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EUA transformam facções em variável de campanha presidencial no Brasil

Toda medida externa que cai num ano eleitoral deixa de ser o que era. A designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos nasceu instrumento de segurança e de risco financeiro. Mas a quatro meses da eleição, se transformou em variável de campanha. E o que a torna interessante é que ela rende para os dois lados ao mesmo tempo.

15 jun 2026 - 12h34
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Thiago de Aragão, analista político

Antes dos efeitos, um ponto que precisa ficar de pé, porque a leitura preguiçosa já contaminou o debate: a designação não é obra de Flávio Bolsonaro (candidato do Partido Liberal à presidência) nem da família. O Departamento de Estado vinha costurando isso há pelo menos dois anos, dentro de uma lógica própria de Washington, a de jogar a moldura de contraterrorismo sobre o crime organizado latino-americano. O lobby da oposição acelerou e se pendurou ruidosamente num movimento que já corria. Não o criou. Quem troca coincidência de calendário por causa atribui a Brasília um poder de pauta sobre Washington que ela nunca teve.

Dito isto, a sequência importa. No dia 28 de maio, horas depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, receber Flávio Bolsonaro na Casa Branca, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, anunciou a classificação das duas facções. A designação plena entrou em vigor em 5 de junho. O calendário enfia a medida dentro da disputa, e é isso que a torna analiticamente rica.

Comece pela leitura óbvia. Segurança pública é a maior preocupação do eleitor brasileiro, e é o terreno em que o campo de Flávio Bolsonaro historicamente joga em casa. Pela lógica de campanha, equiparar PCC e CV ao Hamas e ao Estado Islâmico reforça a narrativa de mão firme e ainda projeta um aliado externo poderoso no combate ao crime. Para esse cálculo, a designação é ativo.

O eleitor não lê uma medida externa só pelo prisma da segurança. Lê, ao mesmo tempo, pelo prisma da soberania. Uma classificação decidida fora do país, sobre facções nacionais, aciona um reflexo antigo, a desconfiança de tutela estrangeira. Para o governo do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, isso abre espaço para puxar o discurso de defesa da soberania. Pela mesma medida, pelo mesmo motivo, a designação também é ativo para o outro campo.

Aqui está o nó. A mesma variável alimenta os dois discursos centrais da eleição. Ordem contra o crime de um lado, soberania nacional do outro. Quem ganha não depende do fato, depende de qual chave de leitura prevalece no eleitor entre hoje e outubro. Disputa de enquadramento, não de dado.

A partir daí, os desdobramentos se ramificam. Vale mapeá-los com frieza.

Se a chave da segurança vencer, o tema mantém a eleição no terreno onde a oposição é mais forte, e a cooperação com Washington vira credencial. Se a chave da soberania vencer, o tema escorrega para o terreno onde o governo articula melhor, e a medida vira símbolo de ingerência a ser repelido. Os dois cenários são plausíveis, e a pesquisa de hoje vale pouco para dizer qual prevalece em outubro.

Lente do bolso pune quem governa

Há um terceiro desdobramento que costuma passar batido, porque mistura economia com política. A designação não vem sozinha. Vem acompanhada da proposta de tarifa de 25% e da exposição do sistema financeiro brasileiro ao risco de sanção secundária.

Enquanto esses efeitos forem abstratos, a briga fica no campo simbólico, onde soberania e segurança rendem voto. No instante em que virarem concretos, custo mais alto, atrito bancário, pressão sobre o emprego industrial, o eleitor larga a lente simbólica e pega a lente do bolso. E a lente do bolso, historicamente, pune quem governa, não quem se opõe. Esse vetor corre contra o governo, ainda que a chave da soberania o favoreça no curto prazo.

Some os vetores. A designação é uma variável de sinal trocado. Ajuda a oposição no eixo segurança, ajuda o governo no eixo soberania, e tende a prejudicar o governo se e quando o custo econômico se materializar. Nenhum dos dois lados controla qual desses efeitos domina, porque o que decide não é a medida. É a ordem em que os impactos chegam ao eleitor.

E existe um desdobramento que sobrevive à eleição e não escolhe vencedor. Classificar facções brasileiras sob a moldura de contraterrorismo cria um precedente que passa a integrar a relação Brasil-Estados Unidos de forma permanente. Vale para quem sair das urnas em outubro, seja quem for. O candidato que hoje trata a medida como aliada é o mesmo que amanhã, no poder, herda o precedente e o que vem com ele, inclusive o que não previu.

A conclusão é simples e incômoda para os dois campos. A designação foi incorporada à eleição como se fosse ativo de mão única. Não é. É variável que rende para quem souber enquadrá-la melhor no curto prazo, e que cobra de quem estiver governando quando a conta econômica chegar. Quem a trata como vitória certa, de qualquer lado, está confundindo o efeito que deseja com o efeito que a medida produz. Em ano eleitoral, essa confusão pode sair cara.

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