Gays, lésbicas e bissexuais criam aliança própria e questionam foco em identidade de gênero
Para críticos, a separação pode ser interpretada como um retrocesso no conceito de diversidade e inclusão, além de enfraquecer frentes de atuação conjunta conquistadas nas últimas décadas.
Uma nova organização chamada LGB International, formada por grupos de lésbicas, gays e bissexuais de 18 países, anunciou sua separação formal do movimento LGBTQ+. A decisão, divulgada no último dia 20 de setembro, marca um dos episódios mais controversos no ativismo contemporâneo por direitos civis e reacende discussões antigas dentro da própria comunidade.
O grupo afirma que, ao longo dos últimos anos, o foco do movimento LGBTQ+ tem sido cada vez mais direcionado a pautas relacionadas à identidade de gênero, em detrimento das lutas históricas por direitos ligados à orientação sexual, como a descriminalização da homossexualidade, ainda vigente em 64 países.
"Nós não rejeitamos a existência de pessoas trans, mas acreditamos que os direitos de lésbicas, gays e bissexuais precisam de um espaço específico de defesa. Hoje, esse espaço foi diluído em um debate mais amplo, que deixou para trás questões urgentes e globais", diz um dos porta-vozes da coalizão.
Críticas à transição de gênero em menores e espaços exclusivos
Entre os temas centrais do manifesto da LGB International está a crítica à transição de gênero em adolescentes, especialmente o uso de bloqueadores hormonais em menores de idade. A organização afirma que há falta de consenso científico sobre os efeitos a longo prazo desses tratamentos e pede cautela na abordagem médica e institucional.
Outro ponto levantado diz respeito à inclusão de mulheres trans em espaços reservados a lésbicas, uma pauta que vem gerando embates em diversos países. Para os membros da nova organização, esse tipo de inclusão tem gerado conflitos entre identidade de gênero e orientação sexual, com impacto direto na liberdade de associação e expressão de mulheres lésbicas.
Reações divididas dentro da comunidade LGBTQ+
A cisão da LGB International gerou reações fortes entre ativistas e organizações LGBTQ+ ao redor do mundo. Diversos grupos manifestaram preocupação com o movimento, considerando a separação uma forma de fragmentar uma luta coletiva que enfrenta ainda muitos desafios globais, desde a violência até a falta de políticas públicas de inclusão.
Para críticos, a separação pode ser interpretada como um retrocesso no conceito de diversidade e inclusão, além de enfraquecer frentes de atuação conjunta conquistadas nas últimas décadas.
Nova fase ou ruptura nociva?
Ainda em seus primeiros passos, a LGB International busca ganhar visibilidade com uma campanha internacional nas redes sociais, divulgada em vários idiomas. O grupo nega vínculos com partidos políticos ou movimentos extremistas e afirma que seu objetivo é recentrar a luta nos direitos básicos de lésbicas, gays e bissexuais, especialmente em países onde esses grupos ainda enfrentam prisão, perseguição ou até pena de morte.
Ao mesmo tempo, a existência da nova entidade levanta questões complexas: é possível haver representatividade plena dentro da mesma sigla? A união entre diferentes identidades sexuais e de gênero é sempre benéfica? Ou há espaço legítimo para vozes dissidentes sem que isso signifique hostilidade?
O surgimento da LGB International mostra que o movimento LGBTQ+ está longe de ser monolítico. A diversidade que se defende fora da comunidade também se manifesta dentro dela — e, às vezes, essa pluralidade gera atrito. O debate está posto. Resta saber se ele levará a mais diálogo ou a divisões mais profundas.