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'Alemão vive medo diário’, diz líder do Voz da Comunidade

Tiroteios entre policiais e traficantes se tornaram constantes na comunidade, ocupada por forças de segurança desde 2010

10 jul 2015
10h49
atualizado às 16h18
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A rotina dos moradores do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, tem sido de tensão e medo há meses. Os tiroteios envolvendo policiais e traficantes, como relatam os moradores, já fazem parte do cotidiano da população. O último registro aconteceu na noite de terça-feira, quando muitos tiveram que esperar cessarem os disparos para chegar em casa após um dia de trabalho.

Rene Silva, editor-chefe do Voz da Comunidade
Rene Silva, editor-chefe do Voz da Comunidade
Foto: Divulgação

Vídeo feito pelo repórter Beto Casas Novas, do jornal Voz da Comunidade, mostra momentos de apreensão dos moradores, que se veem cada vez mais cerceados no simples direito de circular entre sua casa e o trabalho. O Terra conversou com o editor-chefe do Voz da Comunidade, Rene Silva, 21 anos.

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Articulado, Rene ficou conhecido em todo o Brasil por transmitir praticamente ao vivo a cinematográfica ocupação do Alemão pelas forças de segurança, em novembro de 2010. Hoje ele não tem dúvidas em dizer que o dia a dia da população está pior. “O Alemão está em guerra”, decreta o jovem.

Confira a entrevista na íntegra:

TERRA: Como foi esse tiroteio recente, gravado pelo repórter do Voz da Comunidade? Eles têm sido cada vez mais rotineiros?

Renê Silva: A gente não sabe bem o que aconteceu nesse tiroteio específico. O fato é que a polícia tem feito várias intervenções nos becos e em lugares delicados da comunidade, o que eu acho um erro muito grande. É uma estratégia burra pra tentar combater o tráfico. Entrar nos becos não é a solução.

TERRA:  Por quê?

Renê: Tem um beco onde moram mais de 200 pessoas, e a polícia chega atirando. O que você acha que pode ser bom nisso? Claro que a polícia vai atirar a esmo. Por isso acontece tanto de moradores inocentes serem baleados. São tantos casos todos os dias que a gente não sabe o último. Não me lembro do último (tiroteio em que houve feridos). Esta semana, por exemplo, está tensa. Julho está agitado. É uma estratégia da polícia, de colocar mais polícia achando que vai mudar alguma coisa. Pelo contrário, só piora a situação.

Operação da Polícia Militar no Complexo do Alemão no dia 22 de junho
Operação da Polícia Militar no Complexo do Alemão no dia 22 de junho
Foto: Daniel Amaral / Futura Press

TERRA: Vocês sentem medo, temem sair de casa? É um sentimento pontual ou o medo também já faz parte do dia a dia?

Renê: Hoje a situação no Alemão é de um medo diário. Não é uma coisa de pensar: ‘hoje dá, hoje não dá’ (para andar sem ter receio de ser ferido). Aquela cena (do vídeo) que vocês viram de pessoas chegando do trabalho, esperando os tiros, são cenas do cotidiano. Justo naquele dia o Betinho (repórter) resolveu ir para a rua para fazer imagem. Mas elas se repetem todos os dias, em vários pontos da comunidade. E sai na mídia só quando acontecem mortes, quando tem brutalidade maior. As pessoas não conseguem viver tranquilamente, não conseguem sair pra trabalhar.

TERRA: Mas é sempre com a polícia envolvida?

Renê: Instalar cada vez mais polícia na comunidade é muito complexo. Como eles vão dizer que é por mais segurança que estão fazendo isso se cada vez que põem mais polícia tem mais tiroteio e mais violência? Não sabemos que tipo de segurança eles propõem. Os moradores já fizeram reunião com representantes do governo. Todos já disseram que colocar mais polícia não é a solução. O que tem que ser pensado é a longo prazo, e não a curto prazo. É investir em educação, cultura, saúde, em tantas outras coisas... Tem que se repensar o conceito de segurança. Se você perguntar hoje para moradores do Complexo como eles se sentem, eles sabem que hoje a tecnologia ajuda muito. A internet ajuda a comunicação dos moradores para saber por onde subir, se vão ter que ficar assistindo (os tiroteios) como se fosse um filme pra depois entrar em casa, essas coisas.

TERRA: Qual a diferença da comunidade hoje em relação àquela de antes de 2010, ocupada na mega operação das forças de segurança?

Renê: A diferença era que antes não tinha tiroteio todos os dias como agora tem. A gente ficava muitos dias sem ver isso. No primeiro ano (da ocupação), quando ainda estava lá a força de pacificação do Exército , até que havia uma comunicação melhor com a comunidade, uma identificação, e não tinha tanto abuso de poder, tantos tiroteios. Pelo menos até ali naquele primeiro ano não era uma rotina. Houve um momento de esperança e transformação. Mas depois voltou ao que é hoje.

TERRA: O Alemão está em guerra?

Renê: Está sim. Quando eu vejo essas guerras na Faixa de Gaza ou em qualquer lugar do mundo, fico olhando e vendo o desespero das pessoas, o choro das mães, e fico imaginando a guerra mesmo. É uma guerra. A sociedade e a própria imprensa não veem como guerra o que acontece no Alemão. Veem que é um processo de pacificação. As pessoas não sabem como a violência afeta a vida dos trabalhadores. Pensa bem: a pessoa que trabalha na casa da madame em Copacabana. Ela vai render bem no trabalho ao sair de casa já ouvindo tiros? Isso muda o cotidiano no trabalho, na escola. Imagina você ouvir tiroteios de dentro da sala de aula.

TERRA: Vocês conseguem retratar os fatos com muito mais rapidez que a imprensa. Você se vê lá na frente fazendo parte de uma história. Acham que ajudam realmente os moradores?

Renê: Eu acredito que, antes de tudo, ajudamos muito mais a grande mídia a enxergar como as coisas estão acontecendo. O Voz da Comunidade é hoje um dos maiores veículos de comunicação de comunidades que existem. Só no Facebook são 40 mil seguidores. A grande imprensa pensa: ‘se tem tanta gente falando no Twitter, no Facebook, por que a gente também não vai dar (a notícia)?

TERRA: Qual sua avaliação sobre as UPPs?

Renê: Eu acho que é preciso pensar mais em políticas públicas reais e menos em polícia como forma de pacificar. Tem outras formas de se construir a paz, como a cultura, o esporte e o lazer. É isso que as pessoas estão buscando. Antes não se tinha tantas mortes de inocentes como hoje. A gente vive esse momento em que o próprio comércio, a comunidade e o turismo perdem muito.

TERRA: Vocês já se sentiram cerceados no trabalho de vocês?

Renê: Não. Nunca tive nenhum problema com a comunicação. A gente sempre falou à vontade. Não há problema nem com o tráfico, nem com a polícia. A gente não fica falando sobre a polícia ou o tráfico. Só falamos sobre a real questão do morador. A gente procura outro olhar, que não é sempre buscado pela mídia tradicional. O que a mídia faz? Busca a nota (oficial) da UPP, faz imagens do tiroteio e pronto. O que a gente busca? Que os moradores tenham sua voz, que possam falar por si.

TERRA: Vocês recebem denúncias de outras comunidades com UPPs?

Renê: Sim, bastante. Quando tem uma mídia olhando só para um lugar você acaba tendo cada vez mais credibilidade. Foi o que a gente conquistou. Temos contato com a Rocinha, com outras comunidades do Rio e também temos um portal de notícias, o Voz das Comunidades, em que temos correspondentes de várias outras comunidades. Já temos correspondentes em alguns lugares do Brasil e, em breve, vamos ter um correspondente em cada Estado. 

 

Fonte: Terra
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