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Ex-aliado do PT defende reforma da Previdência de Bolsonaro

Deputado do PRB de Pernambuco diz que votaria contra o impeachment da Dilma se fosse deputado à época e agora torce por Bolsonaro

7 jul 2019
08h01
atualizado às 10h52
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Votou no petista Fernando Haddad para a Presidência da República, quase foi vice-prefeito de Recife em chapa com o PT, votaria contra o impeachment de Dilma Rousseff se fosse deputado à época - e agora está torcendo para que o presidente Jair Bolsonaro acerte a mão. "É ele que está pilotando o avião, os brasileiros são os passageiros, e é importante que o voo termine bem", diz o deputado federal estreante Sílvio Costa Filho (PRB-PE), vice-presidente da Comissão Especial da reforma da Previdência.

Deputado federal estreante Sílvio Costa Filho (PRB-PE), vice-presidente da Comissão Especial da reforma da Previdência
Deputado federal estreante Sílvio Costa Filho (PRB-PE), vice-presidente da Comissão Especial da reforma da Previdência
Foto: Reprodução Instagram

No quinto mandato parlamentar aos 37 anos - dois anos como vereador no Recife e três vezes deputado estadual -, Sílvio Serafim é filho de um conhecido personagem do Congresso, o tonitruante ex-deputado federal Sílvio Costa, não reeleito, notabilizado pela disposição com que se bateu contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

São tão diferentes na estampa e no estilo - um é barrigudo, o outro esguio; um é desbocado, o outro ameno - que o filho já se acostumou com as troças de parlamentares que conhecem o parentesco. "Trocaram você na maternidade" é uma delas. "Meu pai ganhou o respeito da Câmara", diz. "Aprendi e ainda aprendo com ele." O curioso da história é o destino ter unido Sílvio Costa e Dilma Rousseff no mesmo fiasco na eleição do ano passado para senador, ela pelo PT, em Minas, ele pelo Avante, em Pernambuco.

"Divirjo do Bolsonaro em alguns pontos - armas e pauta homofóbica, por exemplo -, mas tenho tentado ajudar o governo, que tem uma das melhores equipes econômicas dos últimos 20 anos", afirmou o deputado na terça-feira passada (2), durante café da manhã no apartamento funcional de 180 metros quadrados em que mora em uma quadra da Asa Sul, em Brasília.

É o mesmo em que morava Sílvio Costa pai - saiu um, entrou o outro. "Me sinto mais confortável aqui do que recebendo os R$ 5 mil do auxílio-moradia", disse, comparando as mordomias. Não seria melhor que cada parlamentar pagasse o seu teto, como os mortais comuns? "Não sou de fazer demagogia", respondeu o também vice-líder do PRB.

Com 31 deputados - sexta bancada -, é um dos partidos que compõem o Centrão, a força predominante na Câmara de Rodrigo Maia (DEM-RJ). "Prefiro dizer Centro, porque Centrão tem um sentido pejorativo", afirmou o parlamentar, entre uma e outra mordida na tapioca quentinha da cozinheira Rose, também herdada do pai, assim como o motorista André, de seu reluzente Azera 2010.

"É sobretudo pelo centro que as reformas serão aprovadas no País", perorou na mesa de dez lugares da sala de jantar. "No futuro haverá o reconhecimento, por parte da sociedade, de que o centro foi imperativo para ajudar o Brasil nos momentos de dificuldade."

Informou, quanto à má fama do Centrão, que não tem nenhum indicado em qualquer escalão do governo. "Eu penso nas próximas gerações, e não nas próximas eleições", trocadilhou, em bordão que costuma usar nas muitas entrevistas que tem dado, especialmente para as rádios pernambucanas.

Ajustou, também, a má fama do Partido Republicano Brasileiro como um aparelho da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). "Não é mais assim", disse. "A maioria dos deputados federais não é evangélica - como eu também não sou." Declarou-se "cristão". Vai pontualmente a uma igreja católica, mas pode ir a uma evangélica, se necessário for. "Acredito em Deus", resumiu.

Naquela manhã de acepipes na mesa, o pai de Silvio Neto, de 8 anos, e de Luiza, 6, com a designer de joias Cris Lemos - todos passando uns dias por lá -, acordou às 6h30, leu os jornais na internet, trocou telefonemas e mensagens, tudo girando em torno das tumultuadas discussões da reforma da Previdência.

Parte do trio que dirige os trabalhos - com Marcelo Ramos (PL-AM), na presidência, e Samuel Moreira (PSDB-SP) como relator -, Sílvio Costa Filho tem se destacado principalmente nas conversas de bastidores. Com seis meses de mandato, já foi indicado, pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, o Diap, como um dos 100 parlamentares mais influentes no Congresso. "Eu penso nas próximas gerações...", lá vem ele de novo, com o sorriso de plantão.

Pedagogo

Sílvio Costa, pai, professor de química antes de virar político, é dono, com os filhos, de uma das maiores empresas de educação de Pernambuco - o colégio Decisão, com quatro unidades e cerca de 1.800 alunos pagando mensalidade. Foi lá que o pedagogo Sílvio Serafim começou a trabalhar, no setor administrativo, antes de virar o mais jovem vereador do Recife, pelo PMN, em 2004, com 22 anos. Com 24, estava no primeiro de três mandatos de deputado estadual.

Foi vice-líder e secretário de Turismo do governador Eduardo Campos - morto em um desastre de avião em 2014. Neste último posto, em 2009, foi acusado de envolvimento em superfaturamento de cachês e desvio de verbas de emendas parlamentares destinadas ao pagamento de eventos. Negou as acusações, renunciou ao cargo e voltou à Assembleia Legislativa.

"O Tribunal de Contas do Estado reconheceu a lisura da minha gestão", disse. Continuam tramitando na Justiça duas ações por improbidade administrativa. Em uma delas o deputado entrou com recurso extraordinário, no Supremo Tribunal Federal, questionando o foro competente. Em outubro do ano passado o ministro Ricardo Lewandovski não acatou o recurso. "Confio que a Justiça vai comprovar minha inocência", afirmou.

Nas quatro vezes em que esteve com o presidente Jair Bolsonaro, na companhia de outros deputados, o vice-líder do PRB o viu como "uma pessoa simples, bem-intencionada, mas sem compreender ainda o seu tamanho institucional". O PRB "está unido com o governo no apoio à agenda do desenvolvimento", disse. "Bolsonaro ainda está aprendendo a ser presidente, e precisa melhorar na relação com o Congresso e as instituições, o que acredito que fará." Sobre a turbulência que atinge o ministro da Justiça, Sérgio Moro, disse achar "graves" os diálogos a ele atribuídos pelo site The Intercept Brasil. Nas contas do vice-presidente da comissão especial, a reforma da Previdência será aprovada, no plenário, por "entre 325 e 335 votos".

Ali por 9 horas, Sílvio Neto e Luiza acordam, de pijamas, e vão para a sala abelhudar o pai. Ele os abraça, faz festa, explica que está dando uma entrevista, e logo os despacha, de boa. "Às vezes, eu foco demais no trabalho", disse, depois, já a caminho da casa institucional de Rodrigo Maia, para mais uma reunião de articulação dos conchavos. Mesmo no começo do mandato, Sílvio Costa Filho não faz mistério sobre suas pretensões políticas: quer disputar o governo de Pernambuco em 2022. "Terei 40 anos, e a experiência de cinco mandatos", disse. 

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Estadão
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