Lula chega à Índia para reforçar aliança política e negociar novos acordos
Com uma das maiores comitivas já enviadas a um país da Ásia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca em Nova Délhi nesta quarta-feira (18), no início da tarde pelo horário local, para uma de suas principais agendas internacionais do ano. A viagem, preparada desde 2025, marca um novo patamar na relação bilateral.
Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília
Esta é a 20ª viagem internacional do presidente Lula neste seu terceiro mandato. Ele escolheu a Ásia para mostrar que o Brasil continua em busca de novos parceiros. A visita ocorre em um momento em que a Índia preside o Brics e que importantes alianças geopolíticas e econômicas vão remodelando as relações internacionais. De Nova Délhi, o presidente segue para a Coreia do Sul, onde realiza visita de Estado.
A etapa indiana será uma viagem com programação intensa, cheia de sinais políticos e com o anúncio de diversos acordos e parcerias em áreas estratégicas, que vão de medicamentos, vacinas e defesa a minerais críticos. Os dois países ainda devem discutir a expansão do acordo Índia-Mercosul, hoje limitado a uma pauta de 450 produtos para cada lado.
Antes da visita de Estado, que acontece nos dias 20 e 21, Lula participa da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial (IA), organizada pelo primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, que o convidou para discursar durante a plenária, após a abertura do evento, que ficará a cargo do anfitrião.
O presidente ainda participa do Fórum Empresarial Brasil-Índia, organizado pela ApexBrasil, onde grandes empresas indianas presentes no território brasileiro devem anunciar seus investimentos para os próximos quatro ou cinco anos. A comitiva tem dez ministros confirmados. Segundo o embaixador Alex Giacomelli da Silva, 300 empresas brasileiras participam do evento.
Multilateralismo e inclusão digital
Os compromissos de Lula na capital indiana incluirão um encontro bilateral com o primeiro-ministro Narendra Modi e um banquete oferecido em sua homenagem pela presidente indiana, Draupadi Murmu. De acordo com o Itamaraty, Lula e Modi irão trocar impressões sobre a conjuntura mundial, em particular os desafios ao multilateralismo e ao comércio internacional, assim como a necessidade de reformas abrangentes no Conselho de Segurança da ONU. Existe ainda a perspectiva de reuniões bilaterais entre Lula e outros chefes de Estado e de governo também presentes na Cúpula de Inteligência Artificial, entre eles o francês Emmanuel Macron.
A última vez em que Lula esteve na Índia foi em setembro de 2023, quando participou da Cúpula do G20. Em seus discursos, ele vai sinalizar que o Brasil deseja reduzir sua dependência dos Estados Unidos e da China e busca uma aproximação com nações com quem tem interesses comuns. Em sua participação na cúpula de IA, o líder brasileiro deixará isso claro, ao defender o multilateralismo e a inclusão digital dos países em desenvolvimento.
Novo cenário geopolítico
Para Renato Baumann, ex-diretor da Cepal e do Ipea, esta aproximação é estratégica tanto dos pontos de vista econômico quanto político, porque existe um "claro potencial de complementariedade" entre os dois países.
"Essa visita do Lula à Índia acontece no âmbito desse novo cenário geopolítico e geoeconômico pós-abril de 2025, com o tarifaço do Trump e as diversas medidas imprevisíveis. Isso acontece também num cenário em que vários analistas, como o britânico Vince Cable, em seu livro "Eclipsing the West", chama a atenção para a probabilidade de que em mais uns 5, 10 anos a gente venha a ter um cenário internacional com três grandes potências: Estados Unidos China e Índia", disse à RFI.
Baumann também destaca a importância da Índia como um dos principais mercados do mundo, que continua em franco crescimento e com quem o Brasil tem saldo comercial negativo.
"Em nome dos Brics, note que a Índia é o único dos cinco originais (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) com os quais o Brasil tem déficit. O Brasil tem superávit comercial com todos os demais, exceto com a Índia. A Índia tem crescido a taxas bastante elevadas e tem o bônus demográfico bastante pronunciado", explica o economista.
Energia é pauta importante na relação bilateral. A Índia anunciou no ano passado que ampliará as compras de petróleo brasileiro, num esforço para reduzir a dependência de fornecedores como a Rússia, de onde provém grande parte da commodity que consome. A agenda, porém, não se limita ao setor energético: inclui também cooperação em defesa - com negociações para acordos técnicos na produção de equipamentos - e avanços na área tecnológica, especialmente em inteligência artificial.
As autoridades de ambos os lados estão explorando a cooperação no treinamento de modelos de IA para saúde e infraestrutura digital pública, visando aprimorar o alcance e a eficiência dos serviços públicos.
Exportações na pauta com a Coreia do Sul
Na etapa sul-coreana da viagem, Lula será recebido pelo presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, no dia 23, em visita de Estado. No topo da agenda estão negociações para a abertura do mercado sul-coreano para carnes bovinas brasileiras. As tratativas já duram quase duas décadas. Além disso, há interesse em setores de alta tecnologia, como semicondutores, e em outras áreas industriais consideradas estratégicas para o desenvolvimento e a reindustrialização do Brasil.
O presidente volta para Brasília no dia 24.