Granadas usadas em assaltos no Rio teriam único "fabricante"
Antes encontradas apenas nos paióis de traficantes e na guerra entre bandidos e policiais, as granadas ganharam, no Rio de Janeiro, a condição de "arma de rua", usadas em assaltos e ameaças a cidadãos. Segundo especialistas do Esquadrão Antibombas da Polícia Civil, as bombas são feitas pela mesma pessoa, porém, ainda não há pistas sobre quem seria.
"Os bandidos já perceberam que o terror que uma granada causa na vítima é bem maior do que o provocado por uma arma de fogo. A bala é direcionada, já o explosivo pode fazer com que tudo vire poeira em segundos", alerta o chefe do Esquadrão Antibombas, inspetor João dos Santos.
Em dois meses, bandidos armados com granadas assaltaram cinco prédios, dois restaurantes e um hotel, na zona sul. Imagens gravadas pelos circuitos de segurança de três lugares mostram que artefatos eram artesanais ou não letais transformados em defensivos - tipo que explode e lança estilhaços.
Para o inspetor Luiz Fernando Tinoco, que atua há 15 anos no esquadrão, parte da dificuldade para combater a proliferação de granadas está na falta de lei especifica que regulamente a compra de explosivos. "Não há controle na venda de pólvora no País. Qualquer pessoa compra fogos de artifícios, por exemplo. É só desmontar e usar a pólvora para fazer um artefato caseiro", adverte.
No ano passado, a polícia apreendeu 1,4 mil granadas - 800 caseiras e 600 bélicas - no Estado. Todos os dias, pelo menos cinco são encontradas no Rio de Janeiro. Dessas, quatro são artefatos caseiros com características de granada defensivas e estão espalhados pela cidade.
"Hoje, apreendemos o mesmo tipo de artefato caseiro em todas as favelas do Rio, independente da facção. Todos possuem o mesmo estilo, como se fosse a assinatura do fabricante, o que indica que são produzidos pelo mesmo indivíduo", afirma Tinoco. Artefatos são feitos fora de favelas com pólvora e pedais de bicicleta.
O visual cada vez mais "sofisticado" das granadas artesanais tem chamado a atenção dos policiais civis. Os primeiros modelos eram feitos de tubo de PVC. Há cerca de um ano, no entanto, o "fabricante", que não para de desafiar a polícia, passou a fornecer também artefatos caseiros feitos de pedaleira de bicicleta. Além de armazenar melhor a pólvora, o novo modelo tem aparência mais ameaçadora que os de PVC.
"Há cinco anos encontramos as primeiras granadas feitas com pedaleiras no Rio, mas notamos que o fabricante está evoluindo e procurando fazer modelos cada vez mais parecidos com as granadas bélicas", explica o inspetor Tinoco.
A mudança mais recente foi a tampa, conhecida como capacete. Em alguns artefatos, as peças, fabricadas em metal, são idênticas às das granadas industriais. Por isso, a polícia acredita que o "fabricante" possua máquinas para produzir as peças ou tenha algum fornecedor que as desvia de indústrias.
Ao contrário da droga que é misturada e embalada dentro das favelas, os inspetores asseguram que as bombas não são feitas nos morro do Rio. "Até hoje não houve grande quantidade de pólvora apreendida em nenhuma favela. Para produzir tantas granadas, é necessário que o fabricante disponha, pelo menos, de um bom estoque. Sem contar que os artefatos estão em favelas de diferentes facções", ressalta o policial.
Em média, cada granada caseira é capaz de destruir num raio de até 10 m, podendo ferir gravemente ou até matar. Elas produzem até 40 estilhaços, mas essa quantidade pode ser maior ou menor, pois não há controle da produção, ao contrário do que ocorre na indústria. O tempo de detonação após o pino ser retirado varia de um a dois segundos. Nas granadas bélicas, vai de três a quatro segundos.
Segundo a polícia, assim como acontece com as armas, traficantes alugam granadas para assaltos. Neles, vale tudo para aterrorizar as vítimas, até transformar granada industrial não letal em letal, colando pregos e bolas de gude no artefato.