Milicianos controlavam conjunto de 23 prédios no Rio
Um conjunto habitacional de 23 prédios em Anchieta era o símbolo do poder da milícia considerada a mais forte e bem armada do Estado. Pertencente à Caixa Econômica Federal, o condomínio Parque Esperança foi invadido em 2006, antes da conclusão das obras, e logo depois foi tomado pelos paramilitares. Segundo investigações da Polícia Civil, o grupo teria lucrado pelo menos R$ 1,750 milhão só com a venda dos imóveis.
Nesta quinta-feira, uma operação que contou com 200 agentes de 10 delegacias - batizada de Leviatã 2 - ocupou os edifícios e desarticulou a quadrilha, denominada Águia de Mirra. Quinze pessoas foram presas, entre elas dois advogados e dois policiais militares.
Segundo o delegado Cláudio Ferraz, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE), o grupo, que controlava 23 comunidades nas zonas Norte e Oeste do Rio e na Baixada Fluminense, era comandado de dentro da Penitenciária Lemos de Brito, em Bangu, pelo ex-PM Fabrício Fernandes Mirra, preso ano passado. Na rua lateral aos edifícios, um paiol foi estourado próximo ao Ciep Aníbal Machado, que teve que ser esvaziado.
"É assustador. Chegamos a constatar um domínio de mais de 23 comunidades, além de volume enorme de crimes de sangue, de homicídios praticados por esse bando. O que mais chamou a atenção na investigação foi a violência e a maneira com que trabalhavam para expandir os negócios. Já tinham até pretensões políticas e planejavam lançar um candidato a deputado estadual", afirmou Ferraz.
De acordo com as investigações, os milicianos tomaram o conjunto e venderam cada um dos 350 apartamentos por R$ 5 mil, mas hoje já negociavam os imóveis por R$ 15 mil e R$ 20 mil. Moradores também eram obrigados a pagar R$ 100 de condomínio e uma taxa de R$ 10 a R$ 15 por mês. "Com o lucro da venda dos apartamentos, adquiriram bens e também investiram na compra de armas e equipamentos para o bando", disse Ferraz.
Além da suposta segurança, os milicianos cobravam pelo sinal de TV por assinatura clandestina e internet. Moradores eram obrigados a assinar fichas de "adesão e contribuição". As mensalidades eram cobradas pela associação de moradores. Já com os comerciantes o acerto era semanal e a taxa, paga a um cobrador. Segundo Ferraz, a quadrilha começou a agir em Itaguaí - alvo da Leviatã 1 - e funcionava como uma empresa, contratando civis com ficha limpa para atuar no crime.
A operação tinha como objetivo cumprir 31 mandados de prisão. Entre os foragidos há três ex-PMs. Preso ontem, Marcos da Silva Rocha, o Bicudo, 36 anos, era considerado um importante alvo. Ele é irmão de Fabiano Vieira Rocha, o Fabinho, que não foi capturado e seria lançado candidato a deputado estadual ano que vem. O fugitivo entrou com uma ação na 22ª Vara Federal, com apoio de um defensor público, para disputar judicialmente o terreno com a Caixa Econômica Federal, que informou que ingressou com pedido a reitegração de posse dos imóveis. Por todos os lados do conjunto havia cartazes de distribuição de cestas básicas e faixas de homenagens ao Dia das Mães assinados por "Fabinho, o amigo da comunidade".
Fabinho e Bicudo são apontados como homens de confiança de Mirra. Juntos chefiavam 16 comunidades. O ex-PM Adilson de Andrade Peçanha, também foragido, é acusado de ser o segundo na hierarquia do bando. Entre os preso ontem está o ex-cabo do Bope Nilson Santos Teixeira, o Orelha, que seria responsável pelo armamento da quadrilha.
O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, elogiou a operação e afirmou que as investigações para combater milicianos são prioridades. "Nós estamos no mês de maio e já estamos com 67 presos. Enquanto que, em 2008, durante todo ano, nós tivemos 78. Em 2007 foram 21 e em 2006, cinco", listou. "Agora é um caminho sem volta. A tendência é que outras investigações já em andamento tenham o mesmo resultado", concluiu o chefe de Policia Civil, Allan Turnowski.
Paiol de armas
Enquanto vasculhavam o conjunto habitacional, policiais receberam a informação de que haveria milicianos escondidos no Ciep Aníbal Machado, ao lado do Parque Esperança. Quando chegaram à escola, os alunos foram imediatamente liberados. Houve gritaria e alguns estudantes deixaram a unidade chorando. Mas os agentes nem chegaram a entrar no Ciep.
Na mesma rua, foi descoberto um paiol de armas sob o forro das telhas de uma casa: duas escopetas, metralhadora, três pistolas, três revólveres e granada. "Essa casa é o que chamamos de espirro. Quando tem operação, é para cá que eles fogem para esconder o armamento", contou Ferraz.
No local, os agentes também encontraram controles de pagamentos em nome de moradores da comunidade Cova da Onça, com a seguinte inscrição: "colaborando em dia com sua mensalidade, você terá direito à paz". Os milicianos ditavam regras em cartazes colados nos blocos dos prédios. É proibido, por exemplo, deixar lixo na porta dos apartamentos, ficar sentado nas escadas e crianças correndo pelos edifícios. No Bloco 10 havia cartaz com o "ok" dado aos apartamentos que contribuíram com R$ 8,60 para o calçamento da via.
Enquanto checavam informações em alguns apartamentos, cinco pessoas foram presas em flagrante, entre elas um adolescente de 16 anos. Com elas os policiais encontraram armas, cartazes e anotações da contabilidade do bando. A operação da Draco também se estendeu ao Morro do Dezoito, em Quintino, outro reduto na milícia Águia de Mirra. Segundo as investigações, o grupo passou a dominar esse morro em 2008, meses antes da tentativa de invasão de traficantes do Comando Vermelho, vindos do Morro da Mangueira.