Tarcísio e Haddad nacionalizam debate em SP, discutem até Milei e deixam temas locais em 2º plano
Um dos momentos mais tensos ocorreu logo no início, com troca de acusações sobre envolvimento de aliados com o crime organizado
No último debate antes do primeiro turno pelo governo de SP, Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad priorizaram o confronto nacional e deixaram os temas locais em segundo plano. Marcado pela polarização entre Lula e Bolsonaro, o encontro abordou economia, obras federais e até Javier Milei. O clima esquentou com trocas de acusações sobre infiltrações do PCC na política e polêmicas de gestão. Assuntos regionais, como privatização da Sabesp e educação, só ganharam espaço no fim da discussão.
Candidatos a governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) passaram a maior parte do último debate antes do primeiro turno atacando e defendendo, respectivamente, os governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) - a discussão envolveu até à Argentina, governada por Javier Milei. Os temas estaduais foram abordados, mas acabaram em segundo plano.
Realizado nos estúdios da TV Globo na capital paulista, o debate durou cerca de duas horas e adentrou a madrugada de quarta-feira, 29. Sem perguntas de jornalistas, o encontro foi marcado pelo confronto direto entre os dois candidatos ao longo dos quatro blocos.
A nacionalização do debate ocorre no momento em que as pesquisas mostram a possibilidade de Tarcísio vencer a eleição já no próximo domingo, 4. Segundo pesquisa Atlas/Estadão divulgada na terça-feira, 29, o governador tem 53,3% das intenções de voto contra 40,1% do petista.
A nível nacional, a disputa é mais acirrada, com Lula e Flávio Bolsonaro (PL), em empate técnico tanto no primeiro como no segundo turno, conforme levantamento de diversos institutos.
Tarcísio citou o aliado Flávio apenas nas suas considerações finais, ao ressaltar a importância da parceria entre os governos estadual e federal. A postura contrastou com a de Haddad, que mencionou Lula várias vezes ao longo da discussão. O candidato do PT encerrou sua participação afirmando que o filho de Jair Bolsonaro representa uma "ameaça ao País" e está envolvido nos principais escândalos do momento, como o caso Master e os desvios no INSS.
"Vocês querem o Milei aqui, né?", questionou o petista ao responder uma pergunta de Tarcísio sobre a política econômica adotada por ele enquanto ministro da Fazenda de Lula. "Vocês forneciam osso e agora querem carne de burro. É esse o plano econômico de vocês", continuou o petista.
O chefe do Executivo paulista, por sua vez, disse que o presidente argentino pegou uma situação complexa ao assumir o país vizinho - em julho, Tarcísio concedeu a Ordem do Ipiranga a Milei, maior honraria do Estado.
O governador pregou a necessidade de ajuste fiscal e contenção de gastos a nível federal no Brasil. "A gente está vendo a economia patinando, as empresas quebrando e as pessoas endividadas", rebateu, citando como exemplo a recuperação judicial das Casas Bahia.
A dinâmica se repetiu em temas como saúde, infraestrutura e casos de corrupção. Tarcísio afirmou que obras como o Rodoanel Norte e a linha 6-Laranja do metrô atrasaram por causa da Operação Lava Jato, "do PT, por causa de vocês". O mandatário também citou a lobista Roberta Luchsinger. Amiga de Fábio Luís da Silva, o Lulinha, ela é suspeita de atuar junto ao governo petista para conseguir contratos públicos.
Já Haddad exaltou o papel do governo federal na Operação Carbono Oculto, que investigou a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis. O petista também mencionou que o governo Lula fez a renegociação da dívida dos Estados, inclusive de São Paulo, com a União, o que aliviou os cofres do Palácio dos Bandeirantes.
A medida, segundo ele, teria dado fôlego financeiro a Tarcísio para fazer obras e investimentos - parte deles financiada por bancos públicos federais.
"Tenho certeza que seguiremos incentivando São Paulo se Lula for reeleito. Se Flávio for eleito, vai travar tudo", disse o petista, acrescentando que o adversário teria descumprido a Lei de Responsabilidade Fiscal se não fosse a renegociação dos débitos capitaneada por ele no Ministério da Fazenda.
"Daqui a pouco vocês vão dizer que fizeram o Farol de Salvador e o Cristo Redentor. Tudo é o governo federal", ironizou Tarcísio. Ele minimizou a ajuda do governo Lula nas obras paulistas, dizendo que tratam-se de empréstimos que serão pagos com recursos estaduais. Também defendeu que as contas do Estado estão em dia.
Um dos momentos mais tensos ocorreu logo no início, com troca de acusações sobre envolvimento de aliados com o crime organizado. Haddad afirmou que Tarcísio pediu votos para os filhos do ex-vereador Milton Leite (União Brasil), preso recentemente em uma operação que investigava a participação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público da capital paulista. À época do evento, Leite ainda não havia sido detido.
"Minha relação com eles sempre foi institucional", respondeu Tarcísio. "Eles [a família Leite] nunca tiveram cargos no governo de São Paulo. O que a gente tratou foi saneamento básico nos mananciais, habitação", justificou o governador.
Tarcísio, por sua vez, citou o vereador Senival Moura (PT), que também foi preso neste ano por suspeita de envolvimento com o PCC - Haddad havia dito que o caso ocorrera há mais tempo.
Na mesma toada, o petista lembrou do afastamento do então comandante-geral da Polícia Militar, José Augusto Coutinho, após vir à tona a suspeita dele ter sido omisso em um caso em que policiais teriam sido corrompidos pelo PCC. O caso foi revelado pelo Estadão.
"Você fala que tudo está melhorando. O crime organizado está se infiltrando nas instituições. Você teve que afastar o comandante da Polícia Militar por recomendação do Ministério Público", rebateu o petista.
Nos temas estaduais, Haddad adotou uma postura ofensiva, apontando o que vê como falhas da gestão adversária na saúde, educação, nas políticas para mães autistas e na transparência dos benefícios fiscais. Tarcísio, por sua vez, defendeu sua administração e prometeu ampliar políticas públicas que já estão em andamento se for reeleito.
Mesmo assim, temas que pautaram a campanha até o momento, como as críticas do petista à privatização da Sabesp, à instalação de pedágios free-flows e as concessões de linhas do metrô, só apareceram da metade do terceiro bloco - o penúltimo do encontro - em diante.
"Você acha normal uma empresa de saneamento orientar o consumidor a não consumir a água que sai da torneira dele?", disse Haddad. "Você disse em 2022 que a tarifa não iria aumentar", acrescentou o petista.
Tarcísio negou que haja um problema de saúde pública e disse que a Sabesp não fez a recomendação mencionada pelo adversário. "A empresa estava dizendo aos consumidores que, se houver algum problema, era para comunicá-la. Não venha alarmar a população de forma irresponsável", respondeu o governador, atribuindo o problema ao período chuvoso que pode levar uma maior quantidade de areia e outros detritos na captação de água pela Sabesp.
O debate sobre educação, área na qual Haddad também já foi ministro, também ficou para a parte final, já próximo da meia-noite. O petista criticou o desempenho de São Paulo em provas que medem o nível de aprendizagem dos alunos. "Vamos fazer uma reforma do ensino médio. É um crime continuar com os indicadores atuais", afirmou.
Tarcísio respondeu que o desempenho de São Paulo melhorou. "Por que a gente recebeu o selo ouro do Ministério da Educação (MEC), então?", questionou. Haddad hesitou e não soube explicar o que seria o selo. "Selo ouro? Ninguém sabe o significado disso", afirmou o petista.
A rede estadual melhorou em 2025 seu desempenho do ensino médio no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal avaliação de qualidade da área, mas segue fora dos cinco primeiros colocados no ranking nacional, embora seja o Estado mais rico do País. São Paulo ficou em 10º lugar, atrás de Estados como Paraná, Piauí, Pernambuco, Ceará e Minas.
Em março deste ano, o governo de São Paulo de fato recebeu o grau ouro do Selo Nacional de Compromisso com a Alfabetização pelo desempenho no ano de 2024. Segundo o MEC, o instrumento é um reconhecimento institucional do compromisso das secretarias de educação com a alfabetização das crianças na idade certa.
Os aliados dos dois candidatos
O governador chegou à TV Globo acompanhado da primeira-dama, Cristiane Freitas. Uma série de aliados também estava presente: o vice-governador, Felício Ramuth (MDB), os candidatos ao Senado Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL).
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e Ricardo Salles (Novo), que desistiu na terça-feira, 28, de tentar ser senador para unificar a direita a pedido de Tarcísio, também estavam na plateia.
Haddad também chegou acompanhado da esposa, Ana Estela. O restante de sua chapa, formada pelo candidato a vice, Márcio França (PSB), das candidatas ao Senado Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (MDB), estavam na plateia, assim como o presidente do PT, Edinho Silva, e o advogado Marco Aurélio Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas.
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