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Pessoas que cercam Bolsonaro alimentam visão conspiratória que o está afundando, diz Janaina Paschoal

Ele ainda não entendeu que seus atos são considerados importantes, afirma a deputada estadual sobre mensagem divulgada pelo presidente.

18 mai 2019
15h21
atualizado às 16h40
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Para a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP), o episódio da carta compartilhada por WhatsApp pelo presidente Jair Bolsonaro nesta sexta-feira, em que o Brasil é descrito como país "ingovernável" sem "conchavos políticos", mostra que ele "precisa, urgentemente, trocar seus assessores".

A advogada e professora de Direito da Universidade de São Paulo (USP) foi uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma Rousseff (PT). No ano passado, chegou a ser sondada para ser vice na chapa de Bolsonaro, mas recusou. Acabou se lançando candidata a deputada estadual em São Paulo pelo PSL, a mesma legenda do presidente, e recebeu a maior votação da história para o cargo, com mais de 2 milhões de votos.

'Ele fez um compartilhamento como outro qualquer. Não vislumbro que tivesse atacando o Congresso, ou sinalizando uma renúncia', disse a deputada
'Ele fez um compartilhamento como outro qualquer. Não vislumbro que tivesse atacando o Congresso, ou sinalizando uma renúncia', disse a deputada
Foto: Mauricio Garcia de Souza/Alesp / BBC News Brasil

À BBC News Brasil, Janaina comentou sobre a mensagem, revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pelo porta-voz da Presidência, em que Bolsonaro afirma se tratar de "um texto no mínimo interessante" e que "sua leitura seria obrigatória".

O artigo, escrito pelo servidor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) Paulo Portinho, afirma que "descobrimos que não existe nenhum compromisso de campanha que pode ser cumprido sem que as corporações deem sua bênção. Sempre a contragosto."

O texto defende que o presidente, até o momento, não conseguiu aprovar nada devido à atuação dessas corporações em sentido contrário e que, por isso, seu governo seria desidratado e correria o risco de "morrer de inanição". O compartilhamento foi visto por alguns como uma sinalização de radicalização do governo e, por outros, como um eventual indicativo de renúncia.

Janaina disse considerar esse entendimento um exagero, assim como a interpretação de que o compartilhamento da carta seria um endosso de um ataque ao Congresso. "Bolsonaro ainda não entendeu que seus atos são considerados importantes", afirmou, em entrevista feita por WhatsApp a pedido da parlamentar. "Ele precisa, urgentemente, trocar seus assessores diretos. As pessoas que o cercam alimentam a visão conspiratória que o está afundando."

Texto compartilhado pelo presidente nesta sexta foi interpretado por alguns como possível sinalização de renúncia
Texto compartilhado pelo presidente nesta sexta foi interpretado por alguns como possível sinalização de renúncia
Foto: CARL DE SOUZA/AFP/Getty / BBC News Brasil

Confira, a seguir, a entrevista.

BBC News Brasil - Como a senhora avalia a carta divulgada pelo presidente?

Janaina Paschoal - O presidente é muito espontâneo. Ele achou a análise interessante e compartilhou. Não acredito que ele tenha pensado na dimensão que o fato tomaria. Nem mesmo o autor do texto imaginava. Não vejo nada tão grave na situação. Estão conferindo uma dimensão maior do que a real.

BBC News Brasil - Mas repassar uma carta que ataca o Congresso foi algo que deveria ser feito em um momento em o governo tem um desgaste na sua relação com o Legislativo? Isso não é um endosso do presidente às visões ali expostas?

Paschoal - Veja, eu dramatizo menos essas questões. Ele ainda não entendeu que todos os seus atos são interpretados, considerados, enfim, importantes. Ele fez um compartilhamento como outro qualquer. Não vislumbro que tivesse atacando o Congresso, ou sinalizando uma renúncia. Ele precisa, urgentemente, trocar seus assessores diretos. As pessoas que o cercam alimentam a visão conspiratória que o está afundando.

BBC News Brasil - Quem seriam os assessores do presidente que deveriam ser trocados? Quem alimenta nele esta visão conspiratória mencionada pela senhora?

Paschoal - Somente o presidente pode identificar quem o está estimulando em teorias crescentemente conspiratórias. Precisa parar com tanta xaropada e focar no trabalho. Eu não vou abandonar o presidente, vou exigir que ele trabalhe e cumpra suas promessas de campanha.

BBC News Brasil - A senhora é professora de uma universidade pública. Considera os contingenciamentos na área de educação (e sua comunicação) adequados?

Paschoal - Os contingenciamentos são adequados, necessários e já foram feitos em outros governos, inclusive nos do PT. A comunicação poderia ter sido melhor.

BBC News Brasil - Como a senhora avalia as manifestações ocorridas nesta semana por causa dos contingenciamentos?

Paschoal - As manifestações não foram pela educação, foram por Lula Livre e todas as pautas esquerdistas, o contingenciamento foi apenas uma desculpa.

BBC News Brasil - O presidente chamou os manifestantes de idiotas úteis. A senhora concorda com essa avaliação? Ele agiu corretamente ao expressar esta opinião?

Paschoal - Não. Ele segue sendo como sempre foi. Mas o cargo exige que ele se aprimore minimamente. Para tanto, precisa parar de ouvir quem o estimula a manter o estilo de deputado temático.

BBC News Brasil - Nesta semana, o filho do presidente, Carlos Bolsonaro, disse que existe uma tentativa por parte do Legislativo de fazer o governo gastar mais do que deve, o que abriria caminho para um pedido de impeachment. Como a senhora avalia isso? O presidente corre esse risco?

Paschoal - O Presidente não corre risco de impeachment, pois não cometeu nenhum crime de responsabilidade. No entanto, o Congresso precisa compreender que o momento é delicado e que a população sabe que a MP 870 (que reduz o número de ministérios) precisa e pode ser votada, bem como que a reforma da Previdência é uma necessidade.

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