Crise sem precedentes no STF muda discursos de campanhas e pode inflamar atos de 7 de Setembro
Revelação de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, cria novo elemento para a disputa eleitoral
A crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou uma nova dimensão na última semana e passou a produzir efeitos também no cenário eleitoral. A revelação das mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro dono do banco Master Daniel Vorcaro provocou mudanças no discurso de boa parte das campanhas presidenciais e pode inflamar os atos previstos para esta segunda-feira, 7 de Setembro.
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Embora exista, por parte de alguns analistas e cientistas políticos consultados pelo Terra, uma baixa expectativa em relação à adesão à manifestação por parte da população, que tem demonstrado em diversas pesquisas um certo cansaço e resignação com o atual clima de polarização no País, as revelações sobre Moraes foram incorporadas ao discurso de alguns candidatos de oposição, que esperam que isso dê um novo impulso à mobilização nas ruas.
Flávio Bolsonaro (PL), que fez a convocação para o ato que ocorrerá na Avenida Paulista, a partir das 15h, Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo), defenderam na última semana a abertura de um processo de impeachment contra Moraes.
“Se realmente [os atos de 7 de Setembro] reunir multidão, pode ter um peso, pode empurrar, talvez, o presidente do Senado [Davi Alcolumbre] a tomar alguma postura, alguma decisão”, sugere o cientista político José Paulo Martins Júnior, professor do departamento de ciência política da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Para Martins, no entanto, a insatisfação com o Supremo ultrapassa a figura de Moraes e está relacionada a uma crise mais ampla de credibilidade da Corte. “O Alexandre de Moraes é só um sintoma aí de uma uma situação que vem se arrastando há muito tempo, que é um Supremo extremamente poderoso”, afirmou.
O cientista político e professor do Insper Leandro Consentino avalia que as revelações podem aumentar a disposição dos grupos de direita para participar dos atos, mas considera difícil que a mobilização ultrapasse o eleitorado já alinhado ao bolsonarismo. “Acho que certamente tem um poder de influenciar nos atos de 7 de setembro. Mas não sei se de fato vai reunir muita gente, para além das próprias bolhas.”
Para Consentino, o tamanho das manifestações será determinante para medir o alcance político da crise. Segundo ele, uma adesão concentrada só entre os bolsonaristas teria impacto limitado, enquanto uma eventual participação de outros segmentos da população poderia alterar a leitura sobre os atos.
Moraes no centro da crise
O relatório da PF aponta contatos entre Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e um número atribuído a Moraes. As mensagens analisadas pela PF e que vieram à tona na terça-feira, 1º, mostram que Vorcaro teria buscado a ajuda do ministro para lidar com o avanço das investigações contra ele no escândalo Master.
Em uma das conversas, o banqueiro menciona a necessidade de obter a “proteção” de “Andrei” e “Paulo”. Segundo os investigadores, as referências seriam ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. O conteúdo levou o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, levantar o sigilo e encaminhar análise para o plenário do STF.
A investigação também cita mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes nos dias que antecederam a prisão do banqueiro, em novembro de 2025. Segundo os registros, Vorcaro chegou a perguntar ao ministro se deveria deixar o país. A PF também identificou pedidos de encontros para tratar dos negócios que deram origem à investigação.
Segundo a PF, além dos pedidos de proteção, Vorcaro ofereceu uma série de vantagens financeiras a Moraes e a familiares, incluindo contratos milionários de honorários advocatícios, proposta de transferência de cotas de um jato e de um helicóptero, além do pagamento de viagem internacional e experiências de luxo.
A investigação descortina ainda a relação financeira entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O escritório teria firmado contrato para receber 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos.
Segundo a investigação, o nome de Alexandre de Moraes aparece nos metadados de duas versões da minuta do contrato. A interpretação da PF é de que há indícios de que o usuário de Moraes tenha sido utilizado para editar os arquivos no computador.
O ministro Alexandre de Moraes e o escritório de sua esposa foram procurados pelo Terra para comentar as informações, mas não haviam se manifestado. A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não comentaria.
O contra-ataque de Moraes
A crise escalou na quinta-feira, 3, quando em uma petição de 20 páginas encaminhada ao presidente do STF, Edson Fachin, Moraes questionou a atuação de Mendonça na relatoria das operações Sem Desconto e Compliance Zero. Moraes utilizou o inquérito das Fake News, que ele é relator e foi aberto por ofício em 2019 pelo ministro Dias Toffoli, para acusar Mendonça.
No documento, o ministro sustenta que houve quebra da imparcialidade judicial e favorecimento a determinados grupos políticos. Entre outros pontos apresentados por Moraes estão acusações de usurpação da direção das investigações policiais, condução irregular de tratativas relacionadas à colaboração premiada e direcionamento de alvos para investigação por motivos pessoais e políticos.
O ministro também afirma que Mendonça teria indicado previamente medidas cautelares a serem apresentadas pela Polícia Federal. Moraes cita o artigo 102 da Constituição Federal, o artigo 33 da Lei Orgânica da Magistratura Nacional e o artigo 5º do regimento interno do Supremo ao pedir providências contra o colega.
No início da noite de quinta, o presidente do STF, Luiz Edson Fachin, determinou que Moraes, Mendonça, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, apresentem manifestações no prazo de cinco dias. O prazo termina na sexta-feira, 11. Ao comentar sobre o caso, na sexta, 4, Fachin afirmou que os fatos "graves" da "crise Master" que atinge a Corte estão em apuração. Disse ainda que fará o que “é certo no tempo e pela forma que a ordem jurídica exige".
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não havia se pronunciado sobre as revelações das conversas entre Moraes e Vorcaro na terça e quarta, por sua vez, publicou um vídeo na quinta-feira pedindo investigação ampla do caso, “sem blindagem”. Na sexta, ao discursar durante cerimônia no Palácio do Planalto, o petista voltou a defender uma reforma no Poder Judiciário e afirmou que pretende discutir mudanças na estrutura da Justiça brasileira ao longo do próximo ano, se for reeleito.

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