Nova chefe da Casa Civil gosta de futebol e tem nome de princesa
- Roger Pereira
- Direto de Curitiba
No âmbito familiar, a nova ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, indicada para assumir o cargo no lugar de Antonio Palocci pela presidente Dilma Rousseff, nega o perfil rígido e "técnico" atribuído a sua conduta política. Gleisi é torcedora atuante de futebol, frequenta o cinema e participa das atividades escolares dos filhos João Augusto, 9 anos, e Gabriela, 5 anos.
Sempre que possível, a ministra empreende programas com o marido, o também ministro Paulo Bernardo (Comunicações), e os dois filhos, o que inclui ir à Arena da Baixada torcer pelo time do coração da família, o Atlético Paranaense. Aos domingos, não abre mão do almoço sempre preparado por Paulo Bernardo.
O nome da ministra foi escolhido pela mãe, em homenagem à ex-atriz Grace Kelly, que se tornou princesa de Mônaco. "Só que quando meu pai foi me registrar, achou que a pronúncia 'Greici' estivesse errada e registrou o nome 'Gleisi'", conta. O pai de Gleisi era representante comercial e hoje, já aposentado, cuida de um sítio no município de Mafra (SC). Ela tem três irmãos - Bertoldo Paulo, Juliano Leônidas e Francis Mari, todos curitibanos - e se casou pela primeira vez em 1990 com o jornalista Neilor Toscan, com quem não teve filhos ao longo dos seis anos da união.
Conheça a trajetória política da nova chefe da Casa Civil
Gleisi é bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Curitiba e fez especialização em Gestão de Organizações Públicas e Administração Financeira na Escola Superior Administração Fazendária (Esaf) e no Fundo Monetário Internacional (FMI).
A ministra iniciou sua vida política no movimento estudantil. Participou de grêmios estudantis e fez parte da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes). Filiou-se ao PT em 1989 (depois de sair do PCdoB), foi assessora da bancada na Câmara e Curitiba e, bem relacionada dentro do partido, inclusive com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, exerceu alguns cargos no Executivo de administrações petistas. Foi secretária de Gestão Pública em Londrina (PR) e de secretária de Reestruturação Administrativa do Mato Grosso do Sul, além de ter sido diretora financeira da Itaipu Binacional, a maior hidrelétrica do país.
Gleisi disputou sua primeira eleição em 2006, sendo a grande surpresa daquela disputa para o Senado. Concorrendo contra Alvaro Dias (PSDB), largou com 2% nas pesquisas de intenção de votos e, muito por conta da rejeição do senador tucano, ex-governador do Paraná, teve 45% dos votos válidos, por pouco não superando o adversário.
Sua votação na eleição para o Senado a credenciou como o nome mais forte do PT paranaense, que, sem repetir a força que tem em outros Estados, nunca governou o Paraná nem administrou Curitiba. Com esse status, ela assumiu a presidência estadual do partido em 2008 e foi lançada candidata à prefeitura da capital paranaense, ocasião em que não repetiu o fator surpresa de dois anos antes e viu Beto Richa (PSDB) se reeleger, já no primeiro turno, com mais de 70% dos votos válidos, ficando na segunda posição, com pouco mais de 17%.
Em 2010, Gleisi foi uma das principais personagens da novela da montagem do palanque paranaense da então candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT). Sem um candidato forte ao governo, o PT viu em Osmar Dias (PDT) a oportunidade de construir uma coligação forte o suficiente para evitar que a vantagem histórica do PSDB no Estado desse a José Serra votos suficientes para comprometer a liderança petista no restante do País.
Osmar, muito mais próximo ao grupo político do PSDB do que o do PT no Paraná, exigiu, para garantir comprometimento do PT com sua campanha, Gleisi como sua vice. Pré-candidata ao Senado, a petista bateu o pé, recusou a exigência e nem mesmo com o pedido do então presidente Lula abriu mão de disputar o Senado. Dias acabou aceitando disputar as eleições tendo como vice o peemedebista Rodrigo Rocha Loures.
Na eleição para o Senado, Gleisi voltou a surpreender, sendo a candidata mais votada no Estado (3.196.468 votos), à frente do ex-governador Roberto Requião (PMDB) e deixando de fora o ex-deputado federal Gustavo Fruet (PSDB). O novo sucesso eleitoral (desta vez resultando em vitória nas urnas) a coloca como o principal nome do PT para a eleição estadual de 2014. Uma ala do partido defendia, inclusive, que a então senadora disputasse a prefeitura de Curitiba no ano que vem para se manter em evidência. Agora, com o novo cargo, a estratégia deve mudar.
O episódio envolvendo a indicação para vice de Osmar Dias parece contar muito sobre a personalidade da nova ministra. Simpática, carismática e com discurso conciliador em público, ela é apontada por correligionários como enérgica, impositiva e até mesmo teimosa a portas fechadas. Com a legenda nas mãos (faz parte do campo majoritário que comanda o PT estadual), ela costuma fazer valer sua posição nas questões partidárias - seja referente a alianças eleitorais ou posição de bancadas - e é criticada internamente por não dar muito espaço às outras correntes do partido.
A opção por não lançar candidato próprio e apoiar Osmar Dias (PDT), um político historicamente ligado aos grandes produtores agrícolas, foi duramente criticada por boa parte do partido, mas passou sem muita dificuldade na convenção petista graças ao empenho de Gleisi, de Paulo Bernardo e de seu grupo, formado também pelo secretário nacional de comunicação do PT, deputado federal André Vargas, e pelo atual presidente da legenda, deputado estadual Ênio Verri.
Hoje vice-governador pelo PSDB, Flávio Arns também reclama da postura do partido na eleição de 2006, em que era candidato a governador pelo PT. Naquele ano, o grupo de Gleisi apoiou o então candidato a reeleição Roberto Requião já no primeiro turno, em troca do apoio de Requião à candidatura de Gleisi ao Senado. "Abandonado", Arns conseguiu apenas 9% dos votos.
A segunda queda de Palocci
De acordo com reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo no dia 15 de maio, semanas antes de assumir a chefia da Casa Civil Antonio Palocci (PT) comprou um apartamento em São Paulo por R$ 6,6 milhões. Um ano antes, ele havia adquirido um escritório na cidade por R$ 882 mil. Com os novos bens, o patrimônio do ministro teria se multiplicado 20 vezes em quatro anos. O ministro alegou que o lucro foi gerado por sua empresa de consultoria, a Projeto, dentro da legalidade e declarado à Receita Federal. No entanto, ele alegou que cláusulas de sigilo o impediam de revelar maiores detalhes sobre os contratos ou seus clientes.
Mas a onda de denúncias continuou. Na Câmara, o PSDB levantou suspeitas sobre a liberação rápida de cerca de R$ 9 milhões em restituição do Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) logo após o primeiro turno das eleições de 2010 a uma empresa, a WTorre. Os valores, relativos aos anos-base 2007 e 2008, teriam sido liberados apenas um mês e meio após o pedido, em duas operações com diferença de quatro minutos entre uma e outra. Em contrapartida, segundo a oposição, a empresa teria financiado a campanha da presidente Dilma Rousseff no valor de R$ 2 milhões. A WTorre seria uma das clientes da empresa de Palocci.
Pressionado pela oposição e pela própria base para que apresentasse uma defesa em público, Palocci concedeu uma única entrevista sobre o tema. Na noite de 3 de junho, ele afirmou ao Jornal Nacional, da Rede Globo, que sua empresa não atuou com contratos públicos. O ministro disse que trabalhou em fusão de empresas, mas que nunca junto ao Banco Central, ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) ou ao Ministério da Fazenda para resolver problemas das empresas que procuraram seus serviços.
A Procuradoria Geral da República solicitou explicações ao ministro, mas decidiu arquivar os pedidos de investigação por considerar que não houve indícios de procedimentos ilegais. Mesmo assim, a pressão política sobre Palocci não diminuiu e a articulção da oposição para aprovar uma CPI contra Palocci avançava no Congresso. Diante disso, no dia 7 de junho, o principal ministro de Dilma Rousseff pediu demissão.