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Política

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Michelle se choca com o purosanguismo bolsonarista

Existência política que lhe é permitida, limitada, deriva da condição circunstancial de mulher do pai

29 jun 2026 - 18h13
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É preciso lembrar que a direita brasileira está no pós-Bolsonaro; e que a escolha do primogênito Flávio Bolsonaro como candidato do bolsonarismo, o cavalo puro-sangue designado a encarnar o pai, é produto sobretudo da necessidade de a família Bolsonaro manter - reafirmar - a hegemonia sobre essa propriedade.

Jair está fora de combate, perseguido e injustiçado, esse é o texto; Flávio sendo aquele sacrificado cuja matéria incorpora o pai, conjuntura em que a derrota eleitoral se converteria em discurso de vitória, protegido o patrimônio político, defendida a empresa familiar que Bolsonaro criou dentro da máquina do Estado. Território desde o qual - pensando em 2030 - dois projetos de poder se desenvolvem e chocam. Nenhum deles de Flávio, ambos avançando à revelia do que seriam os interesses da candidatura lançada para 2026.

Não há puros nessa peleja patrimonial por liderança e controle. E não será somente Eduardo Bolsonaro a tocar agenda própria e nociva às chances eleitorais do irmão. Michelle Bolsonaro faz o mesmo contra o enteado. A diferença está na forma da reação de Flávio, dura apenas para com a madrasta, expressão da natureza conspiracionista do bolsonarismo. Ela não é Bolsonaro. O bolsonarismo é purosanguista. Ela não tem sangue Bolsonaro. É forasteira. Oportunista. Traidora certamente, quando faltar Jair.

Assim se organiza o pensamento bolsonarista. Note-se que o bolsonarismo eduardista - o que estará sempre mordendo, para que Flávio possa encenar moderações - refere-se a Michelle com o nome de solteira. A existência política que lhe é permitida, limitada, deriva da condição circunstancial de mulher do pai. Nenhuma novidade, se lembrarmos também de que Bolsonaro lançou o filho Carlos - contra a mãe - em contenda pelo que seria a cadeira da família na Câmara do Rio, trono que a então ex-mulher pretendia conservar. Ela não era Bolsonaro; só autorizada a usar a franquia. Separada, não poderia querer a reeleição. Carlos a venceu. Matou a própria mãe.

Os irmãos se unirão para vencer - matar - Michelle. Ela é uma ameaça sem precedentes ao que os filhos de Jair concebem como poder hereditário. Se todos ali chegaram aonde chegaram sendo beneficiários de transferências do patriarca, não será exagero dizer que, a partir do capital do mito, somente Michelle teria constituído persona pública com possibilidades de prosperar autonomamente. O roteiro do vídeo profissional que publicou é expressivo de alguém que tem, e sabe que tem, existência individual. Michelle não precisa de Flávio hoje. Flávio precisa de Michelle já.

A direita brasileira está sob o que seria a primeira etapa do pós-Bolsonaro, com o ex-presidente preso e doente, alijado da atividade política direta, fase em que se disputa também a prerrogativa de lhe ser porta-voz. Desnecessário sendo descrever o vale-tudo até onde irá o conflito quando não houver mais Jair.

Estadão
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