"O césio destruiu toda a minha família", diz sobrevivente da tragédia
- Mirelle Irene
- Direto de Goiânia
Um culto ecumênico realizado na manhã desta quinta-feira reuniu autoridades, profissionais de saúde e vítimas do acidente com o césio 137, que na data de hoje completa 25 anos. A cerimônia aconteceu ao lado do prédio onde funciona o Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara), atual nome da ex-Fundação Leide das Neves, criada em 1988 para monitorar e prestar assistência às vítimas da tragédia radioativa.
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Ainda que presentes em número muito reduzido, as vítimas que compareceram ao evento se emocionaram ao lembrar dos dias difíceis que passaram a partir de 1987, quando o césio entrou em suas vidas. Alguns perderam parentes, outros foram contaminados durante o trabalho ou porque manusearam fragmentos do material radioativo. Quase todas têm sequelas físicas e até psicológicas.
A maioria denuncia a falta de preparo com que as autoridades da época lidaram com o problema e reclamam da discriminação que sofreram e sofrem até hoje. A seguir, as histórias de alguns dos personagens do que é considerado o maior acidente radioativo do Brasil."Meu bebê morreu por causa da radiação"
Para a ex-telefonista Miriam Mota Moreira, 53 anos, o 13 de setembro traz lembranças muito doloridas. "Esse dia para mim traz muita amargura", revela. Na época da abertura da cápsula contendo o césio 137 ela tinha 27 anos e trabalhava como telefonista da empresa estatal goiana que removia os rejeitos radioativos, o Crisa, e estava grávida de dois meses do primeiro filho.
Sete meses depois a criança nasceu, mas morreu em seguida devido a má formação no cérebro e no coração. Segundo Miriam, exames comprovaram que foi uma consequência da exposição dela a radiação. A contaminação teria acontecido ao ter contato não protegido com técnicos, policiais e outros trabalhadores que manuseavam objetos ou rejeitos irradiados. "Tinha que descer ao local onde eles estavam para chamá-los ao telefone, quando precisava. Não tinha rádios, tinha que ir lá caminhando. Eu era a única telefonista mandada pela empresa para trabalhar na rua 57, onde a cápsula foi aberta", conta.
Segundo Miriam, quando direcionada para a função, ela não sabia que trabalharia com material radioativo. "Eles (os chefes) não quiseram contar. Contei para o meu chefe que estava grávida e ele disse que não teria problema nenhum. Não usei roupa especial e nenhuma proteção", conta. Miriam recebe pensão de um salário mínimo do Estado, mas não pretende entrar na Justiça para conseguir indenização, desanimada pela demora que outras vítimas sofrem ao tentar recebê-la. "Qualquer benefício recebido jamais vai trazer o meu bebê de volta", disse.
"Disseram que íamos trabalhar com um vazamento de gás"
Mecânico de máquinas pesadas, Teodoro Juvenal Neto, 62 anos, trabalhou na manutenção de escavadeiras e outros equipamentos usados na remoção dos rejeitos radioativos do césio 137. Na época, a diretoria do Crisa informou a ele e aos outros servidores que se tratava apenas de um vazamento de gás. "Ninguém sabia o que era de verdade. Trabalhávamos com o macacão da empresa, sem roupa especial", disse o aposentado, que na época tinha 37 anos.
"Comíamos lá mesmo, não tínhamos assistência. Era para ter", reclama. Teodoro também trabalhou por dois anos na construção do depósito onde os rejeitos estão, em Abadia de Goiás, também sem proteção. Segundo o mecânico, ele foi acometido por doenças após trabalhar na tragédia. "Antes, trabalhei 20 anos sem levar um atestado médico para a empresa. Depois, a saúde acabou", disse. Teodoro diz que todos os dentes da sua boca caíram e que teve que operar os olhos por causa de transtornos na visão.
"Tive que entrar na Justiça para conseguir fazê-las. O governo não via a gente como vítima", disse, se referindo aos trabalhadores que prestaram serviços durante a fase crítica do acidente. Teodoro recebe pensão do governo estadual, mas reclama que não consegue remédios junto ao poder público. "Tem remédio que custa R$ 700,00 a caixa", reclama. Ele informa que entrou na Justiça para ser indenizado por suas sequelas.
"O césio destruiu toda a minha família"
Dona Maria Abadia Motta, 84 anos, não consegue segurar as lágrimas ao lembrar da neta, a pequena Leide das Neves, a primeira vítima do césio, que morreu com apenas 6 anos, ao ingerir fragmentos do material radioativo. Maria Abadia perdeu, além dela, dois filhos: o pai da menina, Ivo, e Devair, dono do ferro-velho onde a cápsula de césio foi aberta, além da nora, Maria Gabriela, esposa de Ivo. "O césio destruiu toda a minha família. Lembrar dói muito", lamenta.
Segundo Maria Abadia, o pior foi a discriminação sofrida. "Todo mundo fugia de nós, com medo", descreve. Ela revela que também desenvolveu problemas de saúde por ter sido exposta, ainda que de longe, aos efeitos do césio. "Nunca quis chegar perto daquilo. Na época falei para meus filhos que era veneno. Eu era uma mulher sadia, mas hoje tenho muitas dores", disse.
"Dores só passam com morfina"
Márcio Pessone, 57 anos, trabalhou como mecânico do Estado na manutenção das máquinas de remoção dos rejeitos radioativos. Cinco anos depois do acidente com o césio, começou a sofrer os sintomas da contaminação com radiação. "Surgiu um caroço no ombro, e foi crescendo", descreveu ele sobre a deformidade nos ossos e no ombro.
Ele lembra que os trabalhadores não sabiam do perigo que corriam ao manusear o lixo radioativo. "Eu não sabia, a maioria não sabia. Só ficamos sabendo depois", disse. Pessone disse que teve e tem grande dificuldade para comprovar, cientificamente, que suas sequelas são em decorrência da exposição ao césio. "Passei por muitas perícias. Falam que é por causa do cigarro. Nunca admitem que foi o césio", lamenta. Ele foi aposentado por invalidez com 32 anos de idade.
O ex-mecânico acha que o poder público tem descaso com os trabalhadores que atuaram na tragédia do césio e diz que a aposentadoria que recebe do Estado - um salário mínimo - não cobre os gastos com remédios. "Eu tomo é morfina, só ela vence a dor. Eu carrego a injeção e eu mesmo aplico. Tem dia que tomo três doses por dia", revela, sobre o recurso que utiliza para fazer cessar as dores fortes que sente.
"Nunca vou esquecer a humilhação"
Para o mecânico aposentado Joaquim José da Costa Filho, 62 anos, o mais difícil de superar, além das sequelas físicas, é a humilhação decorrente da discriminação sofrida por parte da sociedade, que até hoje teme os efeitos da radiação a que as vítimas foram expostas. "Há alguns anos, estava fazendo tratamento no Hospital das Clínicas e a assistente social que atendia falou para mim que se eu não saísse de lá ia mandar os guardas me tirarem", conta chorando e emocionado.
"Nunca vou esquecer isso, é muito preconceito. Até hoje, são poucos os médicos que cuidam da gente", disse. Joaquim ficou com marcas no ombro ao transportar mangueiras no pátio das máquinas usadas na remoção dos rejeitos do césio. Os sintomas apareceram dez anos depois do acidente e incluíram atrofiamento das duas pernas. Ele ficou sem andar até ter condições de colocar próteses, há 5 anos. "Começou com sangue saindo dos meus braços, apareceu coágulos, tinha muita dor. Tive também que operar a válvula mitral do coração", descreveu.
Ele tenta conseguir uma indenização na Justiça, mas ainda não teve sucesso. Recebe pensão do Estado e toma oito tipos de remédio por dia. Joaquim disse que, como outros trabalhadores da época do césio - ele consertava as máquinas que removiam rejeitos - não sabia que o trabalho era perigoso. "Ninguém falava que era perigoso. Na verdade, ninguém podia falar, havia policiais a paisana vigiando para que a gente não falasse do assunto", denuncia. "Quem falasse era mandado embora", ainda acrescentou. "Minha mulher também sofreu contaminação. Ninguém me falou na época que as roupas que eu usava e lavava em casa podiam provocar isso", lamenta.
"Ainda tenho medo de morrer"
Fiscal da Vigilância Sanitária há 38 anos, Celso Celestino Evangelista, 69 anos, foi um dos funcionários que tocaram a cápsula de césio quando ela foi deixada, na época, na sede do órgão pela cunhada de Devair Ferreira, o dono do ferro velho onde ela foi aberta, Maria Gabriela. "Ela (a cápsula) ficou quase um dia todo aqui na sede, sem que ninguém a tocasse. À tarde, o meu chefe me pediu para pegar o objeto e colocar aqui fora, no pátio. No outro dia, alguém lembrou que poderia ser material radioativo e chamou um físico conhecido, que mediu a radiação", descreveu.
Celestino lembra que tocou o objeto ser usar proteção. "Na hora eu não sabia o que era", disse. Celso diz que peritos que o examinaram não constaram contaminação radioativa, mas ele sente vários sintomas que o levam a discordar do diagnóstico. "Saúde para mim é bem estar físico e mental. Eu bebo muito, é difícil me controlar", revela, emocionado. "Espero a qualquer momento um câncer se manifestar em mim. Muitos colegas da Vigilância já morreram com câncer. Tenho pavor de ir no médico, li que os sintomas apareceram a partir de 15 anos. Neste tempo todo, tenho esta preocupação. Ainda tenho medo de morrer disso", revelou.