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Governo tem que dar renda a empresas e trabalhadores parados durante crise do coronavírus, diz vice da Fiesp

Para líder empresarial, país precisa de discurso unificado entre poderes para reduzir danos tanto para a saúde dos brasileiros quanto para a economia

26 mar 2020
06h19
atualizado às 07h39
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Já se passaram 29 dias desde que o primeiro caso do novo coronavírus foi confirmado no Brasil. Mas, até agora, em meio a medidas de distanciamento social que estão derrubando a atividade econômica em todo o mundo, as pequenas e médias empresas brasileiras que estão paradas continuam completamente desassistidas. Muitas, inclusive, não terão como pagar os salários de seus funcionários.

20/03/2020
REUTERS/Amanda Perobelli
20/03/2020 REUTERS/Amanda Perobelli
Foto: Reuters

"As empresas paradas não têm condições de pagar salário. E os trabalhadores desassistidos, tem que dar renda para eles durante o período da crise", afirma José Ricardo Roriz Coelho, engenheiro mecânico, 2º Vice Presidente Federação das Industrias do Estado de São Paulo (Fiesp), presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) e ex-presidente da Suzano Petroquímica. "Hoje, efetivamente, do que foi anunciado pelo governo, o que uma empresa já pode fazer [na prática]? Muito pouco, quase nada."

Roriz diz que "tomou um susto" ao assistir ao pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro, na noite de terça-feira (24), em que ele criticava as medidas de que teriam clima de "terra arrasada", como o fechamento do comércio e de escolas. "Intempestivamente, você vê no horário nobre de televisão o presidente falar praticamente o contrário do que tem sido dito no dia a dia das pessoas", afirma.

Para o empresário, medidas de injeção de dinheiro para empresas e trabalhadores paralisados pela crise seguiriam o exemplo do que já foi adotado por lideranças de diversos países, inclusive por Donald Trump, presidente dos EUA com quem Bolsonaro tem pública e declarada afinidade. Ao defender a volta das pessoas ao trabalho mesmo com a pandemia de coronavírus, por exemplo, Bolsonaro alegou que Trump iria tomar a mesma medida.

"Qual a diferença do Brasil? A diferença é que o Trump injetou na economia US$ 2 trilhões", afirma Roriz, em referência ao plano anunciado pelo presidente americano para aliviar as consequências da pandemia do coronavírus sobre a economia do país.

Mesmo na crise, no entanto, a demanda não parou para o setor fabricante de plásticos. O empresário diz que, em tempos de alta demanda por produtos hospitalares e descartáveis, a prioridade da indústria de plástico tem sido manter a produção, mesmo com muitas medidas para proteger os funcionários. "A preocupação nossa agora não é com aumentar margem de lucro. Pelo contrário, muitas das empresas estão operando sem margem nenhuma. O importante para nós agora é suprir o fluxo de suprimento para hospitais, para as famílias que estão em casa".

Leia os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil - O que o senhor achou do pronunciamento do presidente sobre o coronavírus?

José Ricardo Roriz Coelho - Eu tomei um susto porque o ministério da Saúde tem feito o que eu considero um excelente trabalho de comunicação sobre o que a população deve fazer para obedecer esses protocolos de segurança, de saúde, e que, pelo que eu tenho acompanhado, está muito alinhado às recomendações da Organização Mundial da Saúde. Então você passa a tarde inteira, todo mundo em casa, tentando atender esses protocolos, e daí, intempestivamente, você vê no horário nobre de televisão o presidente falar praticamente o contrário do que tem sido dito no dia a dia das pessoas.

BBC News Brasil - O que o senhor esperava do pronunciamento?

Roriz - Eu acho que o pronunciamento tem que ser alinhado ao que está sendo dito por especialistas. Acho que é um presidente da República, para fazer um pronunciamento para a nação inteira, ele deve se basear no que é dito pelos especialistas não só da equipe dele, mas das equipes de outros países também. O susto que eu levei é: será que tudo isso que a população está escutando não é o que passa pela cabeça da principal liderança do país, que obviamente deveria ser o presidente da República? Isso gera uma preocupação muito grande, a população obviamente vai ficar confusa. Lógico que têm os que estão mais alinhados com o presidente que vão fazer uma coisa, outros com o que a OMS, com o que o mundo inteiro está fazendo. A gente vê exemplos lá fora, como Coreia do Sul, e maus exemplos, como Itália. Qual deles vamos seguir no Brasil?

BBC News Brasil - Como estão as empresas de plástico durante a crise?

Roriz - A Abiplast reúne 12,5 mil empresas no Brasil. Em um momento como esse o setor está fazendo todo tipo de produtos para saúde, como seringas, bolsa de soro, até tubo, vestimenta de médicos, descartáveis para hospitais, deliveries. A preocupação nossa agora não é com aumentar margem de lucro. Pelo contrário, muitas das empresas estão operando sem margem nenhuma. O que significa que é muito mais caro produzir em situação como essa. Tem que ter todo o cuidado com os funcionários, com o transporte e etc. E muitas dessas fábricas estão funcionando a meia carga. Seria muito mais barato parar e dar férias coletivas para todo mundo, mas estamos operando para que não faltem produtos para áreas essenciais em momentos como esse.

BBC News Brasil - Alguns empresários têm sido alvo de muitas críticas por declarações que defendem manter a economia funcionando, mesmo sob o risco de perder vidas. O que o senhor acha?

Roriz - A minha opinião como empresário é a seguinte. Resolvido, ou pelo menos enfrentada a questão humanitária, que fica em primeiro lugar, você tem a crise econômica que vai ter um impacto na vida das pessoas também. O desemprego, a perda de salários, a perda de renda. Agora, atendendo o que é indicado por especialistas da OMS e da área médica você evita uma concentração da contaminação em um curto espaço de tempo, onde você tem milhares de pessoas desassistidas, e você não teria leito no hospital para enfrentar essa situação. Como aconteceu na Itália.

Na minha opinião, é melhor enfrentar essa quarentena agora e mitigar um pouco a evolução desse pico. E manter em um patamar mais baixo o número de pessoas que vão precisar de atendimento hospitalar.

BBC News Brasil - O senhor concorda com essas declarações?

Roriz - Não, eu não concordo. Nós, do nosso setor, estamos produzindo esses produtos sem margem. o importante para nós agora é suprir o fluxo de suprimento para hospitais, delivery. Do ponto de vista de empresário, se tiver uma desorganização geral, as pessoas vão para a rua, vão entrar nos supermercados e fazer saques, vai ter uma desorganização bem maior do que se tivermos uma boa organização e liderança. Executivo, Judiciário, Legislativo tinham que convergir.

BBC News Brasil - Qual tem sido a preocupação dos empresários do setor?

Roriz - A prioridade número um é o pagamento de salários, justamente porque se essas pessoas que já estão confinadas não tiverem o seu salário depositados em dia, vai bater desespero e vai ter um caos na economia. E com que duração? Você não sabe quando vai controlar isso depois. Melhor ter o cuidado com a saúde, todos os protocolos que estão sendo comunicados, e as pessoas receberem os seus salários.

Agora, o que o governo precisava fazer? Tem um grupo de pessoas desassistidas e tem empresas que não estão vendendo nada. Os setores mais prejudicados não têm condição econômica de fluxo de caixa para continuar trabalhando. E o mundo inteiro está ajudando essas empresas. A diferença do Brasil - tem muita gente falando 'ah, mas o Trump fez isso lá'. A diferença é que o Trump injetou na economia US$ 2 trilhões.

BBC News Brasil - E aqui?

Roriz - Até agora, as empresas não viram nada. Imagina um salão de beleza que não pode trabalhar, não está recebendo nada, como vai fazer? Essas médias e pequenas empresas estão totalmente desassistidas.

BBC News Brasil - Qual deveria ser a prioridade do governo agora?

Roriz - Eu acho que você não pode deixar que diminua o consumo, ou seja. Você tem que ter salário para as empresas e tem que ter um programa do governo para suprir essas pessoas que estão sem emprego ou desassistidas agora, durante esse tempo elas tenham algum tipo de remuneração.

'Tem que ter salário para as empresas e tem que ter um programa do governo para suprir essas pessoas que estão sem emprego ou desassistidas, para que durante esse tempo elas tenham algum tipo de remuneração', diz Roriz
'Tem que ter salário para as empresas e tem que ter um programa do governo para suprir essas pessoas que estão sem emprego ou desassistidas, para que durante esse tempo elas tenham algum tipo de remuneração', diz Roriz
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC News Brasil - Injetar dinheiro tanto para pessoas quanto empresas?

Roriz - Eu acho que as empresas paradas não têm condições de pagar salário. E os trabalhadores desassistidos, tem que dar renda para eles durante o período da crise. Nós ainda não estamos nem no auge da crise.

Hoje, efetivamente, do que foi anunciado, o que uma empresa já pode fazer? Muito pouco. Dizer que 'ah, mas os pagamentos vão ser postergados'. O problema é que a empresa não tem fluxo de caixa hoje. O que tem de efetivo que pode ser implementado hoje para as empresas resolverem seus problemas? Quase nada.

BBC News Brasil - O que preocupa mais nesse tipo de divergência de estratégia entre presidente e ministério da Saúde?

Roriz - Eu acho que a hora não é de divergência. Se existem dúvidas, acho que o presidente, ministro da Saúde, presidente do Supremo, Congresso, eles devem ter um discurso único para a população. Se tiverem divergências lá entre eles, eles que discutam. Mas quando vier a público, para não confundir a população, tragam o que é que a gente precisa fazer para passarmos por essa crise com o menor impacto possível na saúde das pessoas e na economia.

BBC News Brasil - O senhor está mais pessimista ou pessimista em relação ao Brasil nesta crise?

Roriz - Eu sou otimista que eu acho que temos que aprender com os erros. Nós erramos. E tem tempo para arrumar até, pelo que o próprio ministro da Saúde falou, nós vamos ter um colapso no fim de abril. E vai durar até setembro. Então temos tempo para ajustar nossas ações e discursos e precisamos de uma liderança firme que mostre para o país o rumo que está tomando e o que está fazendo para que passemos e cheguemos o mínimo machucado possível depois dessa crise.

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