Guerra do tráfico toma dois bairros da zona norte do Rio
A guerra entre traficantes rivais deixou acuados moradores, parou o trânsito e manchou de sangue, nessa quarta-feira, as ruas de dois bairros da zona norte. Em Vicente de Carvalho, moradores dos arredores do Morro do Juramento enfrentaram 11 horas de pavor, com tiroteios que atravessaram a madrugada, deixaram 1,8 mil crianças sem aulas, fecharam parte do comércio, interditaram a avenida Pastor Martin Luther King e resultaram em pelo menos quatro mortes. Em Bonsucesso, a disputa por pontos de vendas de drogas na Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré, interrompeu o trânsito na Linha Amarela. Bandidos em fuga sequestraram um ônibus da linha 497 (Cosme Velho-Olaria) na Avenida Brasil, enquanto dentro da favela, sete pessoas de uma família ficaram reféns de seis bandidos, que foram cercados e presos. Mais cinco homens teriam morrido em confronto.
Entre os mortos na Maré está um homem que tinha obtido da Justiça o benefício da liberdade condicional há menos de duas semanas. No dia 5, João Ferreira de Almeida, 53 anos, o Kito do Timbau, voltou às ruas.
A guerra no Juramento apavorou moradores da Vila da Penha. "Aqui ninguém dormiu. Era tanto tiro que não sei onde eles arranjam tantas balas", desabafou uma moradora. Outro morador, que também não quis se identificar, emendou: "não se pode andar mais na cidade. De dia, de noite, de madrugada, estamos cercados por marginais que parecem se multiplicar". O tráfego de veículos na Avenida Martin Luther King Júnior chegou a ser fechado por duas vezes. Motoristas deram ré ou voltaram na contramão. Carros e motos foram abandonados na pista. Motoristas e pedestres correram para fugir dos tiros.
Entre 8h55 e 9h05 o pânico aumentou, quando traficantes do Juramentinho, dominado pela facção Comando Vermelho, passaram a atacar os PMs que desciam a escadaria com um bandido ferido para ser colocado no blindado e levado ao hospital. Os policiais reagiram e, na troca de tiros, dois cinegrafistas (um da Band e outro da Record), além de um cabo do 9º BPM, foram feridos por estilhaços de bala nos braços e pernas.
O terror começou ainda no fim da noite de terça-feira, quando cerca de 40 bandidos do Complexo da Penha, da Cidade de Deus, de Manguinhos e de Antares, da facção Comando Vermelho (CV), em carros e um caminhão-baú, tentaram invadir o Juramento, dominado por bandidos do Terceiro Comando Puro (TCP). O confronto varou a noite. E recomeçou pela manhã, quando 70 homens do 9º BPM (Rocha Miranda) entraram na comunidade para tentar acabar com a guerra. Pelo menos quatro supostos traficantes morreram. Moradores, porém, comentaram que haveria mais 15 corpos espalhados no alto da favela.
A PM apreendeu três fuzis, uma pistola, duas escopetas calibre 12, uma bomba de fabricação caseira, bolsa com grande quantidade de munição e drogas. Cinco escolas e uma creche fecharam. Uma mulher que tentava pegar o metrô na estação de Del Castilho estava em pânico: "fiquei gelada só de pensar que podia levar um tiro de bala perdida, igual aquele homem baleado na semana passada quando ia para esta estação", lembrou.
O trauma com a guerra, que já dura um mês, faz com que, mesmo quando os tiros cessam, o pavor continue nas ruas de Vicente de Carvalho. Ontem à noite, a praça que fica numa das entradas da favela estava deserta. Apenas o blindado da PM, o Caveirão, estava parado na esquina, reforçando o policiamento na área. Um empresário, que não quis se identificar, conta que mudou sua rotina. "Evito passar aqui à noite. Muito diferente do que já foi um dia", disse o morador, que tem também uma empresa em Vigário Geral. "Me sinto muito mais seguro lá", contou ele.
Arma
Na tarde de terça-feira, os policiais da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) prenderam, na Cidade de Deus, o líder comunitário Renê Pereira Afonso, 61 anos, e seus dois filhos, Renildo Rosa Afonso, 39 anos, e Daniela Rosa Afonso, 29 anos. Eles estavam com um fuzil calibre 7.62 desmontado escondido em um Ford Versailles. "A arma seria levada para o Naíba (gerente da Cidade de Deus que vive na Penha) e seria colocada na guerra do Juramento", afirmou o delegado-adjunto Maurício Demétrio.
Bando invade casa e faz sete reféns
Cerca de 20 bandidos da Vila do João, liderados por Kito e por Fernando Antônio Maciel de Souza, o Caixa D¿Água, tentaram retomar o controle da Vila dos Pinheiros por volta de 12h30. Foi quando começou um intenso tiroteio. Policiais do 22ºBPM (Maré) entraram na comunidade. A Linha Amarela ficou fechada entre 13h36 e 13h50 para evitar que inocentes ficassem feridos. Houve pânico entre motoristas, que voltaram na contramão.
Enquanto isso, os bandidos se dividiram dentro da favela. Seis deles invadiram a casa da moradora Angela Maria, que estava com os seis filhos. O Bope foi chamado e começou a negociação pela rendição. Após duas horas, Felipe Rafael da Silva, o Grilinho, saiu da casa. Ele telefonou para os comparsas e os convenceu a se entregar.
No grupo estavam Caixa D¿Água, Luciano Rocha dos Santos, o Godão, o ex-bombeiro Whygson Gonçalves, o Surfista, Rogério Francisco Santana, o Rogerinho ou Cabeleira e Michel Holanda, o Xexéu do Juramento. Com eles, havia cinco fuzis, uma granada, três pistolas, mais de mil cápsulas e drogas. Ainda nervosa, a dona da casa perguntou aos policiais: "eu estou presa?".
Ônibus sequestrado para favela
Na guerra da Maré, outros traficantes saíram da favela pela avenida Brasil. Na fuga, obrigaram motoristas de uma Kombi a levar os corpos de Kito e Quequéu para a UPA da Maré. Na pista lateral, altura da Fundação Oswaldo Cruz, quatro criminosos invadiram o ônibus da linha 497 com 30 passageiros. Desesperado, o passageiro Nicolau do Carmo Araújo pulou da janela para fugir . Ele sofreu escoriações e foi levado para o Hospital Geral de Bonsucesso (HGB), onde foi atendido e liberado.
O motorista foi obrigado a levar o veículo para dentro da Vila do João. Os traficantes desceram, assim como os passageiros. Em seguida, segundo testemunhas, um outro homem armado apareceu e deu a ordem para que o ônibus fosse liberado. Os passageiros também puderam sair da comunidade. "Fiquei apavorado ao ver as armas apontadas para minha cabeça. Foi sinistro. Apesar de já ter passado por situações parecidas. Não tive o que fazer, senão obedecer", contou Delcir José. Já com o veículo de volta à Av. Brasil, o BPVE interceptou o ônibus e o levou à 21ªDP.
De volta às ruas desde o dia 5, quando conquistou a liberdade condicional, Kito pegou ontem um fuzil e liderou a tentativa de retomada do território perdido pela facção Amigos dos Amigos (ADA) para o bando liderado por Nei da Conceição Cruz, o Facão. O criminoso é mais um da lista de chefões do tráfico que ganharam direito de sair da cadeia e voltaram a aterrorizar as ruas do Rio. Facão obteve o benefício de cumprir a pena em regime semiaberto em abril e não voltou mais para a prisão. Além de Kito, apenas Kléber Reis dos Santos, o Quequéu, havia sido identificado até a noite. Segundo a PM, mais três corpos permaneceram dentro da favela.