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Hacker nega ter manipulado mensagens de Moro e Dallagnol

Em depoimento divulgado pela GloboNews, suspeito diz que chegou a Glenn Greenwald através da ex-deputada Manuela d'Ávila

26 jul 2019
21h01
atualizado às 21h11
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Um dos detidos sob suspeita de hackear celulares de autoridades contou à Polícia Federal (PF) como invadiu as contas do aplicativo de mensagens Telegram e como chegou ao jornalista Glenn Greenwald, além de negar ter manipulado as mensagens que teria enviado. O depoimento de Walter Delgatti Filho foi revelado nesta sexta-feira (26/07) pela emissora de televisão GloboNews.

Em depoimento, Delgatti disse que decidiu repassar as mensagens a Greenwald devido ao papel do jornalista na divulgação de documentos secretos da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos obtidos pelo ex-analista de sistemas Edward Snowden. Ele afirmou que se manteve anônimo e não recebeu nenhum pagamento pelo compartilhamento do conteúdo.

Ministro da Justiça, Sergio Moro
02/07/2019
REUTERS/Adriano Machado
Ministro da Justiça, Sergio Moro 02/07/2019 REUTERS/Adriano Machado
Foto: Reuters

Delgatti negou ainda ter manipulado as mensagens e disse que acredita não ser possível alterar o conteúdo devido ao formato utilizado pelo Telegram. Ele afirmou que se comunicou com Greenwald de maneira virtual e repassou os arquivos ao jornalista pelo Dropbox, um serviço para armazenamento e compartilhamento de arquivos.

O suspeito contou que conseguiu o contato de Greenwald através da ex-deputada Manuela d'Ávila (PCdoB). Segundo o depoimento, ele teria conseguido o telefone da política na lista de conatos do Telegram da ex-presidente Dilma Rousseff. Ele ligou para Manuela no Dia das Mães, em 12 de maio, pedindo o número do jornalista.

"A princípio Manuela d'Ávila não estava acreditando no declarante, motivo pelo qual fez o envio para ela de uma gravação de áudio entre os procuradores da República Orlando [Martello Júnior] e Januário Paludo", diz o depoimento. Depois disso, Delgatti teria recebido uma mensagem de Greenwald, que disse ter interesse público no material.

Manuela não cometeu nenhuma irregularidade no caso. Segundo a Folha de S.Paulo, pela legislação brasileira, a omissão sobre um ato ilícito não é crime. Mesmo que soubesse que o hacker tivesse cometido um crime, ela não precisava denunciar o caso às autoridades. Manuela também não cometeu nenhum ato ilícito ao intermediar o contato entre Delgatti e Greenwald.

No depoimento, Delgatti disse que a invasão de celulares de autoridades teria começado com o do promotor Marcel Zanin Bombardi, de Araraquara (SP), que o denunciou por tráfico de drogas. No aparelho, encontrou um grupo no Telegram chamado Valoriza MPF, onde acabou conseguindo o acesso ao celular do deputado Kim Kataguiri (DEM-SP).

Da agenda de Kataguiri, obteve o número do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Nos contatos de Moraes, o suspeito chegou ao número do ex-procurador-geral Rodrigo Janot e, pela agenda dele, descobriu os telefones dos procuradores da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, entre eles Deltan Dallagnol, Orlando Martello Júnior e Januário Paludo.

As invasões aos celulares teriam ocorrido entre março e maio deste ano. Delgatti admitiu ter acessado ainda a contra do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, porém, afirmou não ter obtido nenhum conteúdo no aplicativo.

Segundo Delgatti, houve ainda a invasão dos aparelhos de juízes do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), com sede do Rio de Janeiro, de procuradores da operação Greenfield, que atuam em Brasília, nos quais "não encontrou nada ilícito", de Dilma, do ex-governador do Rio de Janeiro Luiz Fernando Pezão (MDB) e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Delgatti, porém, negou ter acessado os celulares do ministro da Economia, Paulo Guedes, da deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), e "de qualquer outra autoridade do atual governo federal".

O vazamento

O Intercept Brasil, fundado por Greenwald, vem publicando desde 9 de junho uma série de diálogos de procuradores da Lava Jato e de Moro que levantaram questionamentos sobre a conduta ética e legal da operação e do ex-magistrado. O site afirmou ter obtido o material de uma fonte anônima.

Desde a revelação das mensagens, Moro adotou a estratégia de negar ter cometido irregularidades e diz não reconhecer a autenticidade das mensagens.

A Constituição determina que não haja vínculos entre juiz e as partes em um processo judicial. Para que haja isenção, o juiz e a parte acusadora - neste caso, o Ministério Público - não devem trocar informações nem atuar fora de audiências.

Nos diálogos divulgados até agora, Moro aparece cobrando a realização de novas operações, num diálogo com um procurador, oferece uma dica sobre uma testemunha e chega a propor aos procuradores uma ação contra a defesa do ex-presidente Lula.

Na véspera do comparecimento de Moro ao Senado, o site divulgou, ainda, um diálogo no qual ele se posiciona contra o envio de uma ação contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma vez que ela poderia "melindrar alguém cujo apoio é importante".

Um dos vazamentos também reforçou as suspeitas de estreita cooperação entre o juiz e Deltan Dallagnol para evitar que tensões entre Moro e os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) prejudicassem as investigações em 2016, durante uma fase crítica para a força-tarefa.

Mais recentemente, o site também divulgou mais conversas entre procuradores da Lava Jato. Num dos diálogos revelados, membros da força-tarefa criticam a ida de Moro ao Ministério da Justiça e manifestam temor de que a nomeação arranhasse a imagem da operação.

Outras mensagens também mostram Moro orientando a Lava Jato para incluir provas num processo e fazendo pressão para que o Ministério Público não aceite uma delação premiada do ex-deputado Eduardo Cunha, além de impor condições para aceitar o acordo de delação que estava sendo negociado com dois executivos da empreiteira Camargo Corrêa.

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