Derrota nas urnas vira combustível para boicotes, demissões e agressões de bolsonaristas contra petistas
Especialistas apontam que hostilidade após resultado eleitoral é alimentada por anos de mobilização política e estratégias nas redes sociais
A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições ultrapassou o campo da disputa política e passou a repercutir nas relações de trabalho, no comércio e na convivência social. Na última semana, políticos e influenciadores digitais bolsonaristas passaram a defender a demissão de trabalhadores que votaram no petista, a recusa de contratação de profissionais identificados com o partido e o boicote a estabelecimentos comerciais.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
O movimento também foi acompanhado por episódios de violência e hostilidade. Entre sábado, 24, véspera do segundo turno, e terça-feira, 27, 48 horas após o encerramento da votação, foram registradas dez mortes por violência com motivação política no Brasil, segundo dados apresentados pelo governo federal em coletiva na quarta-feira, 28.
A dimensão dos casos de hostilidade também aparece nos registros do Ministério Público do Trabalho (MPT). Das 2.177 denúncias de assédio eleitoral recebidas pelo órgão este ano, mais de 530 foram apresentadas após o resultado da eleição presidencial. Em algumas publicações, a orientação para que empresários rompam relações profissionais com eleitores do PT aparece de maneira explícita.
"Você tem uma empregada que é petista? Demita! Tem um funcionário que é petista? Demita!", escreveu a vereadora de Londrina Jessica Ramos Moreno, conhecida como Jessicão (PL). Em outra publicação, a influenciadora Josiflora ampliou a orientação para outras relações cotidianas: "Não ajude petista: na fila da regulação, em pedido de emprego, em nenhum tipo de favor".
Na quinta-feira, 29, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) compartilhou nas redes sociais o vídeo de uma empresária que relatou a perda de clientes após a eleição. Ao compartilhar a gravação, o deputado escreveu: “Tá chateada porque direita não vai mais no seu comércio? Democracia? Concordo, as pessoas são livres pra não irem mais”.
Para especialistas ouvidos pelo Terra, as manifestações não podem ser compreendidas apenas como uma reação imediata à derrota eleitoral. O fenômeno envolve mecanismos de identificação coletiva, discursos de hostilidade contra adversários e estratégias de mobilização política que já estavam presentes antes da votação.
O psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Christian Dunker, avalia que a retaliação reproduz a linguagem de confronto utilizada durante a campanha e nas redes sociais. Segundo ele, a postura de lideranças políticas diante da derrota também influencia a maneira como os apoiadores elaboram o resultado.
"Um líder que, vamos dizer assim, não aceita a derrota, que se evade, que mostra hostilidade nas cartas, nas declarações públicas, contra o próprio processo, que não aceita as regras do jogo, ele vai mandar essa mensagem para aqueles que estão elaborando a perda", afirma.
Na avaliação de Dunker, a lógica de tratar adversários como inimigos, e não como grupos com posições políticas diferentes, contribui para que a disputa eleitoral seja transportada para outras dimensões da vida. O boicote comercial, nesse contexto, passa a funcionar como instrumento de retaliação.
"Aquele discurso que tem como retórica fundamental a guerra, ele não pretende derrotar adversários, mas eliminar inimigos", diz Dunker.
Mobilização política nas redes
A possibilidade de as manifestações serem resultado de uma mobilização organizada, e não apenas de iniciativas individuais, também é apontada pelo cientista político Rangel Ramiro Ramos, professor da Escola de Educação e Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Ele avalia que as ações fazem parte de um processo de mobilização digital construído ao longo dos últimos anos pelo bolsonarismo. Segundo o pesquisador, a circulação de mensagens semelhantes e a atuação de influenciadores ajudam a organizar manifestações que podem parecer espontâneas.
"Não dá para a gente ser ingênuo e achar que isso é de repente só uma reação de uma situação eleitoral. Não, isso faz parte de um modus operandi. Uma forma como o bolsonarismo sempre tratou a política e sempre mobilizou o ativismo digital", afirma.
Ramos cita o astroturfing, estratégia de comunicação utilizada para produzir a aparência de apoio popular espontâneo a uma determinada pauta. A técnica pode envolver a mobilização de diferentes perfis e grupos para ampliar a circulação de uma narrativa e estimular a adesão de outras pessoas.
"Existem trabalhos que comprovam isso, a minha própria pesquisa de mestrado, doutorado, mostra quais são os métodos, as estratégias discursivas que o bolsonarismo utiliza para orquestrar as narrativas, para mobilizar o ativismo", enfatiza.
Pertencimento e dificuldade de aceitar a derrota
Outro fator apontado pelos especialistas é o sentimento de pertencimento a um grupo político. Para Dunker, a identificação coletiva pode transformar a derrota eleitoral em uma sensação de perda de espaço social, fazendo com que o grupo atribua a outros a responsabilidade por sua própria insatisfação.
"A dificuldade de aceitar a derrota, porque a derrota nesse contexto significa uma espécie de autoeliminação", afirma. Segundo o psicanalista, quando a divergência passa a ser interpretada pela lógica de que não existe espaço para todos, a exclusão do adversário aparece como uma forma de recuperar o próprio pertencimento.
Ramos também identifica esse mecanismo, mas ressalta que o sentimento de identificação não explica sozinho as manifestações. Para ele, existe uma mobilização política que utiliza esse vínculo coletivo para estimular atitudes contra pessoas que não compartilham da mesma visão de mundo.
"É, sim, fruto de um sentimento de pertencimento, mas mais do que isso, é um sentimento de pertencimento orquestrado na direção, de forma profissionalizada, na direção de uma aquisição de poder, manutenção de poder a qualquer custo, em detrimento da lei".
O professor também relaciona a hostilidade à construção de uma divisão entre grupos considerados aliados e adversários. Segundo ele, determinadas narrativas políticas passam a associar um grupo à ideia de bem e outro à ideia de mal, dificultando a convivência e o diálogo.
Na avaliação de Ramos, a mobilização não surgiu com o resultado das urnas. A derrota eleitoral apenas tornou mais visível uma dinâmica que já vinha sendo construída por meio de discursos políticos e estratégias digitais ao longo de mais de uma década.

Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.