Lula demite Cida Gonçalves e anuncia Márcia Lopes como nova ministra das Mulheres
Ex-ministra do Desenvolvimento Social é irmã de um dos aliados históricos de Lula, Gilberto Carvalho
BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demitiu nesta segunda-feira, 5, Cida Gonçalves do comando do Ministério das Mulheres e anunciou a entrada de Márcia Lopes como titular da pasta. Esta é a 12.ª troca na Esplanada no atual mandato de Lula e a sexta somente neste ano.
Com a substituição no Ministério das Mulheres, Lula pretende se aproximar do eleitorado feminino para a campanha eleitoral de 2026, quando quer concorrer a novo mandato.
Pesquisas mostram que o presidente vem perdendo cada vez mais popularidade nesse público e também entre evangélicos, pobres e moradores do Nordeste.
A troca no ministério ocorreu na seara do PT. Tanto a nova ministra Márcia Lopes como Cida Gonçalves, que deixou o cargo, são filiadas ao partido desde os anos 80.
Ex-ministra do Desenvolvimento Social no segundo mandato de Lula, Márcia tem o trabalho bem avaliado pelo presidente e terá a missão de dar mais visibilidade à pasta que assume agora.
"O presidente quer ver as mulheres mais contentes, mais protegidas. Quer que elas se sintam respeitadas, acolhidas, ouvidas", disse a nova titular das Mulheres. "Temos de mudar a cultura machista", completou.
Márcia é irmã de um dos aliados históricos de Lula, Gilberto Carvalho, que foi chefe de gabinete da Presidência da República durante os oito primeiros anos dos governos do PT e ministro da Secretaria-Geral na gestão de Dilma Rousseff.
Além de titular do Desenvolvimento Social em 2010, secretária-executiva da pasta e secretária nacional de Assistência Social, Márcia foi vereadora de Londrina de 2001 a 2004. Ela também ocupou o cargo de secretária de Assistência Social da cidade.
A saída de Cida Gonçalves da equipe era dada como certa desde o ano passado. Sua situação se agravou após as denúncias de assédio moral que sofreu de integrantes da equipe, como revelou o Estadão. A Comissão de Ética Pública da Presidência, porém, arquivou as acusações.
"Não contou (na demissão) a questão do assédio. Acho que é importante dizer isso. Foi arquivado o processo na Comissão de Ética", destacou Cida. "Não é uma troca por incompetência, por assédio, por rixa. É uma troca de rumo, de momentos. Tem horas em que você está no limite do esgotamento daquilo que pode avançar, ampliar, e gente nova chega com um novo olhar, com outra perspectiva."
Cida se reuniu com Lula na última sexta-feira, 2. Na ocasião, não houve anúncio de demissão da ministra. Com a dispensa de Cida, o governo tem a segunda troca em três dias.
Naquela mesma sexta-feira, o ministro da Previdência Social, Carlos Lupi, pediu demissão do cargo após conversa de aproximadamente uma hora com Lula. A saída foi consequência do escândalo dos descontos indevidos de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Reforma ministerial a conta-gotas
A reforma ministerial aguardada no início do ano, até aqui, tem sido realizada a conta-gotas. Esta é a terceira mudança no governo Lula promovida por questões de "desempenho" - ou seja, sem uma acusação que motive o afastamento do ministro.
A primeira foi a troca na Secretaria de Comunicação Social. Em janeiro, Paulo Pimenta foi demitido e substituído por Sidônio Palmeira. Em março, Lula demitiu Nísia Trindade do Ministério da Saúde. No seu lugar assumiu Alexandre Padilha, que comandava a Secretaria de Relações Institucionais. A deputada Gleisi Hoffmann, então presidente do PT, foi indicada para o ministério, que é responsável pela articulação política do Palácio do Planalto com o Congresso.
As substituições de Carlos Lupi na Previdência e de Juscelino Filho nas Comunicações, por sua vez, não estão relacionadas a uma avaliação negativa do governo, mas por acusações e escândalos nos quais seus nomes foram envolvidos.
Pressionado, Lupi entregou o cargo após virem à tona detalhes de uma investigação sobre fraudes no pagamento de benefícios do INSS. Mesmo sem ter seu nome citado nas apurações, conduzidas pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União, o agora ex-ministro sofreu grande desgaste, principalmente após a revelação de que fora informado dos descontos ilegais de aposentados e pensionistas em 2023.
Com o governo sangrando, Lula decidiu intervir no INSS e, antes mesmo da saída de Lupi, escolheu o novo presidente do instituto, Gilberto Waller Júnior, sem consultar o ministro.
Menos de um mês antes, Juscelino Filho, já havia sido denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva. A defesa do ex-ministro das Comunicações repudia as acusações.
A PGR denunciou Juscelino por desvio de emendas parlamentares destinadas por ele, quando exercia o mandato de deputado federal, à prefeitura de Vitorino Freire (MA). À época, a cidade era administrada por sua irmã, Luanna Rezende.
O caso foi revelado pelo Estadão. De acordo com a denúncia da PGR, Juscelino teria recebido propina em troca do envio de recursos e do direcionamento de contratos a determinadas empresas.
Até o momento, porém, Lula não fez mudanças que atingem a participação do Centrão no governo. Esta era uma das principais expectativas em relação à reforma ministerial, já que um dos principais objetivos da mudança era reestruturar a Esplanada para garantir governabilidade ao presidente na reta final de seu mandato.