação em Portugal diante de filas de até 3 horas
Cônsul-geral do Brasil em Lisboa, Wladimir Valler Filho, ficou surpreendido com a grande adesão dos eleitores brasileiros que moram no País
Lisboa - Diante do grande afluxo de eleitores, que ficaram até 3 horas em uma fila quilométrica e ininterrupta, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) autorizou a extensão da votação em Lisboa até as 20h (horário local, 16h em Brasilia).
Quando faltava meia hora para o encerramento da votação, o cônsul-geral de Lisboa, Wladimir Valler Filho, anunciou que ainda havia cerca de 4 mil eleitores na fila, cerca de 10% do total de votantes.
"A impressão que temos é que a abstenção será baixa; a fila nunca parou", afirmou o cônsul, que se disse surpreendido com.o alto comparecimento. Ele contou ainda ter sido informado pelo TSE que a mesma situação, decorrente do grande número de eleitores, se repetiu em várias capitais europeias. Segundo Valler Filho, o tribunal também autorizou a prorrogação de horário em Dublin, na Irlanda.
Valler Filho confirmou ainda que o único incidente foi a impugnação de uma urna, com 59 votos anulados, depois que um eleitor votou duas vezes, conforme já relatado pelo Estadão.
Eleitores de Bolsonaro, Lula e Tebet em Lisboa e no Porto, ouvidos pelo Estadão, foram unânimes em destacar o grande engajamento dos brasileiros que vivem em Portugal nas eleições presidenciais de 2022.
A vontade de votar nessas eleições presidenciais, que gerou longuíssimas filas e atrasaram o encerramento da votação, pode ser exemplificado pelo comportamento da cuidadora Miriam Beltrão Fernandes, 53 anos. Há 15 anos em Lisboa, essa foi a a primeira vez em que não se absteve. "Estou votando pela primeira vez em Portugal; quis ficar em dia com obrigações e escolhi a Simone Tebet (MDB)", revela ela, que é de Campo Grande (MS), terra da candidata. " Mas não é por ser minha conterrânea que voto nela, mas sim porque gostei do que ela fala e como fala", afirmou.
"Nunca vi tanta gente preocupada em se regularizar para votar", reforça Gabriel Henrique Idalgo, doutorando, que está há 8 anos em Portugal, vindo de Sorocaba (SP). Eleitor de Lula, ele votou no Porto, segunda maior cidade do país, onde há mais de 30 mil eleitores brasileiros. No Porto,onde os ouvidos pelo Estadão não relataram episódios graves, não foi necessário prorrogar a votação. Como ponto negativo em 2022, Gabriel destaca " um clima de tensão, medo e cansaço, pelo menos entre os que votam na esquerda".
Convocada pela primeira vez para ser uma dos 242 mesários que atuaram em Lisboa, a paulista doutoranda em Letras Bruna Carolina de Carvalho, 33 anos, se disse animada por poder participar mais diretamente "deste momento histórico, mesmo estando no exterior". Mas ela também teve preocupações semelhantes às de Gabriel. "O cumprimento deste dever cívico me da uma expectativa positiva, mas, por outro lado, houve o receio da violência política, algo que considero novo", disse. "Outro aspecto negativo, que causou tensão para quem foi escolhido para trabalhar nas eleições foi a confiabilidade das urnas ter sido colocada em causa pelo presidente", destaca. "Pensamos que eleitores podiam chegar com desconfiança da urna, com perguntas, e isso gerar atrasos e tumulto", destaca. Bruna avalia que essa situação levou a Justiça Eleitoral a investir no treinamentos dos mesários. "Recebemos uma série de informações sobre fakenews em relação ao processo eleitoral brasileiro, sobre como rebater a desinformação", conta.
O baiano Rafael Carneiro está há 7 anos no Porto, trabalha com segurança em informática, e votou em Lula. "Essa eleição tornou-se um plebiscito sobre a continuidade do governo Bolsonaro", avalia.
Eleitora também no Porto, Raquel Trinxel, capixaba, dona de casa e mãe de três crianças, votou em Jair Bolsonaro. "Sou a favor do livre mercado, de Estado mínimo, das liberdades individuais e totalmente contra ideologia de gênero e fui extremamente bem surpreendida pelo governo de Bolsonaro", disse. "Hoje voto nele não por ser contra o PT, mas por ele ser quem é, o único presidente no mundo que respeitou as liberdades individuais durante a pandemia", acredita.
Em Lisboa, as amigas Priscila Alves, 35 anos, e Marilda Batista, 55 anos, também exaltaram Bolsonaro. "É o homem de Deus que veio para fazer a mudança que o Brasil precisa", diz a baiana Marilda. "Depois de Bolsonaro, todo mundo entendeu a política, o que é direita, esquerda, sabemos tudo sobre o STF", exemplificou. "Falaram tanta mentira sobre a covid-19 e nunca provaram que ele é ladrão", completou a amazonense Priscila que trabalha como cuidadora.
Bem próxima às duas eleitoras de Bolsonaro, o grupo de três amigos moradores de Oeiras, praia próxima à Lisboa, Ivonete Castro, João Pedro Delgado e Patrícia Cavalcanti, festejavam com animação o voto em Lula e ironizavam: "os eleitores de Bolsonaro e defensores da ditadura não deveriam estar ali votando."